JO'2016: Desorganização, Doping, Zika e uma série de atletas a quem ninguém liga durante quatro anos

Estão aí à porta a edição XXXI dos Jogos Olímpicos de Verão, a disputar na bela cidade do Rio de Janeiro. Pela primeira vez a disputar-se na América do Sul, o maior evento desportivo a nível planetário vai ter o seu início oficial a 5 deste mês, com a cerimónia de abertura, embora o torneio de futebol se inicie a dia 3.

As Olímpiadas são a competição desportiva de excelência, o sonho de qualquer atleta, e de qualquer adepto, que tem a honra de poder apreciar os melhores atletas da actualidade a lutar pelo ambicionado ouro. O desfile dos países, desde as grandes comitivas àquelas compostas por uma ou duas cabeças, toda a espectacularidade da cerimónia de abertura, a tocha, os hinos, as lágrimas no pódio, os mitos e rumores sobre a camaradagem na Aldeia, os recordes e histórias caricatas, tudo isto faz parte do imaginário que terá no Rio mais uma página.

Mas estes Jogos estão longe de ser pacíficos, bem pelo contrário. A organização dos mesmos tem sido conturbada, muito à imagem do país que os acolhe. Longe vão aqueles tempos em que o Brasil era um BRIC em ascensão até do domínio da economia global. Hoje, a crise económica e financeira é uma dura realidade, e tal como em casos passados, os Jogos um ónus que provavelmente os brasileiros dispensariam. A falta de dinheiro foi uma constante, concretizando-se na falta de recursos humanos necessários, e nos atrasos de obras. Aliás, os atrasos e falhas nas estruturas têm sido motivo de crítica de quem já aterrou no Rio, situação que tem corrigida à última da hora (ou não fossem os brasileiros irmãos de quem são). A crise política, de braço dado com toda a espécie de tumultos sociais, não ajudou propriamente o processo, tal como o vírus Zika, que assustou tanto atletas como espectadores. Porém, pior que os imbróglios de última hora é a incapacidade para resolver alguns problemas de fundo, que desde o primeiro dia levantaram reservas. A questão ambiental, relacionada com a qualidade da água, e da segurança, levantam muitas dúvidas. Uma das premissas de qualquer evento deste tipo é segurança máxima, e o Rio de Janeiro, pese o esforço, está longe de a proporcionar. As favelas são bem mais complicadas de conter do que os normais guetos (aqueles que se escondem das câmaras quando passa a banda), e o crime violento na cidade é uma realidade incontornável.

Por último, a competição está marcada pelo caso do escândalo do doping na Rússia. É verdade que o doping tem manchado todas as edições, e é, a par das aposta ilegais, o grande inimigo do desporto profissional. As suspeitas, perante os batoteiros que se vão descobrindo aqui e ali, existirão sempre, mas um caso desta envergadura é algo nunca visto desde os tempos da Cortina de Ferro. A Rússia foi acusada de, não só executar um programa de doping a nível estatal, mas também de manipular e esconder resultados. A IAAF, que já suspendera a Rússia, manteve a penalização, privando assim o Atletismo de uma das mais poderosas equipas, já Comité Olímpico Internacional deixou para as respectivas federações internacionais a decisão de vetar ou não os russos. Seja como for, russos e russas estão debaixo de forte suspeita, e os controlos prometem ser do mais apertado possível.

E quanto a Portugal? Bem, o ciclo olímpico lusitano explica-se em poucas linhas. Uma série de atletas a quem ninguém liga luta durante quatro anos para obter o passaporte para a competição, uns deles vão ganhando umas competições de relevo pelo caminho, ganhando direito a uns rodapés no noticiário ou umas referências nas redes sociais, até que chega a semana anterior ao evento. Aí, ligam-se as câmaras e apontam-se os microfones, os dirigentes vendem sonhos e explicam que as condições nunca foram melhores, o pessoal excita-se com a ideia de chegar ouro suficiente para pagar a dívida pública, até que a dura realidade bate. Os heróis então passam a excursionistas que andaram quatro anos a mamar do Orçamento, e que deviam ter ficado em casa em vez de andarem a envergonhar o país, os comentadores desportivos fazem um intervalo da bola para se porem a criticar atletas que não conhecem, que disputam modalidades que sempre menorizaram, contra adversários que nem fazem a menor ideia quem são. E afinal as condições não eram assim tão boas, os atletas e treinadores queixam-se do amadorismo, dos sacrifícios e carolice, da falta de dinheiro, o Presidente lá vem a terreiro agradecer o esforço, e o Primeiro-Ministro prometer que daqui a quatro anos as estruturas serão de topo. Entretanto começa a Liga de Futebol e tudo isto é varrido para aquela zona do cérebro onde estão as memórias distantes e inúteis.

Entretanto... que comecem os Jogos!

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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