Dois caminhos para o mesmo fim

Após várias discussões que vão alimentando capas de jornais sobre quem é/foi o melhor treinador da época 2015/2016, penso que o essencial tem sido esquecido e o ênfase dado às conferências de imprensa tem deixado de parte aquilo que realmente importa no desporto…o treino!! No desporto não existem receitas, se compararmos o treino de Cristiano Ronaldo nada tem a ver com o de Lionel Messi. Nesta guerra Rui Vitória vs Jorge Jesus, impossível comparar, são duas metodologias completamente distintas que se cruzaram num campeonato decidido até à última jornada. É injusto afirmar que Rui Vitória é o melhor porque ganhou, visto que o futebol é um jogo tão imprevisível que poderíamos estar aqui a supor que se não fossem os falhanços de Bryan Ruiz no derby o Sporting seria campeão, ou até mesmo os golos no período de compensação que levaram o Sporting a ganhar o sprint inicial da prova foram obra do acaso. Certo é que independentemente de tudo, estamos perante dois excelentes treinadores, bem, um treinador e um professor, posso dizer que pegando no que disse Jorge Jesus eu próprio também não qualifico Rui Vitória como treinador, para mim ele é um condutor de homens!

A Filosofia e Metodologia de cada treinador:
Jorge Jesus manteve o registo que nos habituou nos últimos anos, um treinador que forma uma equipa à sua imagem, sempre atento a todos os pormenores desde o posicionamento de um jogador num lançamento, até ao pente utilizado no corte da relva. No banco de suplentes é difícil de o encontrar pois está quase sempre fora da área técnica, acompanhando e vibrando com cada jogada. Gosta de ter o jogo sob o seu controlo, daí estar sempre a dar indicações para dentro do campo como se estivesse a controlar a equipa com um comando. Em termos táticos sem dúvida que o Sporting apresentou um futebol com nota artística, resultados e muita atitude. Foi um campeonato em que faltou talvez a “ratice” algo normal, tendo em conta que nenhum jogador deste plantel conquistou um campeonato em Portugal, à exceção de João Pereira.
Rui Vitória segue uma metodologia completamente diferente, em termos de conhecimento tático parece ser inferior a Jorge Jesus, tendo um saldo de clássicos de (5D- 1V) em 2015-16. Esta abordagem reflete a metodologia que cada um segue. Rui Vitória parte do individual para o coletivo e Jorge Jesus do coletivo para o individual. Parece um paradoxo tendo em conta que o plantel do Benfica era o mais unido do campeonato. No entanto esta metodologia é similar à aplicada na escola. O estilo de professor que pensa sempre no bem do aluno de forma a alcançar os resultados da turma, o aplicado por Rui Vitória, cada jogador é importante para a equipa com as suas características. Prova disso foi a grande alternância de titulares no plantel encarnado ao longo da época. Quando Luisão e Júlio Cesar se lesionaram, os miúdos Éderson e Lindelof assumiram o posto, cumprindo e correspondendo à confiança do seu professor. Nesta turma são todos iguais e mesmo após regresso à competição Vitória decidiu manter os miúdos, na teoria seria pior para a equipa mas na prática conquistou o balneário. Este é o verdadeiro significado de treino, não basta dizer que são todos importantes para se unir um balneário, é preciso demonstrar! Neste capítulo Rui Vitória ao contrário de Jorge Jesus conseguiu um rendimento individual positivo não apenas do seu onze base, mas de todo o plantel. Unir uma equipa é algo que se treina, se fosse apenas o relacionamento entre jogadores, bastava no treino de recuperação juntar a equipa e beber uns copos.
A janela de transferências:
Com um Sporting lançado no sprint para o título e com uns confortáveis 7 pontos de avanço, a janela de transferências previa um forte investimento do Benfica na tentativa de salvar a época. Esta foi para mim a etapa crucial deste campeonato. Sporting decidiu pensar no bem do coletivo e ajustar algumas posições que não ofereciam confiança ao treinador. Assim no defeso, Jesus contou com o regresso de Rúben Semedo juntamente com a contratação de Coates, Bruno César, Hernán Barcos e Ezequiel Schelotto. 3 com entrada no onze titular e parecia que o Leão estava cada vez mais forte. Certo é que estas entradas vieram trazer uma mensagem de desconfiança para os restantes jogadores que mesmo em primeiro lugar não pareciam satisfazer as necessidades do treinador. Por outro lado o Benfica surpreendentemente não contratou praticamente ninguém para a equipa principal, contando apenas com Grimaldo que participou em 2 jogos para o campeonato. A equipa era criticada, os reforços eram apontados nos jornais, no entanto fechou o defeso e Rui Vitória afirmou publicamente que confiava nos jogadores que tinha. Este foi o momento de união de toda a equipa, e com o mesmo plantel que iniciou a época o Benfica somou nas provas internas 22 vitórias e apenas uma derrota frente ao Porto. O Sporting com os reforços obteve um registo nas provas internas de 17 vitórias 3 empates e 2 derrotas.

Em suma:
Rui Vitória conseguiu que a sua turma chegasse ao terceiro período com um rendimento homogéneo da maior parte dos seus alunos. Foi um professor que soube manter a equipa motivada e unida e qualquer jogador que entrasse em campo jogava confiante e livre devido à confiança depositada. É raro vermos o técnico das águias aos saltos no banco a querer comandar a equipa, este segue uma filosofia onde o jogador deve ser capaz de optar pela melhor decisão no momento em que tem de decidir. Não existe uma fórmula para quando o jogador tenha a bola, este decide e tem a liberdade total desde que seja o melhor para a sua equipa. Isto faz com que o jogo do Benfica pareça mais desorganizado, tenha momentos em que a equipa está bastante abaixo do normal, no entanto Rui Vitória entrega o protagonismo e responsabilidade aos seus jogadores dentro das quatro linhas. Este é como um árbitro assistente que dá a sua opinião e orientações, mas a decisão final é sempre do jogador que está dentro do campo.

Jorge Jesus claramente construiu novamente uma equipa à sua imagem, agressiva sem bola, rápida a decidir e a transitar da defesa para o ataque e a praticar um futebol que domina o adversário. No entanto Jorge Jesus nunca conseguiu que no Sporting, toda a alegria e paixão dos adeptos estivesse em sintonia com a alegria dos jogadores. Este sempre quis pegar no comando da playstation e comandar os jogadores conforme ele achava que seria o melhor para a equipa. Uma coisa conseguiu! Praticar o melhor futebol em Portugal, no entanto o futebol é muito mais do que todos os conceitos táticos e técnicos. O futebol é praticado por 11 homens contra outros 11 homens, e nos momentos mais difíceis, a criatividade e a crença dos jogadores do Benfica veio à tona superando algumas más exibições e arrancando vitórias com um herói diferente a vestir a capa a cada jornada, celebrando com toda a equipa e adeptos com a mesma paixão de miúdos que ganham o torneio mais importante da escola!

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): André Mendes

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