O segredo está na massa

"Caso não sofram golos no próximo jogo, ofereço uma pizza a todos", prometia Claudio Ranieri, nas vésperas de receber o Crystal Palace. Apesar das excelentes indicações dadas pelo Leicester até à altura, o facto de ter sofrido golos em todas as partidas deixava o técnico insatisfeito, pelo que o italiano propunha uma deliciosa recompensa caso o objetivo fosse finalmente conseguido. Não apenas foi, como de então em diante os Foxes somaram 17 jogos sem sofrer golos, tornando-se cada vez mais consistentes e escalando lugares na tabela de forma antes impensável. Nessa semana de outubro, após o 1-0 ante os Eagles, Ranieri arcou com as despesas mas surpreendeu os seus pupilos com a revelação de que seriam eles a colocar a mão na massa, fazendo por conta própria as respetivas iguarias. Sem vestir roupas extravagantes e demonstrando uma humildade pouco vista em jogadores tão expostos a este tipo de mediatismo, assistiu-se a um momento de confraternização que vincou o espírito de equipa e impulsionou as "novas vedetas" para um patamar ainda mais alto. O Leicester progrediu, mesmo que para isso tenha abdicado de uma quota-parte da sua espetacularidade - caso contrário, provavelmente a tendência seria o descer de degraus, tal a previsibilidade que se poderia apoderar do seu jogo. Claudio Ranieri é o maior responsável por tudo isso, fixando um estilo que hoje permite cada vez menos oportunidades aos rivais, fruto também de uma organização ofensiva mais metódica de modo a criar menores desequilíbrios. O menor fulgor da dupla maravilha Mahrez-Vardy deu lugar a uma ascensão de nomes como Schmeichel, Huth, Morgan, Kanté ou Okazaki, que hoje assumem um maior protagonismo. Isso, sem nunca destoar da parte humana. É que o técnico que hoje lidera a Premier League é mais do que isso - é também o professor, conselheiro, pai e amigo daquelas estrelas. A vitória contra o Sunderland no último fim-de-semana só pode ser encarada com naturalidade, em mais uma partida em que o discernimento se sobrepôs à ansiedade, algo pelo qual se espera nesta fase final. Vardy, que surpreendentemente não vem sendo tão assediado como é comum em situações como esta - a idade aqui talvez pese -, bisou e ofereceu o triunfo, com dois tentos que ilustram bem os seus atributos de finalizador.

No norte de Londres mora o único conjunto capaz de evitar o "escândalo", e certamente não se trata do Arsenal, que desperdiçou uma vantagem de dois golos no fantástico derby diante do West Ham, acabando empatado a três. Mora em White Hart Lane o grande antagonista desta história, que mesmo não ocupando a liderança em nenhum momento da época, como o seu futebol sobejamente ofensivo, chega ao topo e vai acalentando esperanças de ser campeão. O Manchester United, uma vez mais repleto de jovens - se por necessidade ou não, há que dar créditos a Van Gaal pelo facto de os lançar -, sobreviveu por 70 minutos até ser engolido pela fera que é o ataque dos Spurs, que nem precisou de ver Kane marcar para ganhar por 3 a segunda melhor defesa da Liga. Na luta pelo último lugar que dá acesso à Champions, o City adquiriu vantagem, fazendo o trabalho de casa e superiorizando-se a um sempre traiçoeiro West Brom. Destaque óbvio para Nasri, que após uma longa paragem, soma um golo e uma assistência nos dois encontros que realizou desde o seu regresso. Com a cabeça no sítio e livre de lesões, é certamente um dos melhores do mundo na sua posição. Citizens que foram uma das duas únicas equipas inglesas a chegar aos quartos-de-final das competições europeias. A outra foi o Liverpool que, mesmo rodando, goleou o Stoke - que voltou a ressentir-se da ausência de Butland, que falhará ainda o Europeu devido a uma lesão grave - e comprovou o excelente momento em que se encontra, alimentando boas expectativas para a segunda mão dos quartos-de-final da Liga Europa, batendo-se novamente com o Dortmund, dado como muitos como o grande favorito à conquista da competição. 

Vencer todos os jogos que lhe restam; esperar que o Sunderland ganhe na casa do Norwich na próxima jornada e que Newcastle, Black Cats e Canaries, percam todos os restantes; faturar tentos suficientes de forma a anular uma desvantagem de 19 no que toca ao goal avarage, o principal critério de desempate, visto que quando muito, existe a possibilidade de apenas igualar pontualmente a primeira equipa acima da linha de água. Eis a única combinação capaz de salvar o Aston Villa. Tão insólita como a clamar pelos deuses. Na última semana, com a derrota caseira com o Bournemouth - que assim, ripostou a amarga derrota na estreia -, os Villans foram incapazes de aproveitar os deslizes de todos os seus adversários diretos num Villa Park cada vez menos composto. No entanto, é irrisório pensar que os problemas evaporar-se-ão todos no espaço de poucas semanas, após meses, até anos, a viver no cume da anarquia. A situação do Newcastle não é muito melhor. Talvez até mais dramática, se enquadrarmos os resultados no caminhão de investimento que houve nos últimos dois defesos. A derrota na casa do Southampton demonstra bem a antítese entre desorganização e planeamento - em St. Marrys, mora um clube que sabe como gastar e encontra-se perfeitamente estabilizado no máximo escalão britânico. Felizmente para os Magpies, o Crystal Palace venceu pela primeira vez em 2016 para a liga, batendo o Norwich pela margem mínima e afastando de vez qualquer fantasma da despromoção existente. Os comandados de Alex Neil, terão esta oportunidade no próximo sábado. Seria no mínimo curioso ver que no mesmo ano em que os três emblemas que sobem de divisão mantêm-se na elite, três históricos de Inglaterra caem. Finalmente, destaque para o empate entre Everton e Watford, há muito livres de sarilhos, e para o Swansea que impondo a primeira derrota para a Premier League do Chelsea na Era Hiddink, garantiu a continuidade - não matemática, é certo - entre os melhores.

Onze Ideal da Jornada 33 da Premier League: Gomes (Watford); Walker (Tottenham) Alderweireld (Tottenham); Ward (Crystal Palace); Moreno (Liverpool); Wanyama (Southampton); Kanté (Leicester);  Alli (Tottenham); Origi (Liverpool); Vardy (Leicester) e Carroll (West Ham)
MVP: Andy Carroll (West Ham). Exibição soberba do ponta-de-lança inglês, inspirado como há muito não se via. Muito bem posicionado e forte no cômputo do remate, acumulou três remates certeiros no empate dos Hammers, que apesar de terem somado o segundo derby consecutivo sem conseguir vencer no Upton Park, continuam a dar excelentes indicações. Aqui, o maior destaque, para além da "fúria" de Carroll, vai para a forma como consegue responder a uma desvantagem de dois golos ainda na primeira parte. Segue-se um fulcral duelo com o United a valer a chegada a Wembley, uma espécie de prémio de honra caso não consigam chegar ao quarto posto, que dá acesso ao playoff da Liga dos Campeões.
Jogador a Seguir: Alex Iwobi (Arsenal). Mais um dos miúdos de Wenger, que é o mesmo que dizer, mais um trunfo para o francês assegurar a sua continuidade nos Gunners. Por muito que se possa apontar ao timoneiro do Arsenal, parece óbvio que é dos melhores a potenciar talento jovem. Bellerín é o maior dos nomes que beneficiou disso ultimamente, sendo que nas últimas partidas tem-se evidenciado ainda este nigeriano de apenas 19 anos. Depois de marcar ao Everton e ao Watford, foi o homem que assistiu para os dois primeiros golos do Arsenal no último encontro e dificilmente largará a titularidade até ao final do campeonato.
Treinador da Jornada: Mauricio Pochettino (Tottenham)
A Desilusão: Rafael Benítez. Nada de embalo motivacional. Nada de se superiorizar, futebolisticamente ou em termos de resultados, aos adversários. Nada de esperanças. Em suma, nada de "efeito chicotada". Apesar da passagem infeliz pelo Real Madrid, os anos de experiência e o facto de já ter sido um vencedor em Inglaterra antecipavam um impacto que poderia ser benéfico para o Newcastle. Ter saído de um clube com legítimas ambições de ser campeão europeu para outro que luta por não descer fazia crer que o espanhol estava ciente de que seria capaz de inverter a má tendência recente, mas a primeira imagem é de todo negativa. Em quatro encontros, dois deles diante de oponentes diretos, apenas um ponto. Os Magpies já nem dependem exclusivamente de si, mesmo que com um jogo em atraso. Faltam seis finais - doseadas entre adversários mais complicados e outros teoricamente mais acessíveis - e são estas as partidas que Benítez tem para calar os críticos e terminar a temporada, contra quaisquer previsões, em beleza.
Menção Honrosa: José Fonte. Mais uma exibição segura do internacional português, nesta que é já a sua nona época consecutiva em Inglaterra. Primeiro no Crystal Palace, atualmente no Southampton. Passando pela League One, Championship e agora na Premier League. Sempre com um número considerável de jogos por ano, por norma apresentando-se ao mais alto nível. O capitão dos Saints, com 32 anos, está no pico da sua carreira e é hoje um dos centrais mais completos da Liga Inglesa, com níveis de concentração e assertividade bem acima da média. A sua não-titularidade no Europeu, com preferência para a dupla Carvalho-Pepe, só se poderá compreender pelo menor estatuto de que este usufrui, pese embora a qualidade dos seus concorrentes.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

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