Renascido das Cinzas

10 de Junho de 2013. Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, de Luís de Camões e da apresentação de Paulo Fonseca no FC Porto. O técnico, natural de Nampula, abraçara o seu primeiro grande desafio na carreira, depois de passagens bem sucedidas por Pinhalnovense, Desportivo das Aves e Paços de Ferreira, clube que colocara no terceiro lugar da Liga e, consequentemente, no play-off de acesso à Liga dos Campeões. Um feito notável, talvez irrepetível por aqueles lados, sendo que o modelo de jogo dos pacenses impressionava pela consistência e pela qualidade exibicional. Deste modo, muitos lhe vaticinaram um futuro brilhante, ao nível de André Villas-Boas ou José Mourinho, mas a experiência no Dragão não correu bem. O FC Porto apresentou um plantel com menos qualidade do que era habitual e o treinador luso-moçambicano revelou-se algo inexperiente nestas andanças, não conseguindo bater-se com os maiores rivais dos dragões. A Supertaça ficará para sempre no currículo, mas Fonseca sabia que isso não chegava e, como tal, a sua saída, a 5 de Março de 2014, dia em que celebrara 41 anos curiosamente, acabou por não surpreender ninguém. No entanto, o jovem técnico não se rendeu e, num acto pouco habitual por cá, teve a humildade de, na época seguinte, regressar à casa onde foi feliz. A Capital do Móvel recebia-o de braços abertos novamente, afinal era o herói de muitos naquele clube. Na verdade, não era fácil repetir o mesmo feito da primeira passagem, mas a época acabou por voltar a ser extremamente positiva, embora o acesso à Europa tenha sido perdido na última ronda do campeonato. Todavia, Portugal continuava atento ao seu trabalho e António Salvador, algo frustrado com a derrota na final da Taça, despediu Sérgio Conceição e apostou em Paulo Fonseca, na esperança de regressar aos dias mais felizes da história do clube bracarense.

Deste modo, Paulo Fonseca, qual fénix da mitologia grega, encontrava-se assim renascido, pronto para demonstrar, neste 2º round, toda a sua competência. Na altura do arranque da Liga, o plantel dos minhotos parecia manifestamente insuficiente para as ambições do clube, numa temporada marcada pelo regresso dos palcos europeus. No entanto, Paulo Fonseca tratou de desmistificar essa situação e construiu um modelo de jogo sólido, atractivo e eficaz, ao ponto de continuar com os seus pupilos em quatro competições. Na verdade, trata-se de alguém que percebe perfeitamente todos os momentos do jogo e que é muito competente na organização ofensiva, sendo que por aqui também se explicam os 72 golos marcados em todas as provas. Já defensivamente, tem o mérito de ter perdido Aderlan Santos com a época em andamento e de isso não se ter notado de forma evidente, bem como no facto de contar apenas com 30 golos sofridos em 2015/16. Por fim, é notória a valorização de diversos activos. Nikola Stojiljković chegou como um desconhecido e leva 12 golos na temporada; Vukčevic, após dois anos encostado, o veterano Alan e Marcelo Goiano ganharam outra vida; Kritciuk agarrou a titularidade e revelou-se um dos três melhores guarda-redes da 1ª volta (senão mesmo o melhor), tendo sido transferido por quatro milhões em Janeiro; Luiz Carlos encontrou-se com o seu melhor amigo; Rafa e Pedro Santos ganharam outra dimensão, sendo inclusive hipóteses ponderadas para a fase final do Europeu; e, por fim, os jovens Boly e Ricardo Ferreira, habitual suplente na Mata Real na época passada, têm rubricado excelentes exibições no eixo defensivo. Além destes, há ainda Baiano, Matheus, Mauro, Djavan, Hassan, Rui Fonte, Crislan ou Wilson Eduardo, numa rotatividade muito bem efectuada pelo treinador dos gverreiros e que tem proporcionado à equipa apresentar-se competitiva em todas as partidas. 

No fundo, o saldo pontual, na Liga, em relação à temporada transacta difere apenas (positivamente) num ponto, estando o passaporte para o Jamor novamente carimbado, mas poucos duvidam da melhoria deste Sp. Braga em relação a anos anteriores, sendo provavelmente o conjunto que melhor futebol pratica no nosso campeonato. Além disso, há a somar a presença na meia-final da Taça da Liga e nos oitavos-de-final da Liga Europa, algo que permite aos adeptos voltarem a experienciar o sal das noites europeias. Após o último suspiro, esta poderá ser a temporada em que o Sp. Braga jogou muito, mas nada ganhou, ou poderá ficar na história como uma das melhores de sempre do clube minhoto.

De qualquer forma, a marca Paulo Fonseca estará sempre bem vincada e, por isso, urge perguntar qual será o passo seguinte. Alguns já o apelidam de melhor técnico do futebol português e parece consensual que é o mais forte candidato a entrar num dos três grandes. A porta do Dragão ficou semi-aberta (Pinto da Costa foi contra à sua saída), mas quem sabe se não teremos Fonseca em Lisboa na próxima época. Uma coisa é certa, o técnico do Sp. Braga parece possuir a força e a imortalidade da célebre fénix lendária, restando saber se também continuará a ser venerado por todos e se as suas ideias, tal como lágrimas, continuarão a produzir efeito. 

Rodrigo Ferreira

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