Entre tanta qualidade, há dois extra-terrestres que se destacam. Com efeito, tudo o que não seja uma vitória final de Real Madrid ou Barcelona terá sempre de ser visto como uma surpresa (mais pela qualidade de Culés e Merengues do que por debilidade dos adversários, ao contrário do que alguns querem fazer crer). Para os Blancos, este campeonato supõe uma dose extra de pressão, devido ao péssimo registo recente– apenas uma liga nos últimos 7 anos – pelo que é crucial inverter esta tendência. Benitez substitui Ancelotti com o Triplete do eterno rival bem presente e, como sempre, a exigência do Bernabeu será máxima. O Espanhol é conhecido pela sua obsessão pela organização e pelo equilíbrio (apesar dos registos defensivos do Nápoles não terem sido famosos) e um dos seus maiores desafios será mesmo conferir alguma consistência e ordem ao futebol Madridista, muitas vezes facilmente apanhado descompensado pelos rivais. Este foi um dos defesos mais calmos da presidência de Florentino Pérez, marcado pelas novelas De Gea e Sérgio Ramos mas sem (por agora) a contratação de um verdadeiro galáctico. Não obstante, o elenco Merengue dá óbvias garantias para lutar com o Barcelona. Os Catalães vêm embalados pela fenomenal temporada transacta e quererão repetir o feito, com a garantia de que se o trio da frente mantiver o nível da primeira metade de 2015 será muito difícil travar a equipa de Luis Enrique. No entanto, algumas dúvidas pairam sobre Camp Nou, sobretudo desde a derrota na Supertaça que impediu a consumação do desejado Sexteto. A defesa tem deixado a desejar neste início de época, sofrendo 9 golos nos 3 primeiros jogos , começando o campeonato desfalcada de Alba (por lesão) e de Piqué (por castigo). Por outro lado, as saídas de Xavi e de Pedro delapidam ainda mais um banco que já não era famoso (algo que não foi muito visível em 2014-2015 porque nenhum dos habituais titulares teve lesões graves ou baixas de forma), e que, por exemplo, tem apenas os jovens Sandro e Munir como alternativas ao tridente. Certo é que estamos perante dois conjuntos do mais alto nível do futebol Mundial e que protagonizarão uma luta feroz pelo título.
Atrás de Real Madrid e Barcelona estão Atlético de Madrid, Sevillha e Valência, equipas cujo o principal objetivo é assegurar o último lugar do pódio, mas que não rejeitarão intrometer-se entre os dois gigantes, sobretudo os Colchoneros. Com efeito, o clube do Vicente Calderón foi um dos que melhor se reforçou este verão, já que apesar das saídas de Miranda, Arda e Mandzukic, foram contratados Savic, Felipe Luís, Ferreira Carrasco, Vietto e Jackson (para lá do regresso de Óliver), o que leva a acreditar que, se a equipa conseguir ultrapassar a saída de Arda (que era o elemento mais criativo, o que melhor saía em posse de zonas de pressão, permitindo, com a sua técnica e transporte, que a equipa subisse linhas e respirasse – tendo em conta este perfil, Oliver pode assumir esse papel), fica mais forte do que na temporada passada, já que, por exemplo, Felipe Luís é melhor do que Siqueira e Jackson não só é melhor do que Mandzukic como a sua técnica e capacidade de jogar de costas para a baliza podem ser fundamentais para Simeone. Tudo isto, bem como a continuação de um projecto que parece sólido, deixam antever um Atlético altamente competivo. Mais a Sul está o bicampeão da Liga Europa, o Sevilha, que manteve Unai Emery e se reforçou muito bem (ter Monchi, um dos melhores directores desportivos do mundo, ajuda imenso) com Kakuta, Kroh-Delli, Konoplyanka (pode ser um dos melhores “Rookies da Liga) ou Immobile, assegurando um plantel completo e homogéneo, que sustenta uma ideia de jogo baseada na solidez, força nas bolas paradas e transições. Já o Valência de Nuno Espírito Santo teve um Verão mais atribulado, com polémicas em redor da cada vez maior influência de Jorge Mendes no clube, com o arrastar da novela Otamendi e, apesar da valia de Ryan (ainda assim, inferior a Diego Alves), de Bakkali e de Mina, não houve nenhuma contratação que subisse o nível do elenco (Gaitán continua a ser falado e teria esse perfil). Para Nuno, muita da temporada define-se já em Agosto, no Playoff frente ao Mónaco para chegar à Liga dos Campeões.
Entre tanta qualidade, fica “caro”conseguir obter um posto para as competições continentais, e prevê-se luta feroz pelo sexto lugar, que dá acesso à Liga Europa, com os principais candidatos a serem Athletic, Villareal, Celta de Vigo e Real Sociedad. A equipa de Valverde entra no campeonato muito motivada pela vitória na Supertaça, tendo como argumentos a identificação de todos os jogadores com o clube e a sua mística, uma base consolidada e o facto de já ter alguma rodagem competitiva, fruto da presença nas eliminatórias da Liga Europa. Quanto ao Submarino Amarelo, apresenta um misto de renovação e continuidade. Continuidade porque o treinador se mantém, conservando a (sedutora) ideia de jogo, baseada na posse, bem como alguns jogadores importantes como Asenjo (de fora por lesão até Outubro/Novembro) Musacchio, Mário ou Bruno. Renovação porque abandonaram o clube nomes como Gio, Uche ou Vietto, chegando ao El Madrigal reforços sonantes como Samu, Castilejo, Leo Baptistao ou Roberto Soldado. Já os Galegos seguem com Berizzo, o “Novo Bielsa”, no banco, assegurando um futebol entusiasmante e ofensivo, alicerçado num elenco onde pontificam Sérgio (belo guardião), Augusto Fernandez, Orellana e, sobretudo, Nolito (muitas das esperanças do Celta assentam na sua continuidade), tendo como aquisições Iago Aspas (que em 2013 fez uma grande época no clube, o que lhe valeu a ida para o Liverpool) ou o campeão Europeu de sub-21 Guidetti). A ter em conta há ainda a Real, de David Moyes, que assegurou a permanência de Rulli (futuro titular da baliza da Argentina), Inigo Martínez, Canales, Granero ou Vela e juntou-lhes a juventude de Reyes e de Bruma (que tem uma grande oportunidade para se mostrar ao mundo do futebol).
Finalmente, prevê-se uma luta feroz pela manutenção. O Málaga foi muito delapidado (perdeu Juanmi, Castilejo ou Samu) e deverá fazer uma temporada tranquila, tal como o Espanhol (atenção a Asensio ). Depois, vem um enorme pelotão que desejará competir no mesmo escalão em 2016-2017. Dele fazem parte o Rayo (que como todos os Verões, perdeu muitas unidades importantes e viu entrarem jogadores a custo zero de qualidade duvidosa, mas a competência de Jémez poderá fazer a diferença), o Eibar (repescado pela despromoção administrativa do Elche ), o Levante (de Ghilas e Deyverson), o Getafe (com alguns jovens interessantes, como Velázquez, o ex-Vitória de Guimarães Bernard ou Medrán), o Deportivo, o Granada e os promovidos Bétis (com o fantástico Ceballos), Las Palmas e Gijón.
Serão meses de competição intensa (com a novidade de uma espécie de “Boxing Day”nos dias 30 e 31 de dezembro), recheados de polémica (como é típico de um país latino), espectáculo, emoção e mil e um motivos de interesse, ou não fosse esta a Liga com maior qualidade individual e colectiva do planeta.
Pedro Barata