10 Verdades que ficam do Euro'2016

Deu Portugal. A espera de anos e anos acabou no Stade de France, em Paris, com Portugal a conquistar o Euro'2016, a primeira grande competição de sempre, em futebol sénior. Para a história fica o golo de Éder, os milagres de Patrício, as lágrimas de Ronaldo, a convicção de Fernando Santos, e os vários momentos de celebração no país e nos quatro cantos do mundo onde se fala a língua de Camões. Um certame que acaba pintado de vermelho e verde, mas que teve muito história e proporcionou várias verdades:

Portugal já merecia um troféu destes: Não necessariamente por aquilo que foi mostrado em França, mas por todo o trabalho que vem sendo desenvolvido desde 2000. São já 10 presenças consecutivas em grandes competições, com alguns brilharetes pelo meio. Para um país com a dimensão de Portugal é fantástico, levando em conta a população, com pouco mais de 10 milhões de habitantes, entretanto arredondados a 11, aos quais se juntam os elementos provenientes das ex-colónias. Esta é uma vitória de todos os portugueses, mas em especial de todos aqueles, que dentro de campo ou nos bancos, através do seu trabalho e dedicação procuram elevar o nome do país através do desporto-rei.

O domínio emocional revelou-se preponderante, uma vez mais: Muito se pode apontar a Fernando Santos, sobretudo no capítulo ofensivo do jogo, embora seja inegável o seu trabalho naquilo que são os fatores extra-táticos. O selecionador nacional assumiu, desde o dia em que foi contratado, a ambição de vencer este Europeu e em momento algum colocou qualquer vírgula no seu discurso, servindo como fonte de motivação para os seus pupilos. Mas pode-se ir mais além. O Engenheiro adotou uma postura paternal para com os seus jogadores, um pouco à imagem de Ranieri, e assentou a união e espírito de grupo mesmo nos momentos mais difíceis, assim como Rui Vitória. Quando assim é, e para lá de um percurso relativamente acessível e de um futebol longe da perfeição, tudo torna-se mais fácil. Afinal, “quem percebe só de futebol, não percebe de futebol”.

As duas melhores equipas não chegaram à final: Em torneios deste género, e ao contrário do que se sucede em provas de regularidade, nem sempre os melhores são finalistas, seja porque acabam por se encontrar em fases mais precoces do torneio, seja porque uma única partida pode ditar o destino de uma seleção. A prova deste ano comprovou isso mesmo. A Itália e a Alemanha mostraram ser, durante o tempo em que estiveram em campo, os conjuntos mais completos mas acabaram por se cruzar logo nos quartos-de-final. A Squadra Azzurra, muito ao seu estilo e com uma propensão ofensiva em certos momentos surpreendente, acabou eliminada. Em seguida, os germânicos foram para casa. A campeã do mundo parecia ainda mais bem preparada do que há dois anos, resolvendo o problema das laterais com Hector e Kimmich, e do ponta-de-lança com um rejuvenescido Gomez, mas cedeu perante os franceses, num encontro em que dominaram, e do qual, em condições normais, sairiam vitoriosos.

As maiores revelações chegaram de dois estreantes: Do anonimato para a glória. Assim se pode considerar o sucesso de Islândia e País de Gales. Ambos, nunca tinham marcado presença num Europeu e, logo na estreia, intrometeram-se entre os oito melhores do continente, sendo guiados sempre por uma enorme crença e solidez no seu jogo. Enquanto os islandeses alcançaram os quartos-de-final, o parente pobre do Reino Unido foi aquele que mais tentou evitar um absoluto Brexit em versão desporto. No entanto, analisando a dimensão de uma e de outra nação, aliado ao facto de os da terra do gelo não contarem com as estrelas nem com os jogadores em campeonatos tão competitivos como acontece com os galeses – a maioria do seu plantel disputa os campeonatos ingleses -, é justo dizer que a Islândia acaba por ser a grande sensação deste Europeu.

Três grandes “semi-desilusões”: Parece óbvio que tanto Inglaterra, como Espanha e Bélgica foram quem mais deixou a desejar no mata-mata. Não só acabaram eliminadas relativamente cedo, por adversários individualmente inferiores, como mostraram muito pouco futebol nos jogos que marcaram a sentença. Ainda assim, em nenhum dos casos está expressa uma verdadeira desilusão. No caso d’Os Três Leões, não é a primeira vez que elevadas expetativas saem defraudadas e uma geração interessante sai de cena por um estilo de jogo muito inconsequente. No caso espanhol, a hegemonia há muito que foi quebrada e os problemas estruturais surgem na continuação do ocorrido no Brasil, enquanto a Bélgica voltou a debater-se com os problemas técnico-táticos que em nada se coadunam com a sua ótima geração, que até ao momento, no que toca a conquistas, de ouro não tem nada.

O anfitrião voltou a chorar: É incontestável a preponderância do fator casa no futebol, ganhando ainda mais importância numa prova deste género. Todavia, desde 1998 que o anfitrião de um Europeu ou Mundial não vence o torneio em sua casa. Da última vez, curiosamente, foram os gauleses a sorrir em frente aos seus adeptos. Mesmo assim, apenas entre 2008 e 2012 nenhum dos organizadores chegou pelo menos às meias-finais. A verdade é que Holanda, Coreia do Sul, Portugal, Alemanha, Brasil e França estiveram lá perto, mas o sonho rapidamente transformou-se em pesadelo. A este facto, podemos associar a pressão extra à qual estes países são sujeitos, levando-os a claudicar em momentos decisivos.

O organizador do próximo Mundial deixou péssimas indicações: Dentro e fora de campo, a Rússia protagonizou, sem sombra de dúvidas, do pior que se assistiu neste Euro. O maior país do mundo e a mais populosa federação-membro da UEFA conta com um campo de recrutamento enorme, mas voltou a dar amostras de total desaproveitamento de tamanha matéria-prima a ser trabalhada. 22 dos 23 selecionados atuam no campeonato russo, que está longe de ser de topo, e esta falta de abertura para com o exterior está a ter consequências. Pior, só mesmo a atitude dos hooligans russos, que serviriam de exemplos perfeitos para uma obra de “como não ser adepto de futebol”. Espera-se que num espaço de dois anos haja melhorias, por si, e pelos outros.

O grande ganho do alargamento esteve para lá das quatro linhas: Mais jogos não se traduziram em melhor futebol, mas mais participantes proporcionou maiores espetáculos. Com o estender para 24, várias foram as nações que puderam realizar o sonho de uma vida e partilhar a sua festa com todo o continente. É importante perceber que um evento como este atinge uma dimensão social estratosférica, e estender esta oportunidade é legítimo. Nada seria o mesmo sem a boa-disposição de quem chegou da Irlanda, da República e do Norte, sem a peculiar manifestação de apoio islandesa, sem as beldades albanesas, entre outras peripécias. E mesmo com duas dúzias de seleções, não houve lugar para conjuntos como a Holanda, a Grécia ou a Sérvia.

Bale e Griezmann são legítimos candidatos à Bola de Ouro: O prémio parece estar encaminhado para Cristiano Ronaldo, até pelo escândalo a envolver Messi, mas tanto o galês, como o francês, deram seguimento a uma época desportiva nos respetivos clubes bastante positiva, foram a principal cara das respetivas seleções e, caso mantenham o nível, podem perfeitamente aspirar por um lugar no pódio. O extremo do Real elevou o jogo dos dragões para outro nível, partindo de trás ou tomando conta das operações à frente, em lance de bola corrida ou nas bolas paradas. Por outro lado, o jogador do Atlético, enquadrado num estilo ligeiramente diferente daquele ao qual está habituado em Madrid, foi sempre a réstia de inspiração dos gauleses em períodos de menor fulgor, contribuindo com tentos de suprema relevância, alguns através de cabeceamentos, apesar da sua baixa estatura.

A competição não enriqueceu o futebol: Após um Mundial bem disputado e entusiasmante, aguardava-se com grande ansiedade este Europeu. No entanto, o futebol no geral foi pobre, sendo que o jogo defensivo está a prevalecer sobre a vontade de chegar à baliza contrária. Em muitos encontros foi visível o domínio absoluto de uma equipa sobre a outra, limitando-se esta a esperar um erro do adversário ou um golo "caído do céu". O alargamento poderá ser uma das razões para esta menor espectacularidade, uma vez que a fase de grupos fica de certa forma adulterada, enquanto que na fase a eliminar muitas formações preferiram especular com o jogo em detrimento de procurar a vitória desde o minuto inicial. Deste modo, aquelas que eram as grandes competições da modalidade, aquelas que ninguém queria perder, podem claramente perder impacto no futuro se esta tónica se mantiver.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

Etiquetas: ,