"Espaço Bruno Lage": É pela qualidade do treino que o treinador, em especial o treinador Formador, se deve distinguir

Na sequência da prestação da Seleção Nacional no Mundial do Brasil e a consequente saída do Selecionador depois da derrota frente à Albânia, voltou-se a falar/escrever sobre Formação. O assunto pode ser abordado sob várias perspetivas: as oportunidades dos jovens jogadores para jogar na 1ª liga, os quadros competitivos, a formação do treinador de jovens e, entre outros pontos, o Treino.

É meu objetivo aprofundar algumas considerações sobre o Treino, pois entendo que é pela qualidade do treino que o treinador, em especial o treinador Formador, se deve distinguir, e deixar de parte o ganhar, o perder, o jogou o A em vez do B, o jogar em 4x3x3 ou em 4x4x2. Para o efeito, irei abordar dois pontos: “O Táctico e a formação Táctica” e, num próximo artigo, “A pressão de Ganhar. Avaliar processo ou resultado?”

O Táctico e a formação Táctica
Independentemente da natureza do seu treino, todo o treinador tem como objetivo ensinar o jogo e desenvolver competências nos seus jogadores para que estes tenham capacidade de jogar. Em geral, o que todos ambicionamos é desenvolver um jogador que faça parte de uma organização (equipa) e que seja capaz de decidir (táctico) e de agir (técnico). O Táctico, intimamente ligado ao conhecimento, não é dissociável do pensamento, um pensamento táctico, que acompanha o acto de jogar. A melhor acção deve ser acompanhada pela melhor solução, pois, se assim não for, de nada vale ter o melhor repertório motor e manifestar a melhor execução se as decisões não são as mais convenientes. Portanto, quando devemos iniciar a “formação Táctica”? Devemos deixar esse desenvolvimento à mercê da espontaneidade do jogo e apenas o iniciar quando se dominam as ações técnicas na plenitude ou começar de imediato?

Para ajudar a pensar sobre o assunto, recuemos à nossa infância e ao futebol de rua. É verdade que passávamos horas a imitar o dribe, o passe, o remate do nosso ídolo (técnica), íamos aprendendo pela vivência prática, e quantas vezes, quem jogava connosco, nos passou conhecimento sobre o jogo no momento de passar, desmarcar, não sair à queima (táctico)? E no momento de escolher os jogadores, para além do “gordo que ia normalmente para a baliza”, quantas vezes preferíamos jogar com quem passava a bola, ao invés do “caixeiro”, que não passava a bola a ninguém, ou de quem corria para a defesa quando perdíamos a bola, ao invés do “mamujeiro”, que não defendia (organização)? Os tempos mudaram, uma criança hoje não dispõe das mesmas oportunidades de jogar na rua. Passou a jogar nas escolas, nas academias, com um professor/treinador que deve ter como finalidade proporcionar a “técnica” o “táctico” e a “organização” da rua. Se o futebol de rua, à sua dimensão, contém táctico e organização porque é que existe um enorme desacordo quanto à sua abordagem na formação. 

Acredito que, se por um lado os conceitos são erradamente aplicados, por outro, a incapacidade de quem treina para adequar os conteúdos e a sua complexidade ao contexto coletivo e ao desenvolvimento natural do atleta tem sido decisivas para não haver concordância. Se o termo “táctico” é muitas vezes empregue de forma redutora quando se fala em sistema táctico, por consequência, o treino táctico é geralmente entendido como a castração do pensamento, a robotização dos jogadores e a formatação das equipas. É importante perceber que o Táctico não é apenas “campo pequeno”, basculações e pressão, é muito mais que isso. O Táctico é pensar. O Táctico é tomar decisões. O Táctico é jogar. Passar a bola para a frente, para o lado ou para trás não é apenas uma ação técnica, mas sim eminentemente Táctica… Passar ou driblar exige, antes da ação, a decisão, que é Táctico. A palavra “organização” passou também a ser vulgarmente utilizada e o uso da expressão “uma equipa é organizada” é feito com frequência para caracterizar equipas que fazem do seu momento defensivo o principal pilar do seu jogo. Organização implica que, num determinado momento do jogo, não apenas sem bola mas também com bola, a equipa pense da mesma maneira (Táctico), ou que os jogadores tomem as melhores decisões (Táctico). Se é um facto que se utilizam alguns conceitos de forma redutora, também é verdade que alguns treinadores não têm a capacidade de se adaptar ao contexto e ao escalão, e treinam uma equipa de Iniciados, Juvenis ou Juniores à semelhança de uma equipa de Seniores, em que a totalidade de treino direcionado para a evolução do modelo de jogo e da estratégia para o jogo do fim de semana é quase total. É um desacerto, por um lado, ter uma abordagem exagerada sobre uma ideia de jogo, muitas vezes desconcertada, com uma enorme complexidade desajustada da idade dos jogadores, e por outro, não desenvolver competências individuais nos jogadores - entenda-se individual com reportório motor para o Jogar. Os vários conteúdos devem ser transmitidos de forma progressiva, em todos os escalões, de acordo com a idade biológica dos atletas e sua capacidade de aprendizagem, para que estes tenham uma evolução de acordo com o seu potencial. Outro equívoco é o facto de o treinador, ao indicar o “princípio“ para o caminho, ter urgência em que decisão do jogador no campo seja a sua e, sempre que a decisão não coincide, pára o treino, interrompe a interpretação do jogador e formata o jogador apenas à sua decisão e não o deixa descobrir outro caminho.

Partilhando um caso prático vivido na última época no Al Ahli, tento dar a minha opinião sobre a questão de quando devemos iniciar a formação táctica. Uma das grandes preocupações do Carlos Carvalhal, Coordenador da Academia do Al Ahli, em simultâneo com a implementação de uma metodologia de treino e a definição um modelo de jogo transversal desde os sub-13 até aos sub-21 com complexidades diferentes, foi também definir os conteúdos a desenvolver em todos os escalões de acordo com a idade biológica dos atletas e sua capacidade de aprendizagem. Como exemplo, entendemos que a partir dos 13 anos (aos doze anos jogam 8 contra 8 e aos 13 futebol de 11), e tendo os princípios táctico/técnicos de base compreendidos, poderíamos aprofundar o treino do quarteto defensivo, quer em organização ofensiva, quer na sua organização defensiva. Nos primeiros meses foram várias as vezes que, após concluído o treino, Carlos Carvalhal, eu, João Mário, Alberto Cachada e posteriormente Jhony Conceição, nos juntávamos num dos campos de treino e púnhamos em prática as nossas ideias, verificávamos se os exercícios propostos seriam adequados ao contexto, perspectivávamos ideias de progressão sobre os mesmos e definíamos princípios de interacção. Num desses dias, concluído o nosso trabalho, acompanhado pelo João Mário, fui ver o treino da Equipa Principal que ainda treinava no estádio. O treino estava a terminar mas ainda tivemos tempo de ver o Fábio Canavarro, um dos adjuntos, a treinar a organização defensiva da linha de 4 defesas. Tão simples quando isto: Fábio conduzia uma bola e os jogadores movimentavam-se e organizavam-se em função da mesma. O treino entretanto terminou, mas Fábio continuou, desta vez apenas com um defesa central que tinha sido acabado de ser contratado. Às indicações do treinador o jogador movimentava-se e era frequentemente interrompido para corrigir a posição dos seus apoios e da sua corrida para trás. Terminado o treino, e apercebendo-se da minha presença junto à linha lateral, aproximou-se e começou a falar de como o defesa se deve deslocar, posicionar, etc. Tivemos também oportunidade de lhe dizer que a nossa ideia, a ideia “portuguesa” não era muito diferente da “italiana” neste aspeto. Dessa conversa, com o Campeão do Mundo e Bola de Ouro desse ano, um dos melhores defesas de sempre, fica a confissão de que a partir dos 10, 11 anos o seu treinador passava horas a treinar a “corrida para a frente”, a “corrida de costas”, os deslocamentos laterais, o posicionamento dos apoios, tanto em termos individuais, como em conjunto com os outros defesas – o Táctico aliado ao Técnico, desde o início.

Defendo também que Formação Táctica do jogo deve começar desde o início e adaptar-se sempre em conformidade com a idade biológica do jovem, o nível do atleta e a sua capacidade de aprendizagem, de forma a que tenham uma evolução de acordo com o seu potencial.

O problema é que o que é táctico para uns não é o mesmo para outros...

Bruno Lage, treinador de futebol

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