De patinho feio a patrão da defesa

Em Setembro de 2014, o Benfica, campeão português, recebia o Zenit, tendo sido derrotado por 2-0. Do lado dos portugueses, era titular um central brasileiro que via nessa época que tinha acabado de começar a grande oportunidade da sua carreira para agarrar a titularidade numa grande equipa. Isto porque o vice-campeão do mundo Garay, que nessa noite foi mesmo adversário, tinha abandonado o clube da Luz. Mas, após este desaire, poucos acreditavam que este jogador teria longa vida no onze de Jorge Jesus, pedindo que a titularidade fosse dada a a um argentino que havia sido pré-convocado para o mundial. E era normal essa desconfiança. O defesa em causa, Jardel, havia feito 4 jogos a titular na I liga da época anterior...tantos quantos os realizados na II liga, ao serviço da equipa B, números que, a juntar a um nível exibicional longe do brilhante, davam razão aos que defendiam que ali não estava jogador para ser primeira opção no Benfica.

Mas no futebol tudo muda em pouco tempo, e Jardel provou como poucos esta ideia. Foi subindo de rendimento, ganhando confiança e justificando a aposta de Jorge Jesus, até que no dia 8 de Fevereiro de 2015, teve o seu primeiro grande momento de glória: no período de descontos do derby de Lisboa, o Sporting batia o Benfica por 1-0. Com aquele resultado, os leões ficavam, à vigésima jornada, a 4 pontos das águias, com o FC Porto pelo meio a 3 pontos dos encarnados. Mas, ao minuto 90+3, Jardel aproveita um ressalto dentro da área adversária para estabelecer um empate, num golo absolutamente crucial para a revalidação do título, talvez mesmo o mais mais importante do trigésimo quarto campeonato nacional do clube. Ao contrário do que toda a gente poderia pensar naquela noite de Setembro, Jardel consolidou mesmo um estatuto dentro do clube na época 2014/2015, agarrando com unhas e dentes a titularidade ao lado de Luisão.

Mas esta época representou um desafio ainda maior. Sem Jorge Jesus, o brasileiro viu-se privado, na pior altura da temporada, de Luisão, o parceiro de defesa e líder do balneário. Quer isto dizer que, numa fase em que tudo eram dúvidas na Luz, em que Rui Vitória parecia não ter arcaboiço para agarrar no legado de JJ, em que a equipa estava a 8 pontos da liderança, afastada da Taça e havia já perdido a Supertaça (tudo para a equipa orientada pelo ex-técnico), Jardel teve de assumir a liderança da defesa e, em parte, da equipa. E a resposta não podia ter sido mais satisfatória. Perante um contexto brutalmente exigente e adverso, tendo como parceiro um sueco que, apesar de se estar a revelar uma bela solução, não tinha experiência ao mais alto nível, Jardel disse presente. Juntou à velocidade que já o caracterizava uma precisão com bola que muitas vezes lhe faltou, aprimou o sentido posicional e passou a chegar a todas as dobras. É, por mérito próprio, o melhor central no conjunto das últimas 2 épocas em Portugal. Com Luisão nos 35 anos, veremos se não está aqui um símbolo para as próximas temporadas, uma referência dentro do clube, com braçadeira ou sem ela.

Pedro Barata

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