
Morreu um mito. Numa entrevista concedida a Oprah Winfrey, Lance Armstrong confessou, que se iniciou no doping no princípio da carreira e enveredou pela EPO em meados dos anos 90. O americano admitiu que venceu as 7 Voltas a França com o recurso a substâncias dopantes e referiu mesmo que para ele dopar-se passou a ser tão natural como “pôr ar nos pneus da bicicleta ou colocar água nos bidões. Fazia parte do trabalho”.
As principais frases da confissão do maior batoteiro da história do Desporto:
- "Seria humanamente impossível vencer a Volta a França em sete ocasiões sem recorrer ao doping".
- "O meu cocktail era EPO, transfusões sanguíneas e testosterona. Não tinha acesso a nada que os outros não tivessem".
- "Porquê agora? Essa é a melhor pergunta, a mais lógica. Não tenho uma boa resposta. É demasiado tarde (para admitir ter-me dopado), provavelmente para a grande maioria das pessoas, e a culpa é minha. Esta situação é uma grande mentira, que repeti inúmeras vezes".
- "Não sentia estar a fazer nada errado. (Sentia que estava a fazer batota?]. Não. Olhava para a definição de batota e não via o que estava a fazer como isso. Via como um meio de jogar ao mesmo nível dos outros".
- "Era a cultura da altura. Os outros corriam limpos? Não vou chamar ninguém de mentiroso, mas isso não é verdade. Na minha equipa [US Postal] queriam que os rapazes fossem fortes e conseguissem boas perfomances. Eu era o líder mas nunca dei uma ordem direta ou uma diretiva para que eles se dopassem e houve quem tivesse optado por não o fazer. Se calhar poderia tê-lo feito, mas nunca o fiz".
- "Não percebia a magnitude das minhas acções O importante é que agora começo a entender. Vejo a revolta nas pessoas. A sensação de traição... está tudo lá. Eram pessoas que me apoiavam, acreditavam em mim e, por isso, têm todo o direito de se sentir traídas. Terei de pedir desculpa a essas pessoas toda a minha vida [referindo-se a antigos colegas e respectivos familiares que ameaçou, difamou e processou]".
- "Nunca paguei à UCI para ocultar provas". Basicamente negou que a doação que efectuou à União Ciclista Internacional (UCI) tivesse servido para limpar um suposto teste antidoping positivo na Volta à Suíça de 2001 ou que tivesse subornado a justiça da Califórnia, que acabou por arquivar em Fevereiro do ano passado o processo criminal que corria contra ele.
VM - Outros (muitos) ciclistas o fizeram, vários desportistas (no ciclismo, no atletismo, mas não só) ainda o fazem, e até a Alemanha venceu o Mundial de 54 com recurso ao Doping, mas nada desculpa/atenua as acções do maior batoteiro da história do desporto Mundial (foram 7 anos, até mesmo uma década de ilusão, aliás o impacto que teve no ciclismo - devido aos recordes que bateu, à forma como superou o cancro, e revolucionou/projectou a modalidade - marcou para sempre a história do desporto Mundial). A maneira como iludiu os fãs do ciclismo, a maneira como sempre negou estar envolvido neste tipo de esquemas (processou Hamilton, Landis, gozou com os jornalistas, e ainda recentemente colocou no seu twitter uma imagem a vangloriar-se das suas 7 conquistas na Volta a França), demonstrou que para além de ser uma vergonha para o desporto é um individuo sem escrúpulos. Esta confissão tem pelo menos a vantagem de acabar com um mito, sendo certo que para aqueles que sempre defenderam o americano o impacto desta constatação é ainda mais forte (percebemos que para muitos seja complicado digerir isto, mas qualquer tentativa de desvalorizar este momento com a ideia de que todos o fazem, etc, acaba por roçar o absurdo). Posto isto, algumas interrogações: Como é que alguém que diz ter-se dopado ao longo de toda a carreira e que teve tantas vitórias nunca teve um controlo positivo? Ou será que teve? Ou serão os testes que estão mal feitos? Parece evidente que a UCI, agências de dopagem, organizadores das principais corridas, deviam ter algo a dizer sobre este assunto. Terá havido uma promiscuidade entre todas as entidades envolvidas? É que se nesta fase Lance já pouco dava à modalidade, mas durante uma década muitos ganharam milhões com o marketing/mediatismo associado à sua presença no ciclismo (e quando se trata de dinheiro, pouco importa se o individuo em questão é ou não batoteiro, o que interessa é rentabilizar ao máximo a sua imagem). Por último, apesar deste episódio (o mais infeliz da história de todos os desportos), fazemos votos para que a modalidade não seja afectada por isto. O ano de 2013 promete ser um dos mais espectaculares da história do ciclismo, e os actuais competidores merecem uma oportunidade para mostrar o que valem e acima de tudo respeito (não vai ser fácil quando vencerem evitarem algumas suspeitas).
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