À primeira vista, esta frase de Napoleão Bonaparte parece totalmente descontextualizada, no entanto, ajuda-nos a desvendar o grande objectivo já assumido pelos dirigentes chineses: transformar a China numa potência do futebol internacional. E este sonho, por enquanto muito distante, já esteve mais longe de se tornar realidade.
Motivados pelo recente desempenho da selecção chinesa na Taça das Nações Asiáticas, os clubes nacionais protagonizaram um defeso bastante animado, aumentando ainda mais o apetite para uma nova temporada na Superliga Chinesa. O principal escalão do futebol chinês arrancou no último fim-de-semana com inúmeras caras novas. A contratação de jogadores estrangeiros juntamente com os salários exorbitantes que muitos deles auferem, tornaram-se de resto nas principais imagens de marca do futebol chinês durante os últimos anos. Ainda assim, cada clube só poderá incluir 5 jogadores estrangeiros no seu plantel, sendo que um deles terá de ser obrigatoriamente de origem asiática. Desses 5 jogadores, apenas 4 poderão jogar em simultâneo.
Com um formato semelhante ao de muitas ligas europeias, a Superliga Chinesa irá desenrolar-se ao longo de 30 jornadas, nas quais as 16 equipas que a compõem, se irão defrontar duas vezes entre si. No final da temporada, os dois últimos classificados serão automaticamente despromovidos. No topo da tabela, os três primeiros classificados garantem, juntamente com o vencedor da Taça, o apuramento para a Liga dos Campeões Asiáticos, a mais importante competição de clubes da Confederação Asiática de Futebol (AFC). Se os finalistas da Taça tiverem terminado o campeonato no pódio, então a última vaga será entregue ao quarto classificado.
A edição de 2015 contará com a presença de duas novas equipas, os recém-promovidos Chongqing Lifan e o Shijiazhuang Ever Bright que ocuparam os lugares do Dalian Aerbin e do Harbin Yiteng, entretanto despromovidos à Liga Jia.
Em relação à luta pelo título, o Guangzhou Evergrande parte com todo o favoritismo. O actual tetracampeão em título cedeu Alessandro Diamanti e Alberto Gilardino à Fiorentina, mas em contrapartida, assegurou a contratação dos brasileiros Ricardo Goulart, um dos melhores jogadores do Brasileirão por uma verba recorde, e Alan, ponta-de-lança que apontou quase uma centena de golos durante as cinco temporadas em que representou os austríacos do Salzsburg. A chegada destes dois jogadores reforça a armada brasileira do clube, da qual também fazem parte o médio Renê Júnior e o avançado Elkeson, melhor marcador da Superliga Chinesa nas duas últimas temporadas. Entre o contingente asiático, destacam-se o sul-coreano Kim Young-Gwon e os internacionais chineses Zheng Zhi, capitão de equipa, Gao Lin e Zhang Linpeng. No entanto, apesar de todas estas movimentações, a mais importante aconteceu no banco de suplentes. Marcello Lippi, até aqui treinador da equipa principal, colocou um ponto final na sua carreira para abraçar as funções de director desportivo. Contudo, o técnico italiano de 67 anos, acabaria mesmo por abandonar o clube em definitivo alegando problemas de saúde. A confiança recaiu então em Fabio Cannavaro, de 41 anos, que enfrenta a sua primeira experiência como treinador principal. À partida, a sua tarefa parece facilitada mas tudo o que não signifique a conquista do pentacampeonato, poderá ser encarado como um falhanço. A Liga dos Campeões Asiáticos, conquistada pela primeira e única vez pelo clube em 2013, também faz parte dos objectivos para a nova temporada, apesar da forte concorrência dos clubes do Médio Oriente.
A principal ameaça na luta pelo título surge na capital chinesa, Pequim. O Beijing Guoan, que já foi orientado pelo português Jaime Pacheco, ficou a apenas três pontos de recuperar um título que lhe escapa desde 2009. O clube apostou na continuidade de Gregorio Manzano, treinador do ano, no comando da equipa e só existem razões para acreditar num desempenho superior ao da temporada transacta. O clube perdeu Zhang Xizhe para o Wolfsburgo (mais de 50 milhões de telespectadores assistiram à conferência de imprensa de apresentação no clube alemão) mas apostou na contratação de Yu Dabao, avançado que somou uma breve passagem pelo futebol português, e do sueco Erton Fejzullahu, a título definitivo, depois das excelentes impressões deixadas durante os primeiros seis meses no futebol chinês. O talento de Pablo Batalla, completamente recuperado da grave lesão que sofreu, a veia goleadora de Dejan Damjanovic e a experiência de elementos como Darko Matic, Ha Dae-Sung, Shao Jiayi ou do capitão Xu Yunlong, continuarão a fazer a diferença.
Mais renhida que a luta pelo título promete ser a disputa pelo último lugar do pódio. Shangai East Asia, Shandong Luneng, Guangzhou R&F e Shangai Shenhua, todas elas se propõem a um lugar que lhes garanta o apuramento para a Liga dos Campeões Asiáticos.
Por ser a minha grande aposta para a revelação da temporada, o Shangai East Asia surge à frente dos restantes. O forte investimento no reforço do plantel foi acentuado pela chegada ao comando de técnico de Sven-Göran Eriksson, que conduziu o Guangzhou R&F a um inédito terceiro lugar e consequente apuramento para a Liga dos Campeões Asiáticos. Juntamente com o experiente treinador sueco, chegou também o médio criativo brasileiro Davi, nomeado para a equipa do ano. No entanto, todos os olhares estarão fixados em Darío Conca. Um ano depois de regressar ao Fluminense, clube no qual se notabilizou, o médio ofensivo argentino, que em 2011 se tornou no terceiro futebolista mais bem pago do mundo, só superado pelos extraterrestres Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, regressou ao futebol chinês depois de três anos de enorme sucesso com a camisola do Guangzhou Evergrande, com o qual conquistou três campeonatos nacionais, uma taça, uma supertaça, e mais importante que tudo isto, a Liga dos Campeões Asiáticos, numa campanha em que assumiu um papel preponderante para esse desfecho. Uma grande parte do sucesso desta equipa estará dependente do entendimento que Conca será capaz de estabelecer com Tobias Hysén, experiente ponta-de-lança sueco, que apontou 20 golos no seu ano de estreia no futebol chinês.
Não muito distante surge o Shandong Luneng, actual detentor da Taça, o que lhe valeu o apuramento para a Liga dos Campeões Asiáticos. A equipa é orientada pelo brasileiro Cuca, que conduziu o Atlético Mineiro à conquista da Taça dos Libertadores em 2013. O defeso não registou grandes movimentações. Vágner Love, cujo rendimento deixou algo a desejar, regressou ao futebol brasileiro. Diego Tardelli, que reencontra Cuca com quem já havia trabalhado no Galo, foi o eleito para colmatar a saída do seu compatriota. A frente de ataque fica completa com Hao Junmin, internacional chinês que soma uma passagem muito discreta pelo Schalke 04 e Walter Montillo, a grande figura da equipa laranja e o principal municiador do ataque. Para já, a temporada arrancou da melhor maneira com a conquista da Supertaça, perante o Guangzhou Evergrande, após a marcação de grandes penalidades.
O Guangzhou R&F lidou bem com a saída de Sven-Göran Eriksson e de Davi, mas parte em desvantagem nesta corrida. Cosmin Contra deixou o Getafe em troca de muitos milhões e trouxe consigo Míchel, médio espanhol com o qual conviveu durante alguns meses em Espanha. No entanto, uma boa temporada está intimamente dependente da eficácia do ponta-de-lança Abderrazak Hamdallah, a estrela da equipa. Melhor marcador do campeonato marroquino (Botola) em 2012/13 e segundo melhor marcador do campeonato norueguês (Tippeligaen) em 2013, o internacional marroquino de 24 anos, foi contratado pelo Guangzhou R&F a pedido expresso de Sven-Göran Eriksson. No seu ano de estreia, apontou 22 golos no campeonato em outras tantas partidas, incluindo dois hat-tricks no espaço de oito dias, sendo apenas superado por Elkeson, com 28 golos, na lista de melhores marcadores. Um jogador que merece sem dúvida ser seguido com outra atenção por parte dos clubes europeus.
Em relação ao Shangai Shenhua, é complicado arriscar uma previsão. Depois do decepcionante 9º lugar obtido na última temporada, o clube despediu Sergio Batista e investiu imenso no reforço do plantel. Ao capitão de equipa Giovani Moreno e ao ponta-de-lança Paulo Henrique, juntaram-se os nomes de Stoppila Sunzu, central de 25 anos internacional pela Zâmbia e que chegou a ser sondado pelo Arsenal, Avraam Papadopoulos, central de 30 anos internacional pela Grécia e o veterano Tim Cahill, que deu muito boa conta de si durante a Taça das Nações Asiáticas, que viria a conquistar com a selecção australiana. Para orientar esta equipa, o escolhido foi Francis Gillot, técnico francês de 55 anos, que orientou o Bordéus durante as últimas três temporadas.
Estas são as equipas que parecem reunir argumentos para lutar por objectivos mais ambiciosos, no entanto, equipas como o Jiangsu Sainty (Sammir e vários internacionais chineses), o Changchun Yatai (Marcelo Moreno e Moussa Maazou aumentam e de que maneira o poder de fogo de uma equipa que já contava com Szabolcs Huszti) e o Tianjin Teda (Hernán Barcos) deverão ser protagonistas de alguns resultados surpreendentes ao longo da temporada.
Os próprios recém-promovidos parecem ter jogado pelo seguro contratando jogadores que lhes permitirão assegurar a manutenção com maior ou menor dificuldade. O Chongqing Lifan contratou Emanuel Gigliotti, Jajá ou Issam El Adoua. Já o Shijiazhuang Ever Bright garantiu algumas caras bem conhecidas para os adeptos portugueses: Rodrigo Defendi e Mario Rondón, antigos jogadores do Vitória de Guimarães e do Nacional da Madeira, respectivamente.
Todas as outras equipas que não foram mencionadas farão o que estiver ao seu alcance para escapar aos dois últimos lugares da tabela, com especial ênfase, pela negativa, para o Guizhou Renhe, que participou nas últimas duas edições da Liga dos Campeões Asiáticos, mas que para 2015, face à incapacidade para substituir os seus melhores jogadores (o internacional chinês Yu Hai assinou pelo Shangai East Asia e o antigo internacional bósnio Zvjezdan Misimović anunciou a sua retirada) deverá viver momentos bastante conturbados. É portanto a minha aposta para a grande desilusão da temporada. O Hangzhou Greentown, o Liaoning, o Henan Jianye e o Shangai Shenxin completam o lote de aflitos.
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