O Homem que já não está à frente do seu tempo

Aquele Ajax empolgava até o mais acérrimo cético. No espaço de seis temporadas, o emblema de Amesterdão apaixonou a Europa com um futebol envolvente, “total”, enfim, tipicamente holandês, conquistando tudo o que havia para conquistar: 1 Taça UEFA (única na histórica do clube), 1 Liga dos Campeões (quarta e, até agora, última), 1 Supertaça Europeia, 3 Eredivise e 1 Taça, e tudo assente numa equipa jovem, evoluída e com ideias e estratégias inovadoras. Poderíamos analisar a evolução, ou regressão, do Ajax desde esse período dourado até hoje, e certamente não faltariam temas para abordar, mas centremo-nos no arquiteto desse sucesso: Louis van Gaal.

Van der Sar; Reiziger, Blind, Rijkaard, Frank de Boer; Edgar Davids, Seedorf, Litmanen; Finidi, Overmars, Ronald de Boer. Foi este o onze escalado por van Gaal para a final da Champions edição 1994/95, ante o poderoso AC Milan. A grande maioria do elenco era extremamente jovem, formado no clube, sendo que mesmo os estrangeiros haviam sido contratados muito novos e a conjuntos sem qualquer expressão a nível mundial. Até à derradeira partida, os neerlandeses não perderam nenhum dos 10 jogos disputados, eliminando categoricamente, na fase a eliminar, o Hajduk Split (3-0 na soma das duas mãos) e o Bayern de Munique (após um brutal 5-2), isto depois de terem medido forças com os rossoneri na fase de grupos, triunfando em ambas as partidas. O golo do substituto Patrick Kluivert, a 5 minutos dos 90' na final, deu aos Godenzonen a tão ambicionada “taça das orelhas grandes”, que lhes escapava desde os tempos áureos de Johan Cruyff, colocando van Gaal no Olimpo dos grandes mestres do futebol pois conseguira, como poucos antes de si, aliar qualidade de jogo, inovação e triunfo.

Contudo, após esse desempenho sublime, Louis não mais conseguiria aingir esse nível, apesar do bom trabalho realizado por onde passou. Antes de sair do Ajax, o técnico ainda conquistaria para o conjunto da capital 1 Eredivise e 2 Supertaças, 1 europeia, outra holandesa, resultado possível após a razia da qual o seu plantel foi alvo. Seguiu-se o Barcelona, cujo vazio deixado pela saída de Cruyff seria colmatado pelo génio de van Gaal. Nas três temporadas ao comando dos blaugrana, venceu 2 campeonatos e 1 Copa del Rey, conseguindo, logo no “ano um”, a primeira dobradinha dos culé desde 1952/53. Apesar de uma última temporada frustrante (o Barça quedou-se em 2.º na La Liga, tendo caído nas meias-finais da taça e da Champions), o percurso do agora timoneiro do Manchester United foi positivo.

Chegamos agora à fase “horribilis” da carreira de van Gaal: entre 2000 e 2005. Durante essa meia década, Louis falhou a missão de levar a seleção da Holanda ao Mundial da Coreia e do Japão (apenas terceiro lugar no grupo, superado por Irlanda e Portugal), fracassou por completo no regresso ao Camp Nou (quando saiu, em janeiro de 2003, deixou a equipa a 20 pontos do primeiro lugar, na 12ª posição) e ainda conseguiu causar uma polémica com Ronald Koeman, no Ajax. Numa situação delicada, acabaria por aceitar o convite do AZ Alkmaar.

Em Alkmaar, van Gaal recuperaria o prestígio perdido, ao colocar a equipa a praticar um futebol aprazível e vencendo, em 2008/09, uma Eredivise improvável (foi apenas a segunda da histórica do emblema e a primeira desde 1980/81). A maré de triunfos continuaria na Alemanha onde, orientando o Bayern de Munique, teve um ano de sonho, conquistando a “dobradinha” e falhando o triplete por pouco (derrota na final da Champions contra o Inter de José Mourinho). Além dos bons resultados, a imagem dos bávaros demolidores começou a ganhar forma, bem como a aposta em elementos jovens: Thomas Müller saltou do anonimato para a titularidade, bem como Holger Badstuber, ao passo que David Alaba se estreou com o treinador holandês. No entanto, após uma época triunfal, o emblema de Munique sofreria uma queda aparatosa. Em 2010/11, van Gaal falhou em tudo: apenas 3.º posto na Bundesliga, a 10 pontos do fantástico Borussia Dortmund, eliminações nos “oitavos” da Champions e nas “meias” da Taça, tornando a saída uma certeza.

Voltando a orientar a “laranja mecânica”, que vinha de um catastrófico Euro 2012, Louis, desta feita, foi muito mais bem sucedido. Com ele, a Holanda ficou no último lugar do pódio do Campeonato do Mundo de 2014, ficando para a história as contundentes vitórias sobre Espanha (5-1) e Brasil (3-0) e as vitórias sofridas sobre México e Costa Rica (no último caso apenas após desempate por grandes penalidades).

Atualmente no Manchester United, van Gaal tarda em convencer os adeptos britânicos, e não é difícil compreender porquê. Não obstante o tremendo investimento efetuado pelos red devils (Luke Shaw, Di María, Ander Herrera, Falcao; Schneiderlin, Schweinsteiger, Depay, Martial), o treinador holandês não tem sido capaz de mobilizar os recursos disponíveis, embarcando em opções duvidosas (o sistema de 5-3-2 que tentou implementar no princípio demonstra-o bem) e em autênticos desperdícios (a transferência de “Angelito”, um ano depois de chegar, permanece como mistério), consumando-se um fracasso que, neste momento, se revela inevitável: desaparecimento na Europa (eliminação na UCL por PSV e Wolfsburgo e na Liga Europa por Liverpool) e adormecimento doméstico (a 4 pontos do 4.º lugar, que dá acesso à Champions), enfim, tudo muito curto para tão grande potencial. Não deixa, também, de ser curioso a aposta em tantos elementos jovens, da “cantera” do Man. United, precisamente após um investimento tão avultado. Lingard, Rashford, Andreas Pereira e Fosu-Mensah têm tido oportunidades, veremos se as continuarão a ter num futuro próximo ou se passarão de “next big thing” de um ano para prescindíveis noutro (Tyler Blackett chegou a receber um aumento muito substancial de salário no ano passado, começando mesmo a titular, mas este ano foi cedido ao Celtic). No meio de uma situação atípica, o rótulo de “ultrapassado” começa a cair com certa insistência sobre van Gaal.

Mas até que ponto é justo considerar o campeão europeu “ultrapassado”? É certo que, como já mencionado, o seu percurso em Old Trafford está a ser péssimo, falhando em todas as comeptições (resta a Taça, na qual está nas meias-finais) e desiludindo todo e qualquer adepto do Man. United. Contudo, duas épocas de insucesso não podem apagar duas décadas de sucesso; convém recordar que Louis tem no seu palmarés uma Champions e ligas de Espanha, Alemanha e Holanda, formando quase sempre equipas fantásticas, de elevadíssimo nível, além de um 3.º posto num Mundial. Independentemente do que fizer até ao final da carreira, que parece próximo, não é possível retirar-lhe tais conquistas, nem um lugar na história. Mas a verdade é que hoje, quando olhamos para o banco, certamente já não vemos o jovem van Gaal que primava pela inovação, pela irreverência, apenas laivos daquilo que um dia foi um fenómeno (o “teatro” no jogo contra o Arsenal, a troca de guarda-redes nos “quartos” do Mundial 2014). Neste momento, simplesmente, já não está à frente do seu tempo.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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