O melhor treinador de 2015-16

Foi uma época de domínio interno nos principais focos de futebol europeu. Em 4 dos 5 principais campeonatos do “Velho Continente”, o campeão conseguiu a “dobradinha”: o Barcelona em Espanha, PSG em França, Juventus em Itália e Bayern de Munique na Alemanha. Assim sendo, seria expectável que se elegesse, para melhor treinador da época, um dos timoneiros dos emblemas acima mencionados como o melhor da temporada (respetivamente, Luis Enrique, Laurent Blanc, Massimiliano Allegri e Pep Guardiola) ou, então, os vencedores das provas europeias (Unai Emery com o Sevilla; Zidane no comando do Real Madrid, não esquecendo o admirável trabalho de Diego Simeone no Atlético de Madrid). Porém, pela surpresa do feito e pela extraordinária forma como foi conseguido, o técnico do ano não poderia deixar de ser o vencedor da Premier League, Claudio Ranieri.

Aos 63 anos, a reforma começa a ser um cenário previsível e próximo para a maioria dos mortais. No mundo do futebol, o prazo é mais alargado e flexível, havendo treinadores a despedirem-se na casa dos 50 enquanto outros o fazem já perto dos 80. Contudo, nessa fase da carreira, a tendência atual é para os técnicos rumarem a destinos longínquos, realizarem dois ou três anos no comando de algum emblema e receberem um salário avultado para desfrutarem com maior tranquilidade o período pós-futebol. É uma opção cada vez mais comum e aceitável, diga-se. Ranieri, contudo, decidiu regressar à Liga Inglesa, onde já havia competido durante quatro anos, para orientar o instável Leicester. Objetivo: sobreviver entre gigantes, preferencialmente sem os percalços que, na época transata, quase relegavam os “Foxes” de volta ao Championship. 11 meses depois da sua confirmação como treinador, os resultados estão à vista.

A aposta no transalpino não foi, no entanto, consensual, permanecendo na memória o fracasso enquanto selecionador da Grécia (manteve-se no cargo apenas por 4 partidas, saindo por maus resultados). Mas Claudio, nunca tendo sido um fora de série, obtivera regularmente resultados interessantes (na última época no Chelsea ficou em 2º na Liga – atrás do Arsenal invicto – e atingiu as “meias” da Champions; na Roma, em 2009/10, só o Inter de Mourinho o impediu de triunfar na Serie A; no Monaco transportou a equipa para a Ligue 1 e quedou-se atrás do PSG no ano seguinte), pelo que se esperava que pudesse replicar, no King Power Stadium, o pragmatismo e o sucesso evidenciado noutros períodos da carreira. Formando um grupo extremamente coeso (parece ter sido o fator decisivo), sem vedetas e com muita vontade, o Leicester foi ultrapassando obstáculos, com uma filosofia clara: aproveitar as oportunidades. Desse modo, venceu o Chelsea, Tottenham, Liverpool e Manchester City, numa caminhada improvável, mas gloriosa. Elementos como Kasper Schmeichel, Wes Morgan, Robert Huth, Danny Simpson, Drinkwater, Kanté (há 2 anos na Ligue 2), Mahrez (fez mais golos em 2015/16 do que em toda a carreira como sénior) e Vardy (5 tentos em 2014/15) atingiram um nível impensável, que certamente não esperariam alcançar, devendo agradecer (também eles com “pizza”, quem sabe...), em grande medida, a Claudio Ranieri,

Numa prova tão incerta como a Premier League, consistência é palavra de ouro e, durante o ano, nenhuma equipa superou os “Foxes” nesse capítulo. Do início ao fim, o conjunto inglês manteve o perfil respeitável, calmo, sem nunca “embandeirar em arco”. Não contestando a preponderância que os atletas previamente enunciados tiveram para este desfecho final, sem Ranieri muito provavelmente o Leicester teria sido apenas mais um de 20 clubes a lutar por um “lugar ao sol”. Porém, foi o “número 1”, e o ex romano o comandante do, quiçá, maior feito futebolístico do século. Agora com 64 anos, o italiano está aí para as “curvas”. E ainda bem.

Visão do do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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