Uma Grandeza Inabalável

Estranhos tempos fluem em Marselha. O clube de futebol local, historicamente o maior emblema gaulês, vê-se, a 6 jornadas do término da Ligue 1, na 13.ª posição com uma vantagem de meros 6 pontos sobre a linha de água. É o clímax de uma temporada a todos os níveis frustrante que obriga os dirigentes marselheses a repensar a estratégia para o futuro.

Marcelo “el loco” Bielsa, ou “el loco” Marcelo Bielsa, enfim, coloque-se a alcunha onde se bem entender, a verdade é só uma: o técnico em questão é “loco”, sim, mas no bom sentido. A forma como deixara marca por onde passara (Newell's Old Boys, seleção do Chile, Athletic), revolucionando a filosofia de jogo dos respetivos emblemas era visto como um bom prenúncio para a travessia ao comando do Marselha. Não obstante as crispações iniciais com a direção (motivadas pela contratação de jogadores sem o aval do treinador), o argentino, impondo o seu estilo inconfundível (que inclui tomar cafés durante partidas de futebol), conquistou o coração dos adeptos e fez renascer o OM. Apesar da concorrência desigual do megalómano PSG, do Lyon do endiabrado Lacazette e do coeso Mónaco de Leonardo Jardim, a sua equipa traçou um percurso sublime até à paragem de inverno. Nessa fase, o Marselha liderava, de modo improvável, o campeonato francês. Contudo, a partir de janeiro os sulistas foram “perdendo gás” e, embora tenham lutado pelo 1º lugar até bem perto do final, acabaram na 4.ª posição e, por conseguinte, afastados da Liga dos Campeões do presente ano.

Para 2015/16, as esperanças dos adeptos marselheses eram, naturalmente, elevadas. Porém, a saída do carismático Bielsa logo após a primeira partida oficial da temporada criou um vazio no Vélodrome que o substituto Míchel não tem conseguido, de todo, preencher. Nesta fase, o histórico conjunto gaulês tem de contentar-se, além de uma possível vitória na Taça (defrontará o Sochaux nas “meias”, sabendo que o “papão” PSG também está em prova), com a luta pela permanência na Liga, algo simultaneamente surpreendentemente e inusitado.

Perante esta situação, há considerações a tecer, começando pelo presidente. Vincent Labrune, líder dos marselheses desde julho de 2011, tarda em ser bem sucedido. Nas duas temporadas anteriores à sua eleição, o Olympique havia sido campeão e conquistado um segundo lugar; desde a sua chegada, só por uma vez logrou o apuramento para a Champions. Além do mais, a postura de Labrune está longe de ser a mais correta. De facto, as polémicas sucedem-se, incluindo com a formação técnica (o caso de Bielsa não é virgem) – enfim, parece querer ser um novo Bernard Tapie, mas apenas fora dos relvados, pois dentro está a anos-luz do obtido pelo antigo comandante marselhês. Juntando a isto o facto de a proprietária do clube (Margarita Louis-Dreyfus, que herdou o clube com a morte do marido) apresentar uma certa inexperiência, constata-se uma enorme falta de liderança no conjunto gaulês.

Em segundo lugar, as finanças e a questão das transferências. Como recentemente se constatou com Lucas Silva, o Marselha, ainda que afastado da maior competição mundial de equipas, continua a ser uma montra muito respeitada pelos atletas, algo que oferece esperanças para o futuro. No entanto, é impressionante, assustadora até, a incapacidade que o mais titulado emblema de França tem para segurar as suas pérolas. No mercado de verão, não foi só o conhecido Imbula a ser transferido; André Ayew (Swansea), Mario Lemina (Juventus), Gignac (Tigres), Dimitri Payet (West Ham) e Florian Thauvin (Newcastle) seguiram-lhe os passos e abandonaram o Vélodrome: duma assentada, seis elementos cruciais na manobra da equipa saíram. E o pior de tudo é que apenas Imbula, Payet (15 M€ que acabaram por ser uma “pechincha”) e Thauvin (18 M€) proporcionaram encaixe financeiro, pois os outros mencionados saíram a custo zero (Lamina está emprestado). Esta ocorrência dá-se, em grande medida, devido à situação financeira do conjunto do sul. A verdade é que o histórico emblema não tem, pura e simplesmente, capacidade para segurar as jóias. Num campeonato tão desnivelado (a diferença entre o número 1 e o número 2 é tremenda), é evidente que a menos que haja uma reestruturação ou que um magnata decida investir em Marselha (porquê no Mónaco?), as dificuldades que hoje são enfrentadas não serão superadas amanhã.

Por último, um ponto positivo: a juventude. Apesar do OM não ter necessariamente nenhum grande craque formado totalmente “em casa”, é inegável o potencial existente no Vélodrome. Benjamin Mendy, lateral esquerdo, é titular há 3 anos mas conta somente com 21; Karim Rekik, vindo do Man. City, não obstante os 21 anos já se impôs no centro da defesa; Lucas Ocampos ainda só conta com, igualmente, 21 anos, assim como George-Kevin Nkoudou, titularíssimo com Mìchel e, por fim, o destaque da época Michy Batshuayi que leva, para já, 19 golos. Ou seja, existe habilidade para descobrir jovens promessas e para os tornar em certezas, mas se não os conseguirem manter, todo o trabalho se torna em vão (imagine-se mesclar o elenco deste ano com o da temporada transata...).

Depois do escândalo Tapie, em 1993, o Marselha só se conseguiu sagrar campeão por uma ocasião (apesar de ter três Taças da Liga). Entretanto, viu o Lyon ser heptacampeão e observa, hoje, o PSG dominar o país. Em abono da verdade, há que admitir que a situação do OM não é irreversível – há potencial de sobra para fazer muito melhor. Contudo, sente-se que será necessária uma remodelação nas mais altas instâncias (presidente à cabeça), maior esforço na manutenção das “estrelas” e, porque não, um investimento que se coadune com a grandeza do clube com mais adeptos em França para voltar a tornar o Olympique de Marseille numa potência internacional.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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