Quanto mais perto melhor

Depois de tantos anos de espera, Portugal conquistou o seu primeiro título a nível de selecções AA. Com Fernando Santos como general e Cristiano Ronaldo, o melhor jogador português de sempre, como capitão, os lusitanos conquistaram França e trouxeram para casa o tão desejado troféu. No entanto, esta conquista veio confirmar um paradigma: a selecção das Quinas obtém melhores resultados quando a competição se disputa em países próximos geograficamente e/ou onde o choque, seja ele meteorológico, horário ou até cultural, é menor. 

Olhemos então para os melhores resultados da formação nacional nas provas internacionais. O primeiro palco onde Portugal se mostrou ao Mundo do futebol foi em Inglaterra, no ano de 1966, com a conquista do 3.º lugar no Campeonato do Mundo, numa competição onde os “Magriços”, liderados por Eusébio (9 golos), surpreenderam tudo e todos, conseguindo eliminar o Brasil de Pelé e conseguindo uma remontada histórica diante da Coreia do Norte, tendo caído nas meias-finais perante a equipa anfitriã. Depois desse torneio histórico, Portugal ainda teve de esperar largos anos para ver a sua selecção numa grande competição. Foi em 1984, no Europeu de França, onde “Chalanix” e companhia conquistaram o Velho Continente, caindo apenas nas meias perante a turma de Platini, num jogo dramático, com as hostes nacionais a contarem com um grande Jordão, mas a permitirem a reviravolta nos últimos 6 minutos do prolongamento. Seguiu-se o Euro 96, disputado em Inglaterra, naquela que foi a primeira montra da Geração de Ouro (em seniores), caindo nos quartos com o famoso chapéu de Poborsky. Volvidos 4 anos, no Europeu organizado por Bélgica e Holanda, os comandados de Humberto Coelho deslumbraram a Europa com um futebol de grande categoria (quem não se lembra da fantástica reviravolta frente à Inglaterra e da goleada à Alemanha), com Figo e companhia a caírem nas meias-finais, mais uma vez diante da França, em mais uma partida dramática, resolvida por um penalti de ouro de Zidane após mão de Abel Xavier. Em 2004 foi a vez do nosso país albergar a grande competição europeia a nível de selecções, com Scolari a unir um país à volta de 23 jogadores, mas que mais uma vez deixou um gosto amargo, com a cabeçada de Charisteas na final a deixar 10 milhões a chorar e a pensar que, se não tinha sido daquela vez, nunca mais seria. No entanto, esse foi o começo de mais uma geração histórica para Portugal, que em 2006 conseguiu atingir a meia-final do Mundial disputado na Alemanha, conseguindo um torneio fantástico, mas caindo no penalti de Zidane e sendo vergada pelos germânicos na disputa pelo 3.º lugar. Em 2008, num campeonato dividido entre Suíça e Áustria, a formação portuguesa caiu nos quartos diante da Alemanha, mas caiu de pé, com o sentimento de que tinha sido eliminada por uma selecção que se preparava para conquistar o Mundo. Seguiu-se o Euro 2012, organizado por Polónia e Ucrânia, onde Ronaldo nos levou às meias, mas onde o poste se tornou o grande inimigo na decisão por grandes penalidades frente à Espanha (“que injustiça”). Finalmente, chegou o ano de 2016, aquele em que finalmente conseguimos o título já mais do que merecido, com o pontapé de Éder a levar a força de 11 milhões e a derrubar os gauleses, na sua própria casa, e pondo um país em festa durante dias a fio. 

No reverso da medalha, apesar de Portugal ter conseguido, no geral, bons resultados nas provas em que participou, também conhecemos alguns fracassos e verdadeiros fiascos. Comecemos com o Mundial de 1986, disputado no México, onde, antes de Maradona subir ao templo dos deuses, o Bi-Bota e companhia fizeram uma prova muito má (apenas 2 pontos na fase de grupos), sendo principalmente marcada pelo escândalo de Saltillo. Em 2002, Mundial disputado na Coreia do Sul e Japão, e com grandes esperanças depositadas na Geração de Ouro, acabou com um seleccionador de muletas (o verdadeiro espelho dessa participação) e com derrotas na fase de grupos diante dos Estados Unidos e Coreia do Sul (o hattrick de Pauleta à Polónia foi um oásis). 2010 foi o ano onde Mundial visitou a África do Sul (primeiro a disputar-se em solo africano), onde, apesar de Portugal ter conseguido o objectivo mínimo, ficou a ideia de havia equipa para mais do que chegar apenas aos oitavos-de-final. Passados 4 anos foi a vez do Brasil, país irmão, organizar o principal certame do futebol mundial, mas que também não deixou saudades para as hostes portuguesas, dada a eliminação ainda na fase de grupos depois de uma goleada perante a Alemanha e empate diante dos Estados Unidos. 

É fácil verificar que Portugal conseguiu mais participações em Europeus do que Mundiais, facilitando assim a relação proposta. Mas também não é de ignorar de que, nos únicos Campeonatos do Mundo em que os lusos participaram em países europeus (Inglaterra e Alemanha), os resultados exprimem bem essa ideia. Como tal, é possível afirmar que existe uma relação directa entre o país organizador e a prestação portuguesa. Isso deixa-nos naturalmente apreensivos, pois como se sabe, a próxima grande competição vai-se disputar na Rússia. A esperança é que a relação seja desfeita ou que, em linguagem estatística, se observe um outlier.

Zé P.

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