Um rigoroso modelo de gestão

14 de Julho de 2006. A Juventus, bicampeã italiana na altura, era despromovida ao 2.º escalão do futebol italiano, na sequência do processo Calciocaos. Tratava-se da primeira despromoção da Vecchia Signora, num escândalo que abalou Itália cinco dias depois da conquista do Mundial da Alemanha. Esta situação trouxe naturais consequências, entre as quais a perda dos campeonatos de 2005 e 2006, bem como a saída de muitos elementos importantes do plantel, nomeadamente Cannavaro, Thuram, Vieira ou Ibrahimovic. Todavia, outros como Buffon, Nedved, Del Piero ou Trezeguet ficaram em Turim e ajudaram os bianconeri a regressarem à Serie A no ano imediatamente seguinte. Os primeiros anos após o regresso ao convívio dos grandes não foram fáceis, tendo os resultados ficado muito aquém do esperado e do que era habitual naquele clube. 

Todavia, o regresso da família Agnelli ao comando do leme, em 2010, mudaria a história da Juventus. Andrea Agnelli, de 34 anos, era agora o novo presidente, sucedendo a Jean-Claude Blanc, esperando-se um novo rumo. O primeiro ano não foi feliz, visto que Del Neri e os seus pupilos não conseguiram mais do que um mísero 7º lugar, ficando a 24 pontos do campeão AC Milan. No entanto, a escolha para o comando técnico da equipa na época seguinte recairia em Antonio Conte, uma antiga figura do clube, e a mesma viria a revelar-se extremamente acertada. O italiano, natural de Lecce, sagrar-se-ia tricampeão no local onde havia sido mais feliz na sua carreira de jogador, tendo revitalizado o clube com mais campeonatos em Itália. Por outro lado, depois de Conte viria Massimiliano Allegri, que tinha sido campeão no rival Milan. Pedia-se um trabalho de continuidade e Allegri manteve a formação de Turim na rota do sucesso, ajudando a somar mais dois títulos de campeão, a conquistar a Taça de Itália e tendo estado presente na final da Liga dos Campeões do ano passado.

Além dos treinadores, importa realçar o trabalho da direcção no que ao mercado de transferências de jogadores diz respeito. Itália há muito que deixou de ser o principal centro do futebol europeu e como tal torna-se cada vez mais complicado (mesmo para os grandes) atrair os melhores jogadores do mundo, algo que era frequente nos anos 80 e 90. Sendo assim, Agnelli e os seus colaboradores tiveram de utilizar uma estratégia diferente para atingirem a glória. O novo procedimento passaria por continuar a pescar nos clubes mais pequenos da Serie A, bem como aproveitar jogadores de muita qualidade que estejam descontentes ou desvalorizados nos principais clubes das grandes ligas. Hoje é fácil de verificar que o projecto tem sido exemplarmente executado. Analisando os plantéis destes últimos 5 anos, percebemos que foram muito poucos os activos que não tiveram rendimento. Krasic é talvez o nome mais sonante entre esses, pois havia sido o melhor jogador na última época antes de Conte e acabou encostado fruto da nova táctica implementada na equipa, que não contemplava extremos. De resto, podem-se apontar nomes como Elia, Ogbonna, Isla ou Matri, bem como outros mais discutíveis como Llorente ou Giovinco, mas é visível que são mais os exemplos de sucesso do que o contrário. Pensemos em Pogba, que chegou a custo zero e pode sair por valores astronómicos, em Tevez e Evra, que vinham algo descredibilizados de Manchester, em Vidal, que se tornou num dos melhores médios da Europa e saiu por 40 milhões, em Pirlo, que parecia acabado no rival Milan ou nos defesas Bonucci e Lichtsteiner, que entraram no lote dos melhores. Além destes, há os exemplos da presente temporada, visto que as saídas foram importantes e praticamente não se notaram. Os cofres bianconeros parecem estar de boa saúde, algo demonstrado nas contratações de Dybala e Alex Sandro (será Matic o próximo?), sendo clara a décalage que existe entre a Juventus e os restantes clubes italianos. As saídas prometem voltar a acontecer, mas os adeptos não estarão certamente preocupados, pois sabem que o trabalho tem sido bem feito e que há meios para reformular a equipa em alguns lugares se for necessário.

Em suma, há razões para sorrir em Turim, pois a hegemonia em Itália parece estar para durar, uma vez que não se tem visto a mesma competência na escolha de jogadores e treinadores nos outros clubes nem a mesma disponibilidade financeira, algo que só irá aumentar com uma melhor estratégia de mercado. Nápoles e Roma têm tentado aproximar-se, mas ainda precisam de subir um ou dois degraus para chegarem ao topo, enquanto que os rivais de Milão prosseguem a sua via sacra. Por fim, diga-se que a Vecchia Signora esteve perto de conseguir a cereja no topo do bolo em 2015, mas esbarrou num super Barcelona, pelo que será essa a grande ambição dos adeptos e dos responsáveis do clube nos próximos anos. 

Rodrigo Ferreira

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