Do vale tudo ao quase nada

Há quem diga que o dinheiro não traz felicidade, mas o futebol nem sempre segue essa lógica. Da Rússia, da China ou do Médio Oriente. Quando se fala de dinheiro no futebol, pouco importa a proveniência. Os “novos-ricos” vieram para ficar e um dos exemplos mais recentes chega da Suíça. Em Julho, um grupo de investidores turcos – liderado por Mehmet Nazif Gunal, empresário de 68 anos que fez fortuna no ramo da construção civil e dos transportes – adquiriu o FC Wil, da segunda divisão.

Fundado em 1900 por dois trabalhadores ingleses, o Wil desempenhou sempre um papel secundário em representação do futebol helvético. Nos seus registos consta apenas uma Taça da Suíça – conquistada em 2004 – e duas presenças na primeira divisão, entre 2002 e 2004. A cidade onde o clube está sediado – com o mesmo nome – pertence ao cantão de St. Gallen, na região nordeste do país, e possui mais de 23 mil habitantes.

Com um orçamento de aproximadamente 10 milhões de euros, foram várias as figuras que chegaram ao clube no último verão, essencialmente, provenientes do futebol turco. Para a baliza, o Wil garantiu o empréstimo do alemão Patrick Drewes, número três da baliza do Wolfsburgo. Na defesa, para além do cabo-verdiano Guy Ramos, antigo capitão de equipa do Roda JC, o Wil contratou o lateral direito Ferhat Cokmus (quase 150 jogos no campeonato turco) e o experiente Egemen Korkmaz, nove vezes internacional pela Turquia, e que no seu país natal representou Bursaspor, Besiktas, Fenerbahçe e Trabzonspor – que lhe terá proposto um salário que ficou aquém do que actualmente recebe.

Para fortalecer o miolo, um grande nome do futebol turco (23 internacionalizações) e do Fenerbahçe em particular, equipa que Selçuk Sahin representou nos últimos 12 anos. No apoio ao ponta-de-lança, um antigo internacional brasileiro que também se notabilizou ao serviço do Fenerbahçe: André Santos, ex-Arsenal, agora numa posição que começou por experimentar na sua última aventura pela Índia. Para completar este elenco de luxo, Mert Nobre, ponta-de-lança com dupla nacionalidade – brasileira e turca – que apontou mais de 100 golos na superliga turca. Na última temporada, foi o segundo melhor marcador da segunda divisão turca, com a camisola do Kayserispor.

Todo este processo tem gerado algum cepticismo na massa adepta. Afinal, esta já não é a primeira vez que o Wil é alvo de investimento estrangeiro. Em 2003, o presidente do clube Andreas Hafen, foi acusado de desviar mais de 50 milhões de francos suíços do banco UBS, e 10 deles terão acabado nas contas do clube. Na sequência destes acontecimentos, o clube seria adquirido pela antiga glória do Dínamo Kiev e do futebol soviético Igor Belanov – futebolista europeu do ano em 1986.

Durante este período, marcado por diversas mudanças na equipa técnica, o Wil viveu alguns dos seus melhores momentos em termos desportivos. Na mesma temporada em que participou na Taça Intertoto, o Wil conquistaria a única taça do seu palmarés, o que lhe valeu o apuramento para a Taça UEFA na época seguinte. Mas o sonho foi curto com a descida de divisão e o clube à beira da falência.

O anterior presidente e actual vice-líder do Wil, Roger Bigger, foi o principal responsável pelo reerguer do clube, que nos últimos anos se destacou pelo lançamento de alguns jovens provenientes dos seus escalões de formação na equipa principal, nomeadamente, o internacional montenegrino Elsad Zverotic – recordista de internacionalizações – e o internacional suíço Fabian Schär, defesa central do Hoffenheim.

Comuns a outros novos-ricos do futebol europeu, têm sido os tumultos a envolver alguns dos seus dirigentes. Em Setembro, o director desportivo Erdal Keser – antigo jogador do Borussia Dortmund e do Galatasaray nos anos 80 – foi afastado do clube por alegadas divergências com a direcção. Em Outubro, seria a vez do técnico Fuat Capa ser demitido, depois de alcançar apenas quatro triunfos nas primeiras 12 jornadas do campeonato.

Com a equipa num modesto 4º lugar, a 6 pontos da liderança, o Wil confiou em Kevin Cooper para recolocar a equipa na luta pela promoção. Na época anterior, o técnico inglês de 41 anos conseguiria um segundo lugar com o Servette, antes de o clube ser despromovido na secretaria. Os resultados rapidamente melhoraram, mas a distância para o líder Lausanne mantinha-se. Em Janeiro, o Wil não olhou a meios e preparou um novo ataque ao mercado.

Depois de “roubar” o artilheiro da liga Jocelyn Roux ao Lausanne, os líderes da Challenge League viriam a público acusar o Wil de negociar à sua revelia os termos de contrato com outros dois dos seus jogadores, curiosamente, ambos de ascendência portuguesa: Olivier Custódio, médio de 21 anos, capitão de equipa e o melhor assistente do campeonato; e Elton Monteiro, central de 22 anos, antigo internacional português pelos Sub-21, que cumpriu grande parte da sua formação no Arsenal.

Juntamente com Roux, que viu o seu contrato quadruplicar, chegaram ao Wil a antiga promessa helvética Johan Vonlanthen (o mais jovem goleador dos Europeus), Marvin Spielmann, internacional sub-20 pela Suíça que terá custado 750 mil euros, e Noam Baumann, outro talento das balizas nacionais. No entanto, nada melhorou desde que a competição retomou após a paragem de inverno. A 6 jornadas do fim, o Wil mantém-se na segunda posição, mas agora a 13 pontos de distância do Lausanne. Só uma hecatombe poderá retirar o título à equipa orientada pelo antigo médio Fabio Celestini.

A questão que agora subsiste é até que ponto este grupo de investidores estará comprometido com o futuro do clube a médio e longo prazo. Abdullah Cila, o novo homem forte do Wil, garante que o projecto não está dependente da promoção no final da temporada, e até admite que já existem planos para a expansão do estádio do clube, a IGP Arena, que não reúne os requisitos necessários da primeira liga. Em cima da mesa, está também a construção de um novo centros de treinos com dois campos de futebol, uma piscina e 50 quartos para os jogadores. O futuro encarregar-se-á de demonstrar se assim acontecerá.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

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