Alerta: não ficar à sombra do sucesso

Para os mais distraídos, a seleção portuguesa de futebol sagrou-se campeã europeia da modalidade pela primeira vez na sua história. Mas sosseguem, este não é mais um de muitos textos a exultar os feitos grandiosos dos nossos nobres guerreiros por terras gaulesas. Isto é futebol, não é literatura meus amores. Para ler que o sucesso só depende da nossa força de vontade, que devemos sonhar e abraçar os nossos sonhos com toda a motivação e ousadia do mundo, já nos bastam os Gustavos Santos e os Pedros Chagas Freitas desta vida.

Aparte esta nota introdutória, vamos recuar até 2010. Após um campeonato do mundo levemente dececionante, mas em que ainda assim se conseguiu o objetivo mínimo e só se caiu aos pés da futura seleção campeã mundial, Carlos Queiroz continua no cargo de selecionador nacional tendo em vista o apuramento para o campeonato da Europa de 2012. Porém, entre polémicas fora do campo e mau futebol dentro dele, em setembro do mesmo ano Paulo Bento é anunciado como novo selecionador. O ex Sporting entrou a todo o gás recuperando dos desaires anteriores, levando com mérito, ainda que com recurso a play-off, Portugal ao europeu. Depois é o que se sabe: mais uma eliminação aos pés da futura campeã, mas desta feita ficando o amargo de boca e uma participação muito agradável dos lusitanos. Bento continua no cargo, naturalmente. Mas, novamente, depois de uma prova em que os objetivos traçados foram cumpridos, voltou o mau futebol, um apuramento aos trambolhões via play-off às cavalitas de uma exibição para os livros do nosso melhor jogador de todos os tempos, e Bento começa a ser contestado ainda antes do campeonato do mundo de 2014. Passou a ser pior do que era quando guiou Portugal a uma quase final do Euro? Tenho sérias dúvidas. Mas se há coisa que o comum adepto de futebol tem é a chamada coerência criativa. O certame brasileiro confirmou as expetativas mais pessimistas e Portugal ficou-se pela primeira fase num grupo teoricamente ao alcance. Todavia Bento, ainda sob o estado de graça do anterior europeu, merece o voto de confiança e continua no comando da equipa, embora a direção da federação parecesse ser a única a não ver que seria uma questão de tempo até se consumar a saída do técnico. Mais uma vez, entre polémicas fora do relvado, mau futebol, maus resultados e lenços brancos à mistura, o selecionador é dispensado do cargo. A sucessão ficou a cargo de Fernando Santos e, a partir daqui, a história é conhecida de todos.

O grave é que desta vez ganhamos mesmo uma taça! O FS não passou a ser bom selecionador, ou treinador, ou o que quisermos chamar, por ter ganho o Euro. Mas infelizmente prevejo a federação a puxar a si feitos que não são de todo da sua responsabilidade, a pavonear o trabalho que fez que resultou neste título há muito ambicionado e, mais preocupante, à boa maneira portuguesa, a viver durante anos à sombra de um sucesso completamente fruto do acaso. De múltiplos acasos, neste caso. Podem argumentar os críticos que Portugal apresenta um grupo de jovens jogadores que há muito não se via, como André Gomes, Bernardo Silva, João Mário, Raphael, ou Renato, entre muitos outros. Mas será isso mérito federativo ou dos clubes que os formaram? O outro ponto grave é este! Atualmente temos matéria prima para poder aumentar as nossas chances de êxitos regulares e sustentados, mas em vez disso andamos e andaremos a brincar aos selecionadores e a idolatrar engenheiros. A articulação entre os clubes e a federação, com base em princípios de jogo e de atuação comuns, é absolutamente nula. Portugal ganhou apesar disto, e não graças a isto, como se diz!

Mas então como concluo tão convictamente que não há quaisquer princípios por detrás da nossa seleção? Muito simples, e com base em dois indicadores. O primeiro, as escolhas de selecionadores por parte da FPF. Para comandar com boas hipóteses de sucesso uma seleção, só existem duas formas: ou se contrata um selecionador-treinador, alguém capaz de colocar com pouco tempo de preparação um grupo de jogadores a atuar sob ideias comuns, como por exemplo a Itália de Antonio Conte demonstrou neste europeu; ou há um trabalho de base desde os escalões de formação até aos seniores, alicerçado num modelo de jogo sempre semelhante, com os mesmos princípios e mantendo a mesma base de jogadores a jogarem juntos, se possível. Alemanha e Espanha são exemplos disso. A olho nu vê-se que o perfil de jogador é comum e a forma como se relacionam dentro de campo é coerente, pois todos pensam com base nas mesmas ideias. A primazia pela posse, pela técnica, pela tomada de decisão, pelo ataque organizado, pelo jogo entre linhas, acham que tudo isso é treinado em meia dúzia de dias? No entanto, Portugal insiste em ser inovador e optar pela terceira opção: um selecionador que prime pelo futebol do autocarro, do chuveirinho e da raça. Já nem falo da opção de um plano sustentado a longo prazo, porque isso é vocabulário certamente desconhecido para os nossos dirigentes. O segundo indicador tem a ver com a qualidade do futebol jogado. Alemanha e Itália foram as duas melhores equipas deste Euro e não foi fruto do acaso: a primeira sustenta-se num modelo de jogo com já vários anos de trabalho, em que o selecionador é quase e só isso mesmo, um selecionador de jogadores; a segunda viveu ao abrigo de um super treinador, super no sentido em que foi capaz de, com pouco tempo de preparação, fazer com que a sua equipa apresentasse uma organização de excelência dentro de campo, apenas traída por um penalti falhado. Já o futebol apresentado pela turma de FS foi do mais paupérrimo que me lembro de ver numa equipa vencedora de uma grande competição. Podemos sempre ganhar, qualquer um, desde que lá esteja, pode, porque a aleatoriedade do jogo é que o torna tão apaixonante. Mas jogando desta forma, será impossível ganhar sempre. Agora vão lá endeusar o engenheiro, o Ronaldo, o Éder e o Renato só mais um bocadinho.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Pedro Mendes

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