A experiência ainda é um posto

Na maior parte das empresas trabalha um Senhor de idade, comprovadamente o único capaz de realizar determinada tarefa. Indispensável ao bom funcionamento da organização, é não reconhecido pelo valor do seu trabalho, mas também como símbolo daquela. Até o dia em que o Chefe traz uma pequena máquina, que afinal desempenha as mesmas funções daquele Senhor, e com uma eficiência que este fora perdendo com o avançar da idade. O Chefe fica então com um problema em mãos: que fazer ao simpático Senhor, que tanto deu à empresa durante anos, e que de um momento para o outro se tornou redundante? Mantê-lo nos quadros até este se decidir a mudar de vida, ou aplicar-lhe um frio e objectivo "Obrigado e até mais"?

Não será descabido aplicar esta situação a Luisão. O brasileiro, durante anos visto como imprescindível, foi repentinamente substituído por um rapaz sueco, que cumpre a sua função de modo impecável. E assim, a ausência do "Girafa" do onze encarnado passou de calamidade a normalidade.

Em todos os defesos, a questão relacionada com a zona central era "qual será o parceiro de Luisão", tão natural que era a sua titularidade. Este teve diferentes parceiros, alguns deles, como Garay, de categoria internacional, mas a liderança e simbolismo daquele que era o capitão nunca permitiu colocar em causa o seu papel na equipa principal. Claro que a sua sucessão foi abordada, e os adeptos perguntavam-se se o novo reforço era o tal que iria ocupar o seu lugar, mas este assunto era tratado quase que como a morte: sabe-se que é inevitável, mas ainda falta muito tempo até ocorrer.

É verdade que as qualidades de Luisão se foram deteriorando com o tempo. A idade pesa, e as contínuas temporadas a jogar ao mais alto nível provocam desgaste. A velocidade não é o que foi, os reflexos e agilidade falham, demora cada vez mais até alcançar a forma ideal. Mas o posicionamento, experiência, liderança e postura (aquele chavão de que um jogador consegue fazer do parceiro melhor jogador do que realmente é) iam compensando o declínio das capacidades físicas. Por outro lado, a disponibilidade física de Jardel também ajudou a manter a linha defensiva nos mínimos exigíveis.

Até que apareceu Lindelof. Com todas as características físicas intactas, mas demasiado inexperiente. Só que o sueco não tremeu nos desafios mais exigentes e de repente, todas aquelas qualidades atrás mencionadas, continuavam no lado direito do centro da defesa... só que num corpo jovem. E assim, Luisão torna-se redundante, ultrapassado, obsoleto.

Perante a fiabilidade da dupla Lindelof-Jardel, os adeptos perguntam-se acerca da necessidade de manter o brasileiro como opção de recurso. Tais dúvidas devem também assolar equipa técnica e direcção. O seu salário, e até o seu estatuto, não são condizentes com o papel de suplente. Até porque ele pode ter a legítima aspiração de continuar a ser titular ao mais alto nível. Por outro lado, o peso no balneário também é um factor a considerar, pois a tal liderança sente-se tão dentro, como fora do relvado.

O Benfica está então perante uma dúvida fulcral: manter ou o seu capitão, um jogador cujo peso salarial começa a ser inversamente proporcional ao peso desportivo. Deve mantê-lo nos quadros até este se decidir a mudar de vida, ou aplicar-lhe um frio e objectivo "Obrigado e até mais"?

Não existe propriamente uma resposta correcta, pois qualquer decisão tem prós e contras, tanto a nível humano como a nível de gestão. Mas não deixa de ser curioso que, numa era em que os adeptos se queixam de jogadores que fogem à primeira oportunidade e valorizam os raros casos de amor eterno a um emblema, não sintam qualquer remorso em libertar um dos poucos jogador-símbolo que possuem.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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