O novo berço dos Cruzados‏

Foi no passado dia 22 que chegou ao fim mais um campeonato da 1ª divisão na Geórgia. A 27ª edição da Umaglesi Liga voltou a consagrar – pela 16ª vez na sua história – o Dínamo Tbilisi, que assim recuperou um título que lhe escapou na época anterior para o Dila Gori. Se juntarmos a esta conquista o triunfo na taça, sobre o Sioni Bolnisi, então foi a 10ª dobradinha na história do clube, que durante muitos anos foi uma das principais potências da União Soviética.

Fundado em 1925, o Dínamo é um de três emblemas, juntamente com os seus homónimos de Moscovo e Kiev, que nunca foram relegados à 2ª divisão no anterior formato do campeonato soviético, e os únicos provenientes da URSS, que durante o mesmo período, alcançaram finais europeias. No seu palmarés constam 2 títulos da URSS, duas taças e uma Taça das Taças, em 1981, numa final em que se superiorizaram aos alemães do Carl Zeiss Jena por 2-1.

Durante toda a sua história, o Dínamo foi também o principal revelador e exportador de talento nacional. Temuri Ketsbaia (78 presenças pelo Newcastle na Premier League), Shota Arveladze (melhor marcador na histórica da selecção), Georgi Kinkladze (um dos melhores jogadores do Manchester City na 2ª metade da década de 90) ou Kakha Kaladze (ex-Milan) são apenas alguns dos elementos que completaram toda a sua formação no clube, que agora parece ter perdido esse título para um dos seus vizinhos da cidade, o FC Saburtalo.

Fundado a 20 de Agosto de 1999, o Saburtalo foi adquirido em 2005 pela Iberia Business Group – a maior distribuidora automóvel do país – que na pessoa do seu presidente Tariel Khechikashvili, assumiu o objectivo de criar a melhor academia de futebol da Geórgia. E fê-lo, recorrendo a profissionais altamente qualificados, como o é Andrés Carrasco, que durante dois anos dirigiu a academia, depois de ter estado ligado ao Barcelona entre 1998 e 2011, onde se tornou no coordenador-geral de todo o futebol 7.

A qualidade do trabalho desenvolvido reflecte-se no número de jogadores talentosos que o clube tem dado a conhecer. Giorgi Chanturia foi emprestado ao Barcelona quando tinha apenas 16 anos. Valeri Qazaishvili é um dos melhores jogadores do Vitesse, clube com o qual o Saburtalo mantém uma estreita parceria. Bachana Arabuli (Dínamo Tbilisi) cumpriu um período de testes no Manchester City; Davit Khocholava (Chornomorets, Ucrânia) no Empoli; e Archil Tvildiani (Dínamo Batumi) no Spartak de Moscovo. Lasha Dvali trocou em Janeiro o Duisburgo pelos polacos do Slask Wroclaw.

O Saburtalo possui uma extensa rede de olheiros que viajam por todo o país em busca dos jogadores mais promissores. Depois, o clube negoceia com os seus pais e respectivos clubes a fim de formalizar os vínculos contratuais. Todas as despesas (alojamento, alimentação, transporte e educação) são suportadas pelo Saburtalo. Neste momento, a sua academia é frequentada por 600 jovens.

Para promover o seu projecto e recolher maiores apoios, o Saburtalo tem organizado vários torneios internacionais e procurado estabelecer parcerias com outros clubes ou entidades que não estão directamente relacionadas com futebol. Em 2011, o clube organizou a Wolkswagen Cup, que contou com a participação do Vitesse, e em 2012, a equipa holandesa repetiu a presença na Saller Cup, na companhia do Málaga.

2015 assinalou o culminar do projecto. No mesmo ano em que a equipa júnior se sagrou campeã nacional e participou na última Youth League – foi afastada pelo Midtjylland na primeira ronda do caminho dos campeões – a equipa principal estreou-se na 1ª divisão com um tranquilo 9º lugar. A permanência nunca esteve em causa, apesar de o plantel ser o mais jovem do campeonato, com uma média de idades inferior a 20 anos (19,9) - uma diferença de 3 anos para a segunda equipa desta lista, o Lokomotiv Tbilisi (22,8), que ficou apenas no 13º lugar. Não é por isso surpreendente que o Saburtalo seja o clube que mais alimenta a selecção de sub-19, com 8 elementos na última convocatória.

O “Messi georgiano”

Giorgi Chanturia é um dos principais talentos “made in” Saburtalo. Quando tinha apenas 16 anos, este extremo natural de Tbilisi foi cedido ao Barcelona, onde se sagrou campeão nacional de juvenis em 2009/10. No final da temporada, os catalães manifestaram interesse em prolongar o vínculo, mas a transferência nunca se materializou. O Chelsea era um dos clubes que estava interessado na sua contratação, mas as fortes restrições da federação inglesa impediram que o negócio fosse avante. O Vitesse foi uma das hipóteses que surgiu, e à partida, tinha tudo para correr bem.

Depois de resistir a inúmeras crises financeiras, o histórico emblema holandês foi adquirido a 16 de Agosto de 2010 pelo ex-futebolista e ex-presidente da Federação de Futebol da Geórgia Merab Jordania. Para além de ser compatriota de Chanturia, este empresário de 44 anos mantinha uma relação muito próxima com Roman Abramovich, líder do Chelsea, o que poderia facilitar uma hipotética transferência de Chanturia para Londres. Alguns dias depois de Jordania assumir os destinos do Vitesse, os dirigentes de ambos os clubes anunciariam uma das parcerias que se tornaram mais famosas nos últimos anos. 

Os primeiros tempos de Chanturia no Vitesse – onde conviveu com os seus compatriotas “Vako” Qazaishvili (melhor marcador dos Vitas em 2015/16) e Guram Kashia (capitão de equipa formado no Dínamo Tbilisi) foram auspiciosos, mas o talentoso extremo acabaria por abandonar em definitivo o clube em 2014, depois de vários empréstimos que também não lhe correram de feição. Após uma longa travessia no deserto, Chanturia chegou no início da presente temporada ao Duisburgo, da 2ª divisão alemã, e onde alinha desde Janeiro o português Tomané, emprestado pelo Vitória de Guimarães.

Apesar de só ter conquistado a titularidade absoluta no último terço da campanha – a partir da jornada 23 – Chanturia foi o homem do momento durante o mês de Maio, depois de evitar a despromoção directa das Zebras, que foram dadas como condenadas, depois de se manterem ininterruptamente no último lugar da segunda liga entre as jornadas 6 e 31.

Na jornada 32, Chanturia assistiu Obinna para o 2-1, que valeu um triunfo muito saboroso sobre o Fortuna Düsseldorf, um dos seus maiores rivais. Na jornada 33, assinou ele próprio, de livre directo, o golo que valeu o empate ao minuto 83 com o Sandhausen, e que permitiu anular uma desvantagem de dois golos. Mas o melhor estava reservado para a última jornada. O Duisburgo só dependia de si para escapar à despromoção directa, mas recebia o 2º classificado RB Leipzig. Foi ao minuto 75 e através de uma jogada individual que Chanturia desfez o nulo e selou um triunfo que lançou em êxtase os mais de 28 mil espectadores.

No playoff de manutenção/ promoção, o Duisburgo defrontou o surpreendente Würzburger Kickers, 3º classificado da 3ª divisão, e que na última temporada competia nos regionais da Baviera. O 2-0 conquistado na primeira mão parecia ser suficiente para os bávaros que não se amedrontaram perante os 30 mil espectadores que lotaram a MSV Arena, recinto do Duisburgo.

O cenário de remontada ainda se colocou, quando Chanturia, já depois de uma série de iniciativas individuais nos minutos anteriores, arrancou um cruzamento que resultou no autogolo do central Schoppenhauer. Os visitantes responderam 4 minutos depois com o empate, e se ainda existiam esperanças do lado do Duisburgo, a substituição forçada de Chanturia aos 56’ – que até aí estava a ser o mais inconformado – dissipou-as.

Um mês de sonho para Chanturia não foi suficiente para impedir o regresso do Duisburgo ao terceiro escalão, um ano depois de ter alcançado a promoção, mas o seu futuro a nível pessoal parece bem mais promissor. Colónia e Werder Bremen são apenas alguns dos interessados no internacional georgiano de 23 anos, cuja saída já foi confirmada, fruto dos regulamentos impostos pela 3ª liga. Será uma segunda oportunidade para o “Messi georgiano” confirmar todo o potencial que o Barcelona lhe reconheceu quando tinha apenas 16 anos.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

Etiquetas: