Segurar o empatezinho e o lado escuro deste Euro'2016

"E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;"

Ah Camões, como mudaram os portugueses. Quarta, até ele com uma pala no olho, reconheceria que a Hungria estava ali à mercê de umas quantas mais investidas que ainda "prometia a força humana" e que muito provavelmente soçobraria no nosso melhor momento no jogo.

Infelizmente, o Homem do Leme, já não pertence aquela gesta, nem irá ser sublimado por um poeta. Ou será que mesmo assim, sim? Se há algo épico a envolver o sisudo Engenheiro, é a divina Sorte. E ela poderá ser relembrada no futuro com um rosto e um nome: Traustason. Ele sim, um homem digno de figurar numa das melhores Sagas nórdicas, depois daquele golo no ultimo momento. Ou será que mesmo assim, não? Diabo Traus, para que dantesco Inferno enviaste a tua equipa? Adiante.

As primeiras reações dos portugueses foram muito negativas, perante tamanha cobardia, quando em causa, estava a nossa ida para o lado da Morte deste Euro. No dia seguinte, já reconfortados por estarem no alinhamento correto, mais amaciados pela esperança que afaga o Sonho, muitos passaram da condenação à condescendência. Erradamente, acham que afinal reagiram intempestivamente. Um exemplo de como nem sempre as reações a quente serem as menos acertadas! A sempre célere intuição, neste caso, estava correta.

A esmagadora maioria das decisões que tomamos na nossa vida, ponderam o Risco envolvido e os Benefícios decorrentes de enfrentar esse risco. Muitas vezes, é necessário um risco mais elevado, para um beneficio também ele elevado. E assim se conseguem diferenciar as personalidades. Umas mais corajosas, outras mais avessas ao risco e outras ainda, temerárias, para quem o simples prazer que a adrenalina transporta, sem grande beneficio para alem disso, os impele loucamente para o precipício. E no polo oposto temos os medricas. Aqueles a que nem o vislumbre generoso de grande recompensa, os motiva suficientemente para enfrentarem a ondulação da piscina municipal, quanto mais um Adamastor enfurecido...

Que situação era aquela afinal, quando aos 67 minutos Fernando Santos começa a escrever o infame bilhetinho perfumado de Medo? Temos então de entrar com outro conceito. A probabilidade. E entre a avaliação dos riscos e das probabilidades chegaremos enfim a uma resposta. Ora, como estamos numa época em que muito se fala de apostas e de odds, vejamos o que os mercados nos dizem sobre tudo isto. Eles dão-nos uma perspectiva muito realista do que estava aqui em causa. Se nem sempre a força dos argumentos valem, entremos com a implacabilidade dos números.

Por volta dos 67 minutos, o mercado dava uma odd de cerca de 10 para a Hungria ganhar. Isto sem o sinal de que Portugal se iria tornar mais conservador. Ao mesmo tempo, dizia que Portugal com odd de cerca de 2, teria ainda 50% de probabilidade de ganhar o jogo. Ou seja, o Risco envolvido, seria de cerca de 10%, existindo 90% de probabilidade de Portugal não perder o jogo, e por consequência não sair do Euro. O risco era portanto baixo. No outro jogo havia empate. Ainda era provável que existisse algum golo(que nos lançaria para um bendito 3.º lugar). O que fazer? Seria natural não ir com tudo para cima dos húngaros. Ter algumas cautelas. Mas claro, continuar a atacar e a pressionar. Com o decorrer dos minutos, foi-se tornando muito pouco provável um golo no outro jogo e Portugal decide inexplicavelmente abdicar quase totalmente do risco. E aceitámos conformados o nosso triste Fado, subindo ao cadafalso sem espernear. Quis a Sorte que assim não fosse.

Vamos então, estimando possíveis odds, comparar as probabilidades do Lado da Morte e do Lado da Sorte. Primeiro temos que estabelecer o Objetivo final. Isto faz toda a diferença. Portugal tem 4 presenças em meias finais e 1 final, nos Campeonatos da Europa. Por força disto, tudo o que seja menos que uma meia final, não pode ser considerado um objetivo satisfatório. O sair com dignidade, o fazer uma gracinha, já não nos preenche (talvez um dia, quando for reconhecida a pouca valia individual de alguma geração). Mas o objetivo foi traçado pelo próprio Fernando Santos. Quer ganhar o Euro. Muito bem.

Vamos estimar as odds do Lado da Sorte. Primeiro com a Croácia, os mercados já o fizeram: 3.09, a probabilidade de ganharmos o jogo. Se ainda fosse tempo de Betfair, diria a todos para investirem muito dinheiro em Portugal, para depois saírem do mercado ainda em pre-live. A odd de Portugal está desajustada por força da má impressão do empate recente. Com o aproximar do jogo, aposto que vai descer a odd e ganhariam uns ticks. Mas ao invés de analisarmos as odds de Portugal ganhar, vamos estimar as odds de Portugal NÃO PERDER, e imaginar que Portugal até ganhava sempre em penaltis para facilitar. Contra a Croácia (odd de vitória da Croácia, 2.66, logo imaginando um payout próximo de 100%, cerca de 1.60 a odd de Portugal não perder): 1,60. Contra a Suíça/Polónia nos quartos, vamos estimar cerca de 3,80 para derrota de Portugal, logo 1.35 para não perder. Contra a Bélgica numa possível meia-final, 2,50 a derrota, logo 1,66. Multiplicamos as probabilidades (1,60 * 1,35 * 1,66) e ficamos com uma odd de 3,58. Isto significa que até à final, Portugal teria uma probabilidade de cerca de 28% de não perder os 3 jogos de seguida!

Agora, o lado da Morte. Contra a Inglaterra, os mesmos 2,66, logo 1,60 para não perder (aqui os mercados sobrevalorizam sempre o poder da Inglaterra, e dariam antes uma odd da derrota de Portugal, de cerca de 2,10. Vamos antes colocar Inglaterra ao mesmo nível da Croácia.) Depois com a França nos quartos (tudo hipotético claro), 1,80 para a derrota, 2,24 para não perder. Contra s Alemanha/Espanha, na melhor das hipóteses, 2.00 para derrota, 2.00 para não perder. Multiplicando, dá uma odd de cerca de 7,15. Concluindo, do lado da Morte, Portugal teria cerca de 14% de probabilidade de não perder os próximos 3 jogos. Ou seja, sensivelmente metade das chances do lado da Morte!

Esta, uma forma simplista de explicar. Sem detalhar, entrando os outros fatores em jogo, a estimativa que faço, é de cerca de 13% de probabilidade de Portugal chegar à final do Lado da Sorte e de cerca de 6% do lado da Morte.

De ganhar o Euro, o mercado já nos mostra (não é uma estimativa da minha parte), que do lado da Sorte temos cerca de 8 a 9% de chance. Do lado da morte, desceria abruptamente, para cerca de 4 a 5% (só comparar com a odd da Itália que neste momento estaria mais bem cotada que nós por força dos jogos anteriores). Mais uma vez, sempre a relação de termos o DOBRO das chances, ao alinharmos do lado da Sorte. Em termos probabilísticos, isto é brutal! Se ponderássemos uma odd que tivesse que ser multiplicada ao lado da Sorte, pelo risco inerente ao jogo com a Hungria, ainda assim, jamais interferiria com a conclusão de que o RISCO COMPENSAVA largamente, tendo em vista a final do Europeu.

Podem discordar das odds que estimo. Mesmo assim, nunca essa discordância levará alguém a diferentes conclusões, tão dispares serão sempre as probabilidades.

Porque F. Santos decidiu assim? Talvez, porque para ele, ao contrario do que diz, o primeiro objetivo não seja vencer o Euro ou chegar à final, mas sim manter o lugar. A probabilidade de chegarmos aos oitavos e aos quartos de final, era maior, segurando sem risco o empate. Só muda o vento, quando falamos de meias-finais e final. Depois, saindo às mãos de uma grande potência futebolística, causaria sempre menos impacto, do que sair contra um adversário mais acessível.

Ainda assim, continuo com fé que o equilíbrio da Natureza, nos reservará mais alguma Sorte nos próximos jogos (sim, porque a Sorte até hoje esteve ausente nos jogos que disputámos, apenas a obtendo por terceiros). E pela primeira vez quem sabe...dos Fracos, rezará a História. Eu acredito!

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Santos

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