Crise de meia-idade

As histórias de todos os clubes de futebol estão repletas de altos e baixos. O que os distingue é a dimensão dos seus feitos e a capacidade para se manterem no topo, por mais ou menos tempo. Nos últimos anos, o número de clubes que encerraram as suas portas na Holanda cresceu consideravelmente. Com maior ou menor sucesso, estes clubes desapareceram – de forma definitiva, ou para darem lugar a outros com uma nova designação – levando consigo um pedaço de história do futebol nacional.

Em 2010, o HFC Harleem, que Ruud Gullit liderou no início da sua carreira à única aparição europeia da sua história, declarou falência com um título nacional (1946) e 5 presenças na final da taça – vitórias em 1902 e 1912 – no seu historial. Em 2011, foi a vez do RBC Roosendaal – finalista vencido da taça em 1986 – cujas únicas 5 participações na Eredivisie tiveram lugar no início dos anos 2000. Em 2013, este lote de equipas ficaria completo com o SC Veendam e o AGOVV Apeldoorn – finalista vencido da taça em 1938 – e que revelou, entre outros, Klaas-Jan Huntelaar, Dries Mertens ou Nacer Chadli.

Com um papel igualmente importante na história do futebol holandês, o Fortuna Sittard marcou presença de forma regular na primeira divisão nas décadas de 80 e 90. Fundado em 1968, o clube resultou da fusão do Fortuna ’54 com o Sittardia. Apesar de o Sparta Rotterdam – fundado em 1888 – ser o clube mais antigo na Holanda, o Fortuna foi o primeiro a tornar-se profissional. A temporada 1956/57 foi a mais bem-sucedida da sua história. Para além de ter terminado no 2.º lugar da Eredivisie, naquela que foi a primeira edição da competição, o Fortuna ’54 conquistou o seu primeiro troféu, a Taça da Holanda, à custa do Feyenoord.

Em 1964, o Fortuna estreou-se nas provas europeias na primeira ronda da Taça das Taças, fruto da conquista da segunda Taça do seu palmarés na temporada anterior. No entanto, seriam precisos 20 anos para o clube repetir igual sucesso. Em 1984, e já depois de Fortuna ’54 e Sittardia se terem fundido, o Feyenoord, onde pontificavam Ruud Gullit ou Johan Cruyff, desforrou-se do Fortuna com um triunfo por 1-0 na final da Taça. No ano seguinte, o Fortuna foi ainda mais longe na Taça das Taças, mas acabaria eliminado pelo Everton nos quartos-de-final.

Na segunda metade da década de 90, o Fortuna viveu o segundo período áureo da sua história, com uma colheita de talentos que daria cartas alguns anos mais tarde nos principais emblemas nacionais. Em 1997/98, o clube nomeou Bert van Marwijk, antigo jogador do clube, como o seu novo treinador, para responder ao 13º e 11º lugar que o Fortuna obteve desde o seu regresso ao primeiro escalão dois anos antes.

Na sua temporada de estreia, o técnico natural de Deventer igualou a melhor classificação na história do clube com um 7º posto e garantiu o apuramento para a Taça Intertoto. Em 1998/99, o Fortuna ficou-se pelo 10º lugar, mas atingiu a final da taça pela quarta vez na sua história, onde acabaria derrotado pelo Ajax, onde já poucos eram os vestígios – apenas Edwin van der Sar e Jari Litmanen – da equipa que se havia sagrado campeã europeia em 1995.

Em 2000, Fernando Ricksen, Mark van Bommel, Patrick Paauwe, Wilfred Bouma e Kevin Hofland estrearam-se pela selecção principal holandesa. Todos eles tinham despontado no Fortuna, e com exceção do primeiro, todos evoluíram sob as ordens de van Marwijk. Ricksen, van Bommel e Hofland eram produtos da formação. O primeiro esteve no regresso à Eredivisie, Hofland na final da taça, e van Bommel em ambos os momentos, apesar de ter perdido o jogo decisivo em 1999 por castigo. Paauwe e Bouma chegaram ao Fortuna em momentos diferentes, mas numa altura em que ambos procuravam somar minutos para regressarem à sua casa-mãe, o PSV.

Mas o ano de 2000 não seria apenas sinónimo de boas notícias para o Fortuna. No final da temporada, van Marwijk abandonou o clube, que parece ter acusado não só a sua saída, como a mudança para o novo estádio Wagners & Partners, que substituiu o antigo Baandert. Em 2001, o Fortuna escapou à descida de divisão nos playoffs, mas não seria por muito tempo, já que na época seguinte a despromoção à Eerste Divisie ficaria confirmada.

Foi a última aparição do Fortuna no máximo escalão, e desde então, o cenário não mais melhorou. O clube acumulou diversas dívidas que o deixaram à beira da bancarrota e foram muitos os esforços desenvolvidos para que o Fortuna não desaparecesse. Desde a venda do naming do estádio, a um jogo de angariação de fundos que contou com a presença de figuras ilustres na história do clube, e numa possibilidade mais remota, uma fusão com o seu vizinho Roda JC, que poderia ter dado origem ao Sporting de Limburgo. Dentro das quatro linhas, os recordes acumularam-se, pela negativa. Em 2003 e 2005, o Fortuna terminou no último lugar da Eerste Divisie em três temporadas consecutivas. Em 2005/06, o clube também fixou uma nova marca ao permanecer 28 jogos consecutivos sem vencer.

2015/16 não foi diferente das campanhas anteriores. O Fortuna Sittard conheceu três treinadores diferentes, mas terminou apenas na 16ª posição. Foi a segunda defesa mais batida do campeonato e o ataque menos concretizador com 41 golos, os mesmos do RKC Wallwijk.

Mais do que treinador e jogador

Quando van Marwijk chegou ao Fortuna, em 1997, Ricksen rumou ao AZ Alkmaar. Na época seguinte, Paauwe assinou pelo Feyenoord, onde haveria de reencontrar van Marwijk, apenas dois anos mais tarde. Em 1999, van Bommel e Bouma, que tinha sido emprestado no início da temporada, seguiram para o PSV. Hofland juntou-se a eles um ano depois.

Van Marwijk notabilizou-se ao serviço do Feyenoord, com o qual conquistou uma Taça UEFA em 2002, e uma Taça da Holanda em 2008, numa segunda experiência no clube. Em 2010, conduziu a selecção holandesa à final do Mundial da África do Sul, onde sucumbiu perante a congénere espanhola durante o prolongamento. Despediu-se da selecção laranja após o Euro 2012, onde foi derrotado em todos os três jogos da fase de grupos.

Actualmente, é o seleccionador da Arábia Saudita onde é coadjuvado por van Bommel, que para além de ter sido seu jogador, é também o seu genro. Casou em 2001 com a sua filha Andra, da qual tem três filhos: Renée, Thomas e Ruben.

O momento mais aguardado da temporada

Como apenas o campeão da Eerste Divisie tem acesso imediato à Eredivisie, os playoffs acabam por ser um dos momentos mais aguardados do ano no futebol holandês. Ao todo, são dez as equipas que lutam pelas últimas duas vagas na primeira divisão. Ao 16º e 17º classificado da Eredivisie, juntam-se 8 equipas do segundo escalão. Para tal, a competição é subdividida em quatro períodos de 9 jornadas: 1-9, 10-18, 19-27 e 28-36. O vencedor de cada período apura-se automaticamente para a primeira ronda dos playoffs, independentemente da sua classificação final. As restantes vagas são atribuídas às quatro equipas melhor posicionadas na tabela final, e que não conquistaram nenhum dos períodos. As equipas B de Ajax e PSV, e os amadores do Achilles ’29 são excluídos destas contas.

Em 2015/16, o Almere City foi a grande surpresa dos playoffs. Quando estavam disputados 20 jogos, a equipa somava apenas três triunfos e ocupava a última posição do campeonato. No entanto, a vitória sobre o Emmen, à 28ª jornada, provou ser o impulso que o Almere necessitava para uma ponta final demolidora. Naquele princípio de noite, foram 11 golos, duas reviravoltas no marcador e um golo aos 90+1 que fixou um resultado final de 6-5. Seguiram-se oito triunfos nas restantes 10 jornadas, que permitiram ao Almere conquistar o quarto período e garantir a última das vagas nos playoffs.

Novos quadros competitivos

Na próxima temporada, os escalões inferiores do futebol holandês irão sofrer uma profunda reforma nos seus quadros competitivos. Até aqui, a Eerste Divisie não contemplava descidas de divisão. Para que um clube estivesse apto a subir de divisão, teria de manifestar essa intenção junto da federação até à pausa de natal na campanha vigente, e esperar que um dos participantes na segunda divisão visse a sua licença profissional revogada, de forma a ocupar a sua vaga. Foi assim que o Achilles ’29 subiu à Eerste Divisie em 2012/13, beneficiando da falência de AGOVV e Veendam.

Já a Topklasse, que até à presente temporada funcionou como a terceira divisão, estava dividida em duas séries, compostas por 16 equipas cada: a Zaterdag (em português, significa Sábado) e a Zondag (Domingo), cujos desafios de discutiam nesses respectivos dias. No final, os dois campeões de cada uma das séries mediam forças numa final a duas mãos pelo título de “campeão do futebol amador na Holanda”. Em 2016/17, com a reintrodução da Tweede Divisie, a Topklasse e todos os escalões seguintes, serão empurrados para um nível inferior na pirâmide do futebol holandês.

A nova competição será disputada por 18 equipas e representa um marco histórico, pois será a primeira vez, desde que o futebol profissional foi introduzido na Holanda em 1954 (lembram-se do Fortuna?) que existirão promoções e despromoções diretas entre as competições amadores e profissionais. A Tweede Divisie irá reunir os 7 primeiros classificados de cada uma das séries da Topklasse e 4 equipas de reservas, que até aqui também tinham o seu próprio campeonato, a Beloften Eredivisie (traduzido à letra, Promessas da Eredivisie), excepto as equipas de Ajax, PSV e Twente, que disputam desde 2012/13 a Eerste Divisie, à qual – a partir de agora – só o campeão desta nova competição semiprofissional terá acesso.

Na Eerste Divisie também se irão registar algumas mudanças. A equipa de reservas do FC Utrecht, que se sagrou campeã da Beloften Eredivisie, irá se juntar às restantes 19 equipas, repondo o número de participante para 20, que estava em falta após a desistência do Twente no início de 2015/16. Pela primeira vez, o último classificado será automaticamente despromovido à Tweede Divisie. Portanto o recorde que o Fortuna Sittard fixou em 2005, quando terminou na última posição da Eerste Divisie em três edições consecutivas, deixará de poder repetir-se.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

Etiquetas: