O Fado Lusitano e o(s) Velho(s) do Restelo

Há quatrocentos e quarenta e quarto anos atrás, foi publicada pela primeira vez aquela que é a máxima epopeia portuguesa. Escrita por Luís Vaz de Camões, a obra-prima que glorificou não só a descoberta do caminho marítimo para a Índia, mas especialmente o povo de uma nação que se sentia pequena num enorme e antigo continente. O sumo do eterno poema épico ilustra a corajosa viagem que definiu a época áurea de um país cujo o eterno fado parecia ser enfrentar impossíveis obstáculos e contra tudo e todos, superá-los.

Uma das características que torna a obra numa peça tão universal é o quão intemporais são, alguns dos seus símbolos. O Velho do Restelo, símbolo associado aos pessimistas, foi introduzido no poema durante a primeira partida dos navegadores portugueses prenunciando que guiados pela ganância, os viajantes das naus estariam destinados a falhar na sua odisseia.

Hoje, tal como no passado, os lusitanos que partiram de uma país pequeno na cauda da Europa encontram pela frente adversidades que se adivinham superiores às suas capacidades. Tal como no passado, os Velhos do Restelo erguem-se e tentam prevalecer contra o entusiasmo gerado pelo empreendimento, antes marítimo, hoje futebolístico.

Se por um lado é verdade que o Velho do Restelo era dotado de uma sabedoria muito superior à dos que lhe rodeavam naquele dia. Por outro, tivesse a sua amargura prevalecido naquele dia perante aqueles que tentavam inverter pela derradeira vez o fado lusitano, o Brasil ainda estaria por descobrir...

Não é uma questão de apoio incondicional, é uma questão de observar com olho crítico o bom ou mau trabalho que foi feito e ajudar a melhorar o percurso que tem de ser percorrido. Não se trata de não criticar construtivamente, trata-se de não envenenar uma jornada que muito mérito tem e que poderá ser a renovada inversão do nosso fado.

Sim, Cristiano Ronaldo tem estado abaixo das expectativas e demasiado individualista mas independentemente da sua "vã cobiça" ninguém o pode acusar de não tentar. Sim, Fernando Santos, o timoneiro desta viagem pode não ser o líder perfeito e os seus marinheiros podem não ser os universalmente escolhidos em detrimento de "nomes com quem se o povo néscio engana", mas tal como nós, o sonho deles é alcançar a vitória...

Muitos de nós não o querem ver, mas existe de facto mérito na forma como o grupo tem lutado embora que sem sucesso, mas isso faz parte do nosso fado. Estatisticamente, o nosso futebol tem estado muito próximo dos líderes da competição. Ao fim da "tempestade" que foi a segunda jornada éramos terceiros classificados no que toca à posse de bola com 89% de passes efectuados com sucesso e com uma qualidade de posse não tão questionável como parece, ou não fosse sermos não só os mais rematadores (50 remates!), como também os que mais à baliza remataram (16)... Mas o futebol é assim, noutros dias e sob as mesmas circunstâncias o povo seria premiado com goleadas avassaladoras e os heróis seriam louvados e lembrados enquanto a memória fosse conveniente...

Se o Velho do Restelo prevalecesse naquele dia, o nossa maior glória seria esquecida.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): White Elephant 

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