Rui Vinhas vence Volta a Portugal; "Novo Óscar Pereiro" alcançou um dos triunfos mais surpreendentes de sempre; W52-FC Porto dominou por completo

Enorme surpresa. Rui Vinhas venceu a 78.ª edição da Volta a Portugal. O ciclista, da W52-FC Porto, beneficiou da vantagem que ganhou na etapa 3, qual Oscar Pereiro e aguentou-se no CR final (só perdeu 55 segundos), para protagonizar uma das maiores surpresas no ciclismo, dando a 1.ª vitória a Portugal desde 2011. Já Gustavo Veloso, que venceu a competição nos últimos dois anos, apesar do triunfo no CR final, terminou na 2.ª posição. Foi a 14.ª vitória para o FC Porto na "Grandíssima", cujo último triunfo foi obtido por Marco Chagas, em 1983, e a quarta consecutiva para a formação do Sobrado, vencedora das três edições anteriores, antes da associação aos 'dragões'.

Destaques:
W52-FC Porto: Domínio total dos homens de Nuno Ribeiro, que impuseram a sua maior qualidade individual e colectiva desde o início, tornando a missão dos adversários praticamente impossível. Triunfo na geral individual, com muitos dias de amarelo, 4 etapas conquistadas, uma soberania clara na montanha (um comboio "à Sky", com vitória na classificação por equipas), 3 elementos no top-4 (2 dos quais nos 2 primeiros postos) e camisola verde envergada por Gustavo Veloso.
Rui Vinhas: O novo Óscar Pereiro, aproveitando uma fuga para vencer a competição de maior prestígio na modalidade em Portugal. O ciclista, de 29 anos,  nem sequer era um dos 4 melhores da W52 (além de Veloso, Alorcon, Mestre e António Carvalho estavam à frente da hierarquia), e o melhor que tinha conseguido foi um 15.º lugar em 2013, mas não acusou as dificuldades das etapas nem a pressão de ser líder, para surpreender tudo e todos. Mérito pessoal, demérito dos directores desportivos adversários que lhe deram muita margem na etapa 3, e principalmente um enorme espírito de solidariedade da equipas que, apesar de Veloso ser o líder, respeitou a camisola amarela que ganhou na etapa 3 e sempre o protegeu.
Gustavo Veloso: Desta vez não venceu, mas demonstrou que era o mais forte na Grandíssima. O espanhol impôs a sua maior qualidade nas jornadas de maior dureza, somando três vitórias em etapas. Tendo juntado ao 2.º lugar a camisola por pontos.
Efapel: Um bom arranque na prova, com Joni Brandão a ganhar tempo à concorrência e Daniel Mestre a envergar a amarela ao 2.º dia (o único não W52-FC Porto líder), mas uma fuga deitou por terra as aspirações dos comandados de Américo Silva, que, apesar de muito tentarem e atacarem, não conseguiram importunar o bloco coeso da W52-FC Porto. Ainda assim, duas etapas conquistadas por intermédio de Daniel Mestre (boa Volta de uma das caras novas da época), dois elementos no top-10 e uma insatisfação permanente (Joni Brandão bem tentou) que deu alguma emotividade à corrida.
Sporting-Tavira: A pior equipas das 6 portuguesas. Os "leões" falharam o objectivo na geral individual (Nocentini praticamente nunca contou para os primeiros postos, De la Fuente e Sabido também desiludiram), não colocando nenhum elemento no top-20 e sendo batidos por todas as adversárias lusas na classificação colectiva. Valeu o triunfo de Ezquerra numa das etapas mais comentadas da prova, atenuando a má prestação da formação algarvia.
Vicente De Mateos: Uma das sensações da prova. O espanhol do Louletano depois de ficar fora fora dos 30 primeiros em 2015, apareceu a grande nível nesta Volta, fazendo 8.º na geral individual (podia ter sido melhor não tivesse caído no CR final), vencendo uma etapa e estando permanentemente na discussão das mesmas (quase sempre no top-10)
Boavista/LA Antarte: Alcançaram parte dos objectivos mas não valorizaram a prova. Ambas partiam com ambições de lutarem pela geral individual, mas desde muito cedo se percebeu que não teriam armas para tal, assumindo uma postura muito passiva em praticamente todas as etapas. Nenhuma vitória em etapa, sendo que, no caso do conjunto de José Santos, os três elementos no top-10 (um dos quais, Daniel Silva, no pódio) acabam por valorizar essa postura. Por outro lado, em relação à LA, Marque foi uma das maiores desilusões, Bruno Silva também, enquanto que Amaro Antunes, após prometer muito no ano transacto, não foi além de um 6.º lugar na geral individual.
José Gonçalves: O português da Caja Rural vinha com a missão de preparar a Vuelta, mas, apesar disso, exibiu-se já a um bom nível nas estradas lusas. Intrometeu-se na vitória de várias etapas e consegue mesmo levar uma para casa, dando algum colorido à prestação da formação espanhola na Grandíssima. Um ciclista atacante, com uma grande ponta final e que não vira a cara aos desafios, sendo que, após uma boa imagem deixada na Volta a Espanha do ano passado, poderá novamente surpreender em solo espanhol.
Equipas estrangeiras: Apesar das vitórias em etapas da Caja Rural (José Gonçalves), Androni (Gavazzi) e Drapac (Clarke), não conseguiram contrariar a supremacia das formações lusas, que dominaram o top-10. Elementos cotados como Pellizotti, Schumacher, Parra, Belda, Bruno Pires ou Prades passaram sem brilho por esta Volta. Em oposição, Wilson Ramiro Díaz, da Funvic, e Alexander Vdovin, da Lokosphinkx, contrariaram essa soberania das equipas nacionais, conquistando a camisola da montanha e da juventude, respectivamente.
Mais redes sociais que impacto: Apesar do regresso do FC Porto e do Sporting às estradas, o impacto na modalidade foi praticamente nulo até ao momento. Os blocos de ambas as equipas estavam praticamente formados, sendo que os dragões tiveram a sapiência de aproveitar uma equipa que vinha demonstrando resultados nos últimos anos, sendo claramente a formação mais forte a nível interno. Já os leões tiveram um regresso algo amargo à Volta, havendo muito trabalho pela frente. A nível de público nas estradas a diferença também não se fez sentir, e não se pode dizer nesta fase que a modalidade atingiu outro nível de mediatismo.

Rodrigo Ferreira

Etiquetas: