Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor

O aforismo de Samuel Beckett aplica-se na perfeição ao actual estado da selecção portuguesa de futebol. À falha na final do Euro 2004, com a (provavelmente) melhor geração de jogadores que Portugal alguma vez viu, seguiu-se uma vitória na final do Euro 2016. No entanto, a ideia de jogo desta selecção foi muito criticada, sendo ultrapassados alguns limites do bom senso “jornalístico”. Sem querer entrar numa discussão terminológica infinita, proponho que se resumam todos os adjectivos num só – um futebol “falhado”.

É necessário esclarecer este conceito. Antes de mais, Portugal venceu em 2016, jogando pior do que em 2004, onde perdeu. O velho debate entre o resultado e a performance reaparece. É pior ganhar e jogar mal ou perder e jogar bem? Não responderei à pergunta. Contudo nenhuma das hipóteses é completamente positiva (ganhar + jogar bem) ou negativa (perder + jogar mal). Houve sempre algum erro em ambas as participações de Portugal nas finas dos Europeus que disputou. Os jogadores seleccionados foram diferentes, bem como o treinador que os escolheu. Em 2004 havia um momento ofensivo onde se observava a técnica, a imprevisibilidade e a velocidade dos seus executantes, bem escoltados por uma sólida defesa. Em 2016 há uma equipa que continua a tentar ser sólida na defesa, embora com elementos de qualidade inferior à de 2004, mas cujo meio campo é mais expectante, preferindo construir jogadas para os avançados adaptados, com a sua velocidade, finalizarem. Não é uma ideia de jogo falhada, é uma ideia de jogo diferente.

Terminadas as comparações com o Euro 2004, concentre-se a atenção em 2016. Portugal passou a fase de grupos em terceiro, beneficiando das regras introduzidas nesta competição. Deveria ter ficado em primeiro, pois possuía claramente o melhor plantel do grupo. Por outro lado, teve a felicidade de ficar na parte do quadro que tinha as selecções teoricamente mais acessíveis (apenas Croácia e Bélgica assustavam um pouco). Portugal apenas ganhou um jogo em tempo regulamentar, tendo empatado todos os outros. Se é verdade que Portugal ganhou apenas um jogo, é igualmente verdade que também não perdeu nenhum. A preferência por um futebol mais seguro é responsável por estes resultados. Mais uma vez, futebol seguro não é sinónimo de futebol falhado.

Observe-se agora o modelo de jogo e a performance dos jogadores. Portugal iniciou o Europeu com apenas um ponta de lança de raiz e, para colmatar essa falha, mudou o sistema para um 4x4x2 com falsos alas e dois avançados móveis. Mais detalhadamente, na baliza, Patrício demonstrou ser uma aposta ganha, jogando com uma enorme confiança nas suas capacidades. Vieirinha começou a titular, mas cedo Fernando Santos (FS) percebeu que as suas lacunas defensivas iriam prejudicar a equipa. Cedric apresentou-se mais sólido na defesa. Raphael Guerreiro foi o melhor lateral esquerdo do torneio, fazendo extremamente bem as transições, quer defensivas, quer ofensivas. Pepe foi o melhor central deste Europeu, principalmente a nível defensivo. Contudo, na fase de grupos notou-se alguma insistência na tentativa de colocar bolas longas para os avançados que, por não saberem jogar de costas para a baliza, nunca as conseguiam segurar. No entanto, este problema foi sendo corrigido. Ricardo Carvalho foi aposta nos primeiros jogos mas, embora não tendo comprometido, ficou rapidamente a ideia de que não iria aguentar o ritmo do torneio. Foi substituído por Fonte, central forte fisicamente e cuja função era apenas defender, já que não consegue sair com bola jogável. Apesar de Danilo ter feito o primeiro jogo, foi William que agarrou a titularidade nos jogos seguintes. FS mudou o chip da equipa, substituindo um médio defensivo mais focado na marcação e na ocupação de espaços por um médio defensivo que acrescenta qualidade na circulação de bola. Esta decisão foi acertada em determinados jogos, embora noutros se tenha notado que a falta de velocidade de William poderia ser um problema. João Mário apenas cumpriu a sua função de construtor de jogo mais descaído para as alas. Não deslumbrou nem desiludiu. Moutinho, em claro défice físico, foi um dos piores da selecção, o que obrigou FS a colocar Adrien em campo. A intensidade do médio do Sporting provou ser um factor de peso na destruição de miolos mais técnicos, como o da Croácia, por exemplo. No entanto, ressentia-se contra adversários com outro nível físico, como Matuidi, Pogba ou Sissoko, na final contra a França. André Gomes começou o Europeu a jogar com uma função semelhante à de João Mário e, tal como o médio do Sporting, não deslumbrou nem desiludiu. Por isso foi importante a entrada de Renato Sanches, cuja maior vantagem é ter uma capacidade física imensa, o que lhe permite transportar a bola com facilidade até ao ataque. Contudo, o agora médio do Bayern sofreu do mesmo problema que Adrien – ressente-se contra adversários que são capazes de o igualar em termos físicos. Na frente, Ronaldo e Nani foram os escolhidos. No entanto, é aqui que está o principal problema da equipa. Um meio campo paciente na construção não se coaduna com um ataque que só consegue jogar de frente para a baliza. Ronaldo tem mais características de avançado que Nani, mas não é capaz de receber uma bola e esperar que a equipa suba para continuar o ataque. Por outro lado, o habitat natural de Nani é na ala, como ficou provado com a subida de rendimento assim que passou a ocupar esta posição no jogo com a França. Mas não é apenas a inadaptação dos avançados ao resto da equipa que está em causa. Também a equipa não se adaptou aos movimentos dos avançados. Muitas vezes Ronaldo e Nani fugiam para as alas e a área ficava vazia, não havendo nenhum médio que ocupasse aquele espaço. Talvez Éder devesse ter jogado muito mais tempo, demonstrando no jogo da final que é capaz de receber bolas de costas para a baliza, assim como é capaz de ganhar as que são despejadas para a frente. Por fim, Quaresma foi sempre a principal solução no decorrer dos jogos – umas vezes com impacto positivo, outras com impacto nulo.

Não se pode fechar este texto sem falar de Fernando Santos. Mais do que qualquer jogador, foi ele a estrela de Portugal. Tentou montar um sistema que suprisse os problemas da equipa e foi falhando. Mas quando cometia um erro tinha humildade e coragem suficientes para o tentar reparar. Não teve medo de decidir. E, na base da tentativa-erro, conseguiu dar um título a Portugal.

«Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.» Que seja assim por muitos anos.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Rui Teixeira

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