O derby dos derbys

Um Sporting-Benfica não é um jogo de futebol. É uma catarse de emoções. Um dia Fernando Gomes comparou um golo a um orgasmo. Ora se assim é – e o bi-bota é um dos mais avalizados para o dizer – um golo no derby é uma espécie de fetiche juvenil cumprido e elevado à décima potência.

O derby não se joga em 90 minutos. Quem pensa isso não sabe o que é sentir o futebol. O derby começa quase um mês antes, quando se antecipam cenários, quando uma lesão de um jogador nuclear assume foros de drama. Continua nas duas jornadas anteriores ao jogo, com a gestão de cartões e do cansaço acumulado.

É o jogo que ninguém quer falhar, o encontro no qual os melhores têm de marcar presença. Nos treinos a intensidade aumenta e as palavras ditas pelos diversos agentes desportivos assumem contornos mais relevantes.

Espicaçam-se ódios de estimação, confrontamos os nossos vizinhos e nunca nos esquecemos de dar uma ferroada aquele tipo doente, adepto do nosso clube rival, que frequenta o nosso café. Sim, ele é um tinhoso doente da bola, mas nós não ficamos atrás. Recordamos jogos grandiosos do passado e somos confrontados com as imagens visuais de dias que, se pudéssemos, riscaríamos da nossa memória. Falamos das arbitragens, do sistema, dos adeptos, das claques, dos estádios, da cor das camisolas.

Falamos de tudo e não falamos de nada, porque nos dias que antecedem o derby todos têm esperança numa vitória, mas todos temem a derrota. Sonhamos com uma goleada, mas tememos que o resultado desejado seja o inverso.

O derby vive-se em casa, à mesa, entre pais e filhos, maridos e mulheres, família e vizinhos. Mas também se vive no café, no restaurante, no barbeiro, na churrasqueira, no centro de saúde, numa qualquer repartição pública e no local de trabalho. E é aí que o derby dói mais, porque à família podemos mandar passear macacos caso nos estejam a chatear, mas ao patrão já não dá assim tanto jeito ser grosseiro. Mais do que perder os três pontos, tememos o olhar de gozo, o escárnio e maldizer de quem, ao longo do ano, pouco ou nada nos diz, mas que naquele dia não perde o ensejo de nos dar uma ferroada.

Mas o derby é mágico porque é vivido com a mesma intensidade em Lisboa, em Évora, em Castelo Branco, em Ponta Delgada ou no Funchal, como o é na Cidade da Praia, em Luanda, Maputo, Paris, Genebra, Díli, Caracas, Joanesburgo, Rio de Janeiro ou Nova Jérsia.

Aproxima-se a hora. Vestimo-nos a rigor. Cachecol, camisola, carteira, bilhete e cartão de sócio. Tudo a postos. Vamos vibrar. Ouvem-se as buzinas dos carros quando se anuncia a chegada ao estádio. Os arrumadores procuram fazer pela vida e acondicionar milhares de viaturas em meia dúzia de ruas circundantes. Encontramos o lugar, damos a moedinha e avançamos.

Percebemos o magote de gente, sempre mais os da casa, que olham com desdém os grupos de amigos mistos, onde os nossos se misturam com os deles. Devia ser proibido ser amigo do rival neste dia. As amizades ficam para depois, porque o derby é muito mais do que um jogo. Ouvem-se os petardos, vemos polícia de intervenção a passo acelerado e percebemos que o derby também é isto. Clima de cortar à faca, inimizades, ódios de estimação ancestrais.

Demoramos uma hora para entrar e estamos em contacto direto e corporal com gente que não conhecemos mas que partilham connosco um amor. Cantamos e bebemos uma jola para arrefecer a garganta e aquecer os ânimos. Estomago forrado com a bifana da ordem, e siga para a bancada que o aquecimento das equipas é o “estágio” dos adeptos. Primeiras palmas, primeiros apupos à entrada dos guarda-redes. Dedos médios estendidos e festival de impropérios, que o outro é uma espécie de sarraceno em terra santa.

Anunciam-se os onzes e temos fé. Julgamos adivinhar o resultado, os marcadores dos golos e até imaginamos o momento do remate decisivo. O estádio enche-se de fumo, de gritos, um coro de vozes, a compasso, alinha o apoio aos nossos e chama tudo o que pode aos outros. Que são os maus. Claro está.

Apito inicial.

Quem tem fé benze-se, os outros beijam o símbolo e haja fé. Vamos equipa. Salta, chuta, corre. Mais alto, mais forte, mais longe. Estamos no bom caminho. Em frente rapaziada. É agora. Goooooooooooooooolo!!!!

Tudo louco, tudo a saltar. Abraçamo-nos ao vizinho do lado, que não conhecemos nem vamos voltar a ver tão cedo. Mas naquele momento mais parece o nosso irmão ou um velho amigo de infância. Cantamos ainda mais alto o nome do clube e do marcador do golo. Os outros ligam para casa para saber se estava em fora de jogo. Queremos lá saber se é legal ou não. É golo!!! Tomaaaaa! Embrulhem!!! Vocês merecem sofrer que nem cães, todos pensam. Pelo meio, mensagem apimentada para o rival que ficou em casa, no conforto do lar, mas que nem assim se livra da ferroada.

O derby não deixa ninguém de fora.

Depois sofremos. Para uns o relógio não anda, para outros o ponteiro dos minutos parece um Fórmula 1 na reta da meta. Está quase. Momento de arrepiar quando os outros quase marcam. Felizmente falharam mas os olhares são de apreensão. A mãe do árbitro é uma vez mais recordada por ter dado tanto tempo de descontos. São cinco minutos mas mais parecem uma eternidade.

Acabou! Vitória! Somos os maiores e os outros não valem nada. Bem os avisámos que íamos ganhar mas não acreditavam. Amanhã vou ao café, compro os três diários desportivos e leio, sofregamente, linha após linha, tudo o que eu já vi mas não me importo de rever. O vizinho tinhoso não veio ao café. Prefere uma pausa sabática, mas nós temos paciência e nem que passe uma semana vamos dar-lhe uns bons dias de sorriso no rosto, pois ele saberá que esse sorriso tem uma mensagem bem clara escondida mas facilmente visível.

É que o derby começa muito antes mas também acaba muito depois. É por isso mesmo que é um jogo à parte, incomparável. Único e irrepetível. E é nosso. É de todo o mundo onde se fala português.

Miguel Sancho, comentador da Eurosport

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