10 verdades sobre a presença de Portugal no Euro'2016 até ao momento

Objectivo assegurado, sem qualquer brilhantismo e com demasiado sofrimento. Reza a lenda de que Portugal mais dificuldades sente quanto mais fácil forem os adversários, e de facto a Selecção Nacional fez de tudo para respeitar esse princípio. Os três adversários eram do mais acessível que se podia desejar, sendo até que o supostamente mais forte mostrou uma qualidade bem abaixo do exigível para estes torneios, mas nem assim a tarefa foi fácil. Outros candidatos aplicaram a lei do menor esforço e ficaram-se pelo mínimo exigível, mas com maior ou menor brilhantismo asseguraram a passagem, já os lusos tiveram de recuperar três desvantagens para a Hungria, para se manterem vivos, e apenas saltaram para a parte menos complicada do quadro porque o Pai Natal passou da Lapónia para a Islândia. Ainda assim, o objectivo foi alcançado, e a partir de agora tudo, mas tudo, pode acontecer. Mas olhando para o futuro, convém esmiuçar algumas memórias passadas:

Fernando Santos fala à português mas ainda pensa que está na Grécia: O Engenheiro parecia levar o plano delineado, mas a implementação do Projecto França/16 nada tem a ver com a fase de análise de requisitos funcionais. O 4x4x2, tão trabalhado nos jogos de preparação, foi para o lixo, e a filosofia baseada na coesão ainda deve estar na alfândega. O seleccionador mostrou já alguns sinais de intranquilidade, em especial quando lança jogadores em cima do apito final, um acto de fé incompatível com o Homem da Ciência. A aposta continuada em Moutinho é outro ponto estranho, até porque Santos não teve problemas em sentar Eliseu, ou mesmo Quaresma, exigido pelas massas populares. A postura final no terceiro jogo mostrou também um homem intranquilo e medroso, pois se é verdade que a equipa jogava sob brasas e fora queimada três vezes, é inconcebível que um putativo (nas suas palavras) candidato à vitória final se encolha perante um adversário muito mais fraco.

Habemus lateral: Eliseu seria a opção natural, mas o jovem Raphael Guerreiro, que caso Coentrão estivesse apto nem para França teria viajado, agarrou o lugar. O reforço do Dortmund teve excelentes desempenhos frente a Islândia e Áustria, mostrando capacidade em fechar o flanco e integrando-se bem no ataque. Presente e futuro assegurados, numa posição carente de talento nas últimas décadas.

Organizados, mas não muito: a maior qualidade desta equipa era a suposta organização e coesão. Foi esse o trunfo máximo na fase de apuramento, foi essa a filosofia apresentada no duplo teste de Leiria. Mas em França, viu-se o oposto. Na primeira partida, após o golo sofrido, a anarquia instalou-se, com os jogadores a fazerem exactamente o oposto do que haviam feito nos primeiro 45 minutos. Frente à Hungria foi o descalabro total; jogadores perdidos, a atropelarem-se uns aos outros por ocupares os mesmos espaços, transições rápidas sem apoios, linhas de passe e movimentos ignorados, grandes clareiras e amontados de jogadores. E nem foi porque os magiares baralharam o xadrez luso, foi mesmo por desnorte próprio.

João Moutinho é o elo mais fraco. Indesmentível! É verdade que um jogador não é "o" culpado de todos os males, mas será coincidência que a prestação global sobe quando o médio do Mónaco sai? Moutinho apareceu em má forma física, e por mais que Fernando Santos teorize, uma prova destas não se coaduna com o conceito de dar rodagem aos jogadores. Voltando atrás, Moutinho é um caso de qualidade precoce, e a prova de que a evolução de um jogador não é linear. Aos dezoito anos mostrava maturidade e cultura tácticas dignas de um trintão, aliando uma capacidade física de excelência. Porém, nunca conseguiu corrigir as suas lacunas, nomeadamente a capacidade de remate e a decisão no último terço, bem como a progressão sem ser em espaço aberto. Hoje, sem a disponibilidade física que lhe permitia estar em todo o lado, é apenas mais um, o que é pouco.

Nani ainda é uma mais-valia: uma espécie de Éder dos pequeninos, os adeptos exigem a sua saída, mas na verdade o seu desempenho tem sido satisfatório. Os dois primeiros golos na competição foram da sua autoria, e tem mostrado a espaços os predicados técnicos que fizeram dele estrela em Manchester. E relembre-se, alguém tem que correr pelos dois da frente.

Bolas paradas são o ponto forte... dos outros: essenciais no futebol moderno, inexistentes no futebol português. Os livres directos em zona frontal são monopolizados por Ronaldo, e pouco trabalho têm dados aos guarda-redes contrários. Os livres laterais e cantos são inofensivos. O que é estranho, tendo Portugal bons executantes (João Mário, Quaresma, Guerreiro) e bons cabeceadores (Pepe, Ronaldo, Danilo).

Momento defensivo tem sido um desastre: supostamente o ponto mais forte, mas a prática não confirma a teoria. A Islândia, a passo e com futebol rústico, criou o pânico no último reduto, a Áustria fez o mesmo, enquanto quis jogar, os três golos húngaros apenas confirmam o facto de que a qualidade defensiva deixa a desejar. O jogo aéreo possui imensas lacunas, a transição defensiva é fraca, e os erros básicos acumulam-se. Mais que culpar A ou B, é importante corrigir a postura colectiva não só do quarteto de trás, mas também dos que à frente deste jogam.

Finalização aquém do desejado: quatro golos, a dividir igualmente entre Nani e Ronaldo. O CR7, que tem sido criticado tanto pelos remates como pelos arremessos, não está particularmente eficaz, mas mais uma vez provou que, na arte de meter a bola na baliza alheia, não tem concorrente em solo lusitano, seja no Continente ou Ilhas. A realidade é que a selecção continua demasiado dependente da sua veia goleadora, e sem esta, dificilmente de avança. A questão de, explorar essa veia de todos os sítios e de todos os modos, é que deveria ser discutida dentro do grupo.

Há proscritos: já deu para perceber que o grupo se divide entre os que jogam e os que batem palmas. Vieirinha não tem sido deslumbrante, mas Cedric não é opção; Fonte e Alves fazem número, não obstante o natural desgaste de Ricardo Carvalho, Adrien foi simplesmente sentir as raízes, e Rafa e Éder são para usar em caso de emergência. Irá algum destes elementos ter um papel minimamente relevante na fase a eliminar?

Muito apoio, mas só quando aparecem as câmaras: não tem muito a ver com o que no relvado se passa, mas que influencia, influencia. Os "tugas" têm primado pela discrição, logo eles que se têm mostrado tão efusivos frente às câmaras das televisões que cobrem incessantemente o evento. Bipolaridade, ou algum outro fenómeno, a verdade é que os apoiantes das Quinas têm sido abafados, mesmo estando em superioridade numérica. Quiçá a postura de quem tem acesso a este tipo de eventos, que não são baratos, não se coaduna com a do típico adepto, ou gastarão eles as energias em selfies e manifestações nas redes sociais?

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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