A Razão da Paixão

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, as ideias, as estratégias. Tácticas que outrora eram utilizadas pelas maiores potências futebolísticas foram caindo no esquecimento ficando imóveis, como uma vaga recordação de um passado irrecuperável enquanto outras, vigorosas e inovadoras, iam entrando de rompante no panorama do desporto-rei. Não é necessário recorrer a exemplos dos anos 20 e 30, quando os treinadores apostavam em planos de jogo que actualmente são ridicularizados (nem o mais “romântico” timoneiro arriscaria, nos dias de hoje, alinhar com 5 avançados em simultâneo) para comprovar esta tese, bastando olhar para as alterações que se verificam desde há sensivelmente 20 anos para cá.

Nas décadas de 1980/90 o 3-5-2 era o “último grito” no que a táctica futebolística dizia respeito. A segurança defensiva que a dupla de centrais mais o libero asseguravam compensava uma menor acutilância ofensiva (a ausência de extremos seria sempre de salientar, se bem que um bom ala seria capaz de disfarçar esse senão), não sendo de estranhar a preferência, um pouco por toda a parte, desta estratégia em detrimento de outras. Na viragem do século, porém, este plano eclipsou-se, dando lugar a táticas mais dinâmicas (o 4-4-2 e o 4-3-3 ascenderam) até que Antonio Conte voltou a colocar o sistema na moda.

O técnico de 46 anos obteve duas subidas de divisão, primeiro no Bari, em 2008/09 (e como campeão) e depois no Siena, na época de 2010/11. Porém, os principais momentos da sua carreira chegariam quando assinou com a Juventus, em 2011. Herdando uma equipa que não alcançara mais que um modesto 7.º posto, na edição anterior da Serie A, Conte impôs desde logo o estilo característico, unindo na perfeição a razão (compreensão do jogo como poucos) e a paixão (total “amor à camisola”, explicado por ter debutado pela Vecchia Signora durante 12 anos, enquanto jogador), conquistando desde logo o campeonato transalpino que escapava aos de Turim desde 2003, alcançando novos triunfos nos dois anos subsequentes. Assim, e pese ter falhado nas competições europeias (em 2013 foi eliminado nos “quartos” da UCL e em 2013/14, após relegado à Liga Europa, foi travado pelo Benfica nas “meias”), foi com alguma surpresa que os bianconeri o viram deixar o norte de Itália, ficando para a história a recuperação de um gigante “adormecido” (somou 102 pontos na Liga na derradeira época) e a retoma do 3-5-2 que, entretanto, foi sendo assumido por outros emblemas italianos.

A passagem de Conte pela squadra azzurra (cargo que agora abandona para rumar ao Chelsea) revelou-se enriquecedora. A Itália, que surgia no Europeu com ambições limitadas (para piorar a situação, dois dos elementos mais importantes, Verratti e Marchisio, falharam o certame por lesão), foi uma das grandes surpresas da prova, derrotando Bélgica e Espanha (no segundo caso com um “banho” táctico impressionante) e cedendo apenas ante a Alemanha no desempate por grandes penalidades. Mesclando, de novo, uma emoção contagiante com um sentido de organização incontestável, Conte formou uma equipa na verdadeira aceção da palavra: lutadora, unida, esforçada, ambiciosa, conseguindo provar, de vez, que o seu 3-5-2 pode resultar – basta ser utilizado por quem tão bem o conhece.

Prestes a iniciar uma nova fase na carreira, Conte será uma das atrações da próxima Premier League. Uma vez desfeitas quaisquer dúvidas quanto à sua competência e à eficácia do seu sistema favorito, o ex-Juventus promete dar seguimento aos bons resultados obtidos por compatriotas seus em Stamford Bridge. É certo que a concorrência será feroz (Mourinho no Manchester United e Guardiola no City; Tottenham, Arsenal e Liverpool “à espreita” e ainda o campeão em título Leicester), mas o transalpino já provou ser capaz de superar as adversidades – sempre com uma paixão única. Londres terá, seguramente, um novo encanto.


Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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