A equipa sem claque

Antes de chegar à alta roda do futebol nacional, um árbitro ultrapassa vários níveis de experiência. Primeiro nível: futebol distrital. Um juiz internacional, disse, a propósito da evolução de um árbitro, que “o mais difícil é passar pelos Campeonatos Distritais. Aí é que um árbitro é posto à prova e é feito o filtro aos mais capazes. Para chegar aqui passamos por situações inacreditáveis e só quem passa por esta aventura é que tem noção do que é ser árbitro de futebol”.

13h:45 - O jogo é às 15h. Chegam ao campo e param o carro junto ao portão. “Ninguém vem abrir o portão?”. Um dos árbitros tenta abrir. Está fechado... Bate uma, duas, três vezes e, após alguns minutos de espera, o porteiro decide dar as boas-vindas à equipa de arbitragem.
Colocando-me na posição do Delegado da equipa visitada, diria que apesar de não ser uma obrigação, devia ser habitual receber convenientemente a equipa de arbitragem e o autocarro da equipa visitante. O porteiro, muitas vezes embriagado e/ou sem condições motoras para desempenhar a função, mal consegue acompanhar a equipa de arbitragem ou indicar o local de estacionamento.
Por que motivo no Futebol não há respeito pelos agentes desportivos que visitam uma “casa” desconhecida, se na nossa casa também recebemos os convidados à porta?

13:50 - Os árbitros dirigem-se para a sua cabine.
Passando por alguns adeptos, os primeiros insultos: “olha-me estes...um com idade para ser meu pai, outro para ser meu filho e um gordo. Com estes palhaços vai ser bonito, vai”.

14:00 - Dar uma volta pelo relvado. Inspeccionar balizas, verificar as medidas do terreno de jogo e garantir as condições de segurança.
Balizas com redes furadas já não são um problema, são uma rotina. Não é algo que não se resolva com umas braçadeiras de plástico ou uns nós mais fortes. O problema é quando uma observação a olho nu permite ver que as marcações das linhas no terreno de jogo estão tortas ou desenhadas na diagonal. “Oh shôr árbitro, desculpe lá mas o gajo que faz as marcações está sempre bêbado! Os seus colegas não costumam levantar problemas por causa disto...”.
Após alguns minutos em que os árbitros tentam explicar a impossibilidade de fazer um jogo com marcações tortas, o Delegado da equipa visitada, após acusar a equipa de arbitragem de intolerância e excesso de zelo, diz que vai remediar a situação.

14:15 - São recebidos, à vez, na cabine dos árbitros, os Delegados das duas equipas.
Na ficha de jogo da equipa visitada está inscrito, como treinador, um elemento do qual não é apresentado o cartão que o habilita para a função. Questionado acerca deste lapso, o Delegado refere que o treinador está doente e não pode comparecer. Pede ao árbitro que deixe mantê-lo inscrito, dado tratar-se de um treinador estagiário que precisa de um determinado número de jogos para concluir o seu estágio. O árbitro, fazendo cumprir o regulamento, rejeita o pedido e justifica a sua decisão: “Não posso permiti-lo, porque autorizar esta situação pode trazer um problema grave: imagine que esse treinador comete um crime, tem um acidente ou está envolvido nalguma situação complicada durante a hora do jogo. Para a posterior investigação policial, esta ficha de jogo comprova que o indivíduo em causa esteve presente neste campo, ilibando-o da acusações ás quais possa estar sujeito. É evidente que se trata de um exemplo extremo, mas nós não podemos atestar que ele está aqui presente, até para própria defesa desse senhor”. Perante a justificação, o Delegado inicia um rol de insultos inapropriados. As forças policiais, há já uns minutos junto à cabine, usam a força para tirar o Delegado daquela zona. Segundos depois, um dos polícias regressa à cabine dos árbitros: “Ouvi o Delegado dizer a outro elemento técnico que aquele treinador estagiário com “problemas de saúde” está presente e inscrito noutro jogo como treinador de uma equipa de outro escalão do mesmo clube”. (a ideia era ludibriar os árbitros para que o estagiário pudesse somar dois jogos no currículo, apesar de só estar presente num deles).

14:30 - O aquecimento.
“Ai tão lindos, todos coordenadinhos a fazer o mesmo exercício. Daqui a bocado estes maricas vão dançar o tango”.
Analisar a postura das pessoas no futebol merece uma dissertação de mestrado. Para estas pessoas, o insulto não é uma manifestação de desagrado perante uma decisão do árbitro, é um ritual de “boas-vindas”. As pessoas nutrem verdadeiro ódio pela figura do árbitro. Para estes adeptos, aquele indivíduo deslocou-se àquela vila ou freguesia de Portugal para prejudicar, deliberadamente, a sua equipa. É perturbador, e não é raro, vermos pessoas com crianças ao colo, a disparar insultos brejeiros e agressivos, “oferecendo pancada” para depois do jogo e a descarregar o stress de uma semana de trabalho. Os exemplos dados aos mais jovens são deploráveis e não é por acaso que o célebre programa “Liga dos Últimos” mostrava, semanalmente, autênticas “pérolas” de humor, por um lado, e maus exemplos, por outro.

14:53 - A identificação dos atletas.
O árbitro identifica os jogadores. Um treinador chama a atenção do árbitro para um jogador adversário que reentrou na cabine depois de ser identificado (para evitar trocas de jogadores, o regulamento estipula que nenhum atleta, após a identificação, reentre na cabine). Perante esta situação, o árbitro identifica visualmente o jogador em causa e garante que é o mesmo que identificou há poucos segundos, escusando-se a repetir todo o processo de identificação da equipa e atrasar o início do jogo por causa de um atleta que foi apenas buscar uma caneleira. O bom senso do árbitro justifica a raiva do treinador, que o acusa de já estar a beneficiar uma das equipas. Caso o árbitro repetisse a identificação dos atletas, seria, certamente, acusado de excesso de rigor e de “andar com o livro dos regulamentos debaixo do braço”.
Chegado a um campo de futebol, mesmo antes de dar início ao jogo, um árbitro já está a “roubar”.

15:00 - O jogo.
Dentro do jogo, os episódios que qualquer árbitro tem para contar tende para infinito. Inúmeros insultos, alguns originais e com humor. Este texto poderia ser escrito apenas com exemplos, contados pelos árbitros, de episódios passados no campo (fica para outro dia).
Lá dentro, o comportamento dos jogadores varia conforme a idade. Por estranho que pareça, os seniores não são os mais complicados. Os seniores dos distritais, adultos, muitos deles mais velhos do que os próprios árbitros, têm uma característica que ajuda os “homens do apito”: treinam à noite, dois ou três dias por semana, depois de um dia de trabalho. Abdicam de tempo em família para estarem em forma e recebem salários, na maioria dos casos, irrisórios (isto quando chegam a receber). Jogam futebol por prazer e fazem sacrifícios profissionais e familiares para poder jogar futebol. Este esforço faz com que, durante o jogo, de um modo geral, estejam mais preocupados em desfrutar do futebol do que em reclamar com os árbitros.
Por contraponto, sobretudo nos juvenis e nos juniores, os jovens estão no pico da adolescência, com “sangue na guelra”, tendo mais vontade de mostrar virilidade, força e esperteza, do que mostrar as habilidades futebolísticas. Muitos árbitros dizem que expulsam mais atletas nestes escalões do que no futebol sénior e que, nestes escalões, as expulsões são mais vezes provocadas por protestos, faltas de respeito e condutas antidesportivas, do que por faltas e incorrecções provocadas por situações de jogo.
Não é injusto dizer que estes jovens são incitados pelos próprios pais a insultar e provocar os adversários (para estes pais e jovens, o conceito de adversário engloba também a equipa de arbitragem). São muitas as situações em que os pais, para além dos insultos em nome próprio, gritam para o relvado coisas como “O gajo deu-te uma paulada, dá-lhe também!” ou “Manda o árbitro p’ó car****, nem falta foi”.
Para além dos pais, é lamentável que os próprios treinadores incitem os jovens jogadores a queimar tempo de jogo, simular lesões e “sacar faltas”. Estamos a falar de jovens que gostam de jogar à bola, mas que passam os jogos a pedir faltas em cada toque mais viril e a pedir assistência médica em cada queda que dão. É perturbador ouvir treinadores dizer a alguns atletas mais “honestos” coisas como: “Atira-te para o chão e pede assistência”, “Não vás buscar a bola a correr, deixa passar o tempo” ou “Querem ir longe a serem “anjinhos”?”

16:45 - Termina a partida. Os árbitros cumprimentam os atletas e elementos técnicos que se mostram disponíveis para tal.
Depois do jogo, os insultos multiplicam-se, sobretudo pelos adeptos da equipa menos satisfeita com o resultado. Nada demasiado incomodativo para qualquer árbitro com uns meses de experiência. A saída do campo torna-se complicada quando os insultos passam a arremessos de objectos ou cuspidelas. Em alguns campos, já é tradicional a equipa de arbitragem permanecer alguns minutos no centro do terreno de jogo até os ânimos acalmarem e, só depois, ir para a cabine, acompanhada das forças policiais.
Tudo isto sem poder responder a qualquer dos insultos disparados da bancada.

17:00 - Preenchidas as fichas de jogo, os árbitros voltam a receber os Delegados.
Nesta segunda reunião, os Delegados pedem explicações sobre decisões dos árbitros, evocam leis de jogo inexistentes e discutem questões regulamentares acerca das quais, lamentavelmente, não têm conhecimento. Algumas vezes, esta reunião acaba com a polícia dentro do balneário do árbitro a tentar acalmar a agressividade física e verbal dos delegados. Alguns deles recusam-se a assinar as fichas de jogo e outros, convictos da incompetência dos árbitros, tentam legitimar a sua posição pedindo acesso ao relatório do árbitro para redigir um protesto ao jogo. Nada de errado, é um direito que lhes assiste. Curioso é que a maioria dos protestos efectivados pelos clubes só sirvam para que percam dinheiro - que já não é muito - e não têm qualquer efeito prático.

17:45 - O regresso a casa.
O percurso do balneário até ao carro nem sempre é pacífico. O jogo já terminou há quase uma hora, mas muitos atletas e adeptos ficam no campo mais uns minutos para terem a oportunidade de disparar mais três, quatro ou vinte insultos. Por vezes, a polícia tem de escoltar os árbitros, embora seja uma situação pouco habitual. Muitos atletas e elementos técnicos são considerados expulsos nesta altura por protestos e insultos, apesar de, provavelmente, muitos deles não saberem que ainda podem ser considerados expulsos depois do jogo.

Os árbitros ocupam o seu fim-de-semana com viagens até campos de futebol para serem gozados, insultados, ameaçados e, por vezes, agredidos.

Há poucos dias, um comentador dizia: “Costumo ir ver os jogos do meu filho de oito anos e vejo o que se passa lá. Como é possível algum jovem querer ser árbitro de futebol?
Para além do dinheiro que recebem, muitos árbitros falam do “bichinho” da arbitragem. É uma tarefa fascinante, embora complicada, inglória e, por vezes, perigosa.

Este relato é um cenário extremo e, felizmente, os episódios relatados não acontecem todas as semanas, nem em todos os campos.
Existem atletas, jovens ou adultos, que valorizam o Futebol e mostram qualidades humanas irrepreensíveis. Para estes, o Futebol é um prazer, não é uma Guerra. Muitos agentes desportivos valorizam o Desporto com a sua atitude exemplar dentro e fora do campo e saem do campo e da cabine do árbitro elogiando as boas decisões, relativizando os erros e dando os parabéns à equipa de arbitragem, qualquer que tenha sido o resultado do jogo.

É pena que, tantas vezes e em tantos campos, o “futebol real” seja uma luta contra a "equipa sem claque".

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Diogo Oliveira

Etiquetas: