Uma casa portuguesa, com certeza.

Já lá vão seis longos anos, desde que Joaquim e Maria abandonaram Sabrosa, em Vila Real, para partirem para França em busca de uma vida melhor. Um casal ainda jovem, em início de vida, ambos com frequências universitárias, ambos com vontade de trabalhar e de serem produtivos, mas com o geográfico azar de terem nascido numa terra que dá mais oportunidades e acolhe melhor quem vem de fora do que quem está cá dentro. 

Seis anos volvidos e Joaquim e Maria passaram a Monsieur e Madame Fonseca, mais um casal português a engrossar o filão em Lavardin, uma localidade a 200km de Paris. Longe dos sonhos, longe de casa, já aclimatados ao multiculturalismo de uma nação enorme e já com as vozes a resvalar entre o trasmontano e o francês rudimentar. Ele nas obras, e ela como empregada doméstica. A continuação do cliché da mala de cartão. Apesar de exteriormente se sentirem em casa, o seu interior pedia mais, e no início do Verão de 2016 receberiam ali bem perto um dos expoentes máximos do sentimento português…

Há seis meses atrás desembarcava em Lille outro emigrante português. Éderzito António Macedo Lopes, vulgo Éder no mundo futebolístico, partia para nova aventura além fronteiras. A primeira, do outro lado do Canal da Mancha, tinha sido para esquecer. Em Swansea, Éder não conseguiu fugir da sombra de um outro francês (Gomis), nem parecia fugir do imenso rol de críticas que o seu próprio povo em Portugal lhe dedicava. Num campeonato onde um outro avançado português tinha feito história, ele também um goleador que teve de abandonar o seu país para ser reconhecido, dando continuação ao triste fado dos pontas de lança portugueses. Pauleta marcou em Bordéus, e Pauleta marcou em Paris, mas mesmo assim nós pedíamos mais. Não importa o número de golos que marques, importa é se tens um nome cuja fonia seja pouco lusitana como um qualquer Donizete, ou Jankauskas ou um Ricky qualquer coisa. 

Éder talvez incensado pelo seu pretérito colega, chegou ao clube local e encontrou um dos bons clubes da Ligue 1 a lutar pela manutenção. Um clube cujos únicos sinais de alguma qualidade vinham da polivalência de Corchia e do repentismo de Boufal, já que golos, nem vê-los. Seis meses, 6 golos, assistências de permeio, apuramento para a Uefa garantido e o reconhecimento da imprensa francesa como melhor reforço de Inverno na Ligue 1, bastariam a Éder para encontrar a aprovação entre os seus? Não. A ingratidão e o desconhecimento de quem vê apenas os seus clubes e volta e meia um Real vs Barcelona, levantou-se quando o seu nome foi anunciado nos 23 que partiriam para França à conquista do Europeu.

Um coro de críticas choveu em cima de Fernando Santos, um homem de fé e de convicções que foram depositadas no 9 português, para quem nem os golos nos jogos particulares pré-Europeu fizeram cessar as críticas dos adeptos e de uma certa imprensa desportiva cada vez mais tabloide e menos informada. Os dados estavam lançados, e Éder partia para o Europeu como suplente da dupla de extremos Nani e Ronaldo. E assim continuou, empate após empate com uma aparição entretanto face à Austria. Portugal jogava mal, era criticado dentro e fora de portas, mas Fernando Santos havia reservado os bilhetes apenas para dia 11 e já tinha pago o excesso de bagagem, pelo que já que tinham que lá continuar ao menos que fossem ficando…fase após fase, até que a dupla de extremos Nani e Ronaldo lá colocariam Portugal numa inesperada final…

De volta a Lavardin, Joaquim e Maria vibravam a cada passagem de Portugal às fases seguintes. Como até nem era longe, lá organizaram o farnel e deslocaram-se até Marcoussis, aquele que foi qual embaixada, um pedacinho de Portugal em França durante um mês. Para verem e sentirem os craques da nação, Joaquim e Maria, assim como tantos outros portugueses anónimos lá foram numa peregrinação de alegria e fé, semelhante às de Agosto quando uma vez por ano vão a Fátima. De lá saíram motivados, alegres e unidos e com a promessa do grupo que de lá só sairiam com a Taça na mão. Eles só tinham que os apoiar. E isso era tão fácil. Tão natural. Nem era preciso pedir. 

Na semana que antecedia a grande final, Portugal tinha que passar por Gales, e os organizadores pela toda poderosa Alemanha. Nem Portugal nem a França pareciam ser os principais favoritos pelas mais variadas razões, mas Joaquim e Maria ansiavam por uma final entre os seus congéneres, e a Selecção do país que os recebeu. Capricho de fé, do destino, ou apenas uma partida dos Deuses da bola, esse desejo foi-lhes concedido. A festa era já incontrolável e o desejo de vitória cada vez mais ardente. No dia anterior, Joaquim parou no bar dos portugueses em Lavardin para sentir as vibrações da comunidade e os seus amigos franceses comungavam da histeria. Eles também desejavam um final com Portugal, não só porque podiam meter conversa com Joaquim, como também porque no seu íntimo poderiam começar desde já a festejar, ou não fosse a França a besta negra de Portugal. Na casa particular onde trabalha, a dona da casa convidou desde logo a sua Maria e a família para uma grande jantarada e para assistirem aquilo que ela chamou de mais uma grande festa francesa … tão nobre são as normas da etiqueta como o paternalismo superior que daí emanam…

Começou o jogo em Saint Denis e a festa estava montada. Na França como em Portugal ansiava-se soltar a voz e gritar golo. E nem a lesão do grande craque português esmoreceu a fé. As traças esvoaçantes que infestaram Paris por alturas do grande jogo, invadiram o relvado do palco da final e pousaram na face de dor do capitão português como lhe confidenciando que elas próprias voariam para outras paragens e que a única coisa com asas que permaneceria no Stade de France, seria a ambição portuguesa. Fernando Santos percebeu os sinais externos, e numa altura em que os franceses pareciam esgotados e os portugueses enredados na teia táctica que havia montado, o mister português olhou para o banco e decidiu lançar Éder. Portugal emudeceu… e nas redes sociais já se faziam apostas ao número de penalties que São Patrício defenderia… Mas aos 109m, um dos mais recentes emigrantes portugueses em território francês, pegou na bola, arrancou em força deixando Koscielny cravado ao chão e disparou um míssil de fé que só pararia no fundo das redes de Lloris. Aos 120m, Portugal explodiu em festa, num vulcão de emoções contidas desde 2004 quando Charisteas sentenciou 11 milhões de pessoas à tristeza.

Em Lavardin, Joaquim e Maria, lavados em lágrimas festejaram pela noite fora, enquanto as quiches e os canapés do jantar caíam mal nos estômagos franceses, tão mal habituados aos paladares tão temperados e tão típicos da comunidade lusitana. No dia seguinte, sem dormir e mal refeitos ainda da festa, Joaquim compareceu na obra à hora marcada e continuou a construir com as suas mãos hábeis as casas do multiculturalismo futuro. Maria fez o mesmo. A casa onde trabalha depois de impecavelmente arrumada, cheirava como nunca tinha cheirado antes, e ela fazia-o com o mesmo amor e profissionalismo de sempre, enquanto cantarolava um provocatório “Cheira bem, cheira a Lisboa”.

Em Agosto, Joaquim e Maria regressarão a Sabrosa para junto dos seus para aproveitar o sol do seu país e partilhar esta alegria junto dos seus, de peito cheio e com uma alegria contagiante, naquela que será uma casa portuguesa com toda a certeza. Também em Agosto, Éder regressará a Lille para continuar na Ligue 1 a fazer aquilo que faz melhor, marcar golos, desta feita lançado para uma ambiguidade característica das novelas. Herói nacional para quem sempre o criticou e o ponta de lança mais odiado do campeonato que tão bem o recebeu. 

E se Joaquim e Maria mais não são do que personagens ficcionais usados pelo autor deste texto para ilustrar os milhões de Joaquins e de Marias que partiram para outras paragens, já Éder aguarda ansiosamente para chegar a Agosto e continuar a agitar as redes francesas. Porque o futebol segue dentro de momentos e a vida também.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Flávio Trindade

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