O miúdo cresceu; E venceu

Futebol. Nada seria o mesmo sem ele; sem os momentos que nos proporciona. Dos dribles aos carinhos, das mortíferas transições ofensivas à organização defensiva estruturada ao detalhe, das defesas do outro mundo aos golos com nota artística. E sem as polémicas, que dentro de determinados limites, não deixam de ser saudáveis. O regresso da escola ou do trabalho às terças e quartas à noite perderia o seu brilho, aos fins-de-semana reinaria o vazio, e muitas das conversas entre amigos tornar-se-iam ocas. No que é que depositaríamos as nossas emoções? Quem seriam os nossos ídolos? Onde assistiríamos contos de fadas adaptados à realidade? Se o homem é, em certa medida, refém do futebol, o inverso também se aplica. Porque a evolução da modalidade está intimamente ligada às ideias, às teorias, às invenções e descobertas, e porque não aos erros, cometidos por cada um dos que procuram dar o seu contributo. Que procuram tornar o jogo cada vez mais inteligível. Dos analistas aos treinadores, passando por cada um dos adeptos.

Wembley. Wembley é especial. Não é o maior estádio do mundo, porque este situa-se na Coreia do Norte. Provavelmente, não oferece o drama do Maracanã, o êxtase do Westfalenstadion ou o simbolismo do recinto do clube do nosso coração. Mas é ímpar, e disto poucos discordarão. É de todos sem ser de ninguém. É do futebol, é do rugby e é da música. É dos grandes concertos e é das grandes finais. É de Inglaterra, mas principalmente do mundo. Porque todos têm o direito de fazer dele o seu paraíso; o apogeu de uma caminhada guiada pelo trabalho, pela persistência e pela superação. Wembley pode ser a nossa casa por um dia, albergando qualquer um, sem manter compromisso com nenhum.

Wednesday. Mais do que um comum dia da semana, trata-se de história, de paixão, de uma autêntica religião. Hillsborough é o santuário e as corujas que o ocupam são os incondicionais fiéis. Incondicionais, porém insatisfeitos. Aliás, como toda a cidade. O Sheffield FC, considerado pela FIFA como o clube mais antigo do mundo, fundado em 1857, encontra-se nas divisões mais baixas do futebol inglês, os gigantes da Football Association há muito que estão adormecidos e distantes da Premiership. Se o velhinho United está perdido pelo terceiro escalão, o eterno rival, com ainda mais anos de existência, procura contrariar a tendência negativa. A primeira participação do milénio no máximo escalão poderá estar por horas e o emblema quatro vezes campeão inglês, três vezes vencedor da Taça de Inglaterra e uma outra da Taça da Liga, suspira pelo desafio final. Uma vitória, em tempo regulamentar, no prolongamento ou na decisão por grandes penalidades, é tudo o que se pede.

Carlos tinha um sonho; está em vias de o concretizar. Em 90 minutos, três dos seus grandes amores misturam-se num só - o futebol, Wembley e o Sheffield Wednesday.

Carvalhal, que cresceu a admirar defesas centrais, seguindo-lhes os passos, sempre nutriu grande carinho pelo desporto. Gostava de jogar, bem como de decifrar os seus segredos. Desde jogador, mesmo que tecnicamente menos dotado, houve uma constante preocupação pela compreensão do jogo e da sua posição em particular. Os anos passaram-se, os clubes sucederam-se, embora o destino já estivesse traçado - o menino, que entretanto se tornara um homem, iria ser treinador. Começou no Sporting de Espinho, e gradualmente foi subindo degraus na carreira, até chegar a Alvalade, mesmo que numa das piores fases da história do emblema leonino. Os momentos áureos da carreira datam de 2002 e 2008, ao serviço do Leixões - na altura, na 2ª Divisão B - e Vitória de Setúbal respetivamente, com a ida à final da Taça de Portugal e conquista da primeira edição da Taça da Liga.

Para além dos clubes treinados, escreveu dois livros: "Futebol - Um Saber Sobre Saber Fazer" e "Entre Linhas". No primeiro, escrutina a periodização tática, enquanto no segundo, disserta sobre um conjunto de variantes do jogo, deixando explícita a responsabilidade do técnico na evolução dos seus pupilos e o cuidado na análise de cada uma das partes que constituem o todo, desde aspetos físicos a mentais, de individuais a coletivos, pensando no momento defensivo como ofensivo.

Eis uma das passagens mais marcantes do livro “Entre Linhas”: "Mourinho até podia não ter ganho nada de relevante na sua primeira época no Real Madrid, mas para mim que sou treinador de futebol, ganhou um troféu que parecia impossível: transformou um "jogador-sono" num jogador a trabalhar imenso para a equipa. Se existirem dúvidas comparem, por exemplo, o Benzema antes e depois de Mourinho. É necessário entender que a diversidade faz parte da vida e que numa equipa de futebol ela não é só necessária como imprescindível. Cumpre ao treinador fazer com que essa diversidade tenha uma ideia e objetivos comuns". Ao longo da obra, a toada é a mesma, sempre com elevadas doses de sabedoria sobre aquilo que são as nuances do futebol.

Fora do país, após passagens menos felizes pela Grécia e Turquia, é em terras britânicas que o português parece ter encontrado o seu lugar ao sol. Em Sheffield, uma das maiores cidades do Reino Unido, pediram-lhe a primeira metade da tabela, mas Carvalhal quis ir mais além. Com a companhia de sete conterrâneos - os jogadores Marco Matias, Lucas João, José Semedo e Filipe Melo; os adjuntos Bruno Lage e João Mário; e o observador Jhony Conceição -, devolveu ao histórico a esperança de regressar à Premier League, com a presença nos play-offs. Pelo meio, contabiliza-se ainda uma expressiva vitória ante o ArsenalO futebol, tão sedutor quanto competente, vai deixando os adeptos dos Owls em estado de júbilo. Barry Bannan entrou no melhor onze do campeonato, Fernando Forestieri transformou-se numa máquina de golos, Ross Wallace de assistências, Marco Matias foi galardoado pelo tento do ano, mas o coletivo sempre conseguiu se sobressair. Os cânticos "Carlos Had a Dream" tornaram-se virais e a frase é já das mais famosas de Inglaterra por estes dias, valendo até a confecção de camisolas. Estão ainda estampadas num qualquer cartaz, no estádio, nas casas, nas ruas, e nem os escritórios fogem à moda.

Falta um único passo. O derradeiro encontro. Em jogo, para além da subida, estão os exorbitantes milhões, o mar de emoções. Carlos Carvalhal relembrou, poucos minutos depois de consumada a vitória ao favorito Brighton na primeira mão das meias-finais dos play-offs, não escondendo a lágrima no olho, os tempos de infância/juventude em Braga, em que via, a quilómetros de distância, esta final. Décadas depois, e porque nunca é tarde para singrar, é ele quem se exibe para um vasto público. Hoje, é ele o protagonista deste conto. Sem nunca ter sido colocado num pedestal, trilhou o seu caminho, e vai brilhando à sua maneira. O miúdo cresceu e, independentemente de tudo o que acontecer este sábado, certamente venceu.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

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