O dinheiro não traz felicidade

No final da época de 1978/1979, em pleno Vicente Caldéron em Madrid, o astro argentino Mário Kempes vulgarizava o Real Madrid, marcando dois golos na final da Copa del Rey, o último deles em plena grande área com a defesa merengue prostrada no chão a ver o argentino disparar para o fundo das redes e dar a Copa à equipa Ché.

Mário “El Matador” Kempes, um dos grandes ídolos da afición ché, como já tinham sido os integrantes da denominada “Dianteira Eléctrica” (ou o equivalente valenciano aos 5 Violinos do Sporting) composta por Gorostiza, Amedeo, Asensi, Epi e Mundo, na década de 40 em pleno regime franquista, altura em que o Valência se ergueu e começou a conquistar importantes títulos, mesmo contra todo o poderio político e desportivo da Grande Dama Blanca da altura.

Kempes que viria a ser novamente instrumental na conquista da Taça das Taças de 1980 frente ao Arsenal, viria também a ser o rosto da mudança.

Com a Espanha a organizar o Mundial de 1982, o Estádio Mestalla necessitou de ser renovado e com isto o Valência entraria numa década negra da sua história, profundamente endividado e sem as suas principais referências em campo. (Kempes viria a ser vendido de volta para a Argentina chegando ao River Plate, e outros ídolos da altura como o alemão Bonhof e o espanhol Saura rumariam também a outras paragens).

Curiosamente a história viria a repetir-se décadas mais tarde…

No final dos anos 90, o Valência ressurgiria em grande estilo e mostrando uma força interna e a nível internacional de fazer inveja.
Primeiro com Claúdio Ranieri, que muitos talvez surpresos com o recente sucesso da Cinderela de Leicester, se esqueçam que foi o italiano a plantar as sementes do que viria a ser uma máquina de futebol valenciana, e a lançar nomes como Canizares, Angloma, Mendieta, Farinós ou Claúdio Lopez.

Com esta equipa Ranieri conquistava nova Copa do Rey derrotando o Atlético. Viria a ser substituído por um dos profetas do futebol defensivo, Héctor Cúper que contudo transformaria aquela equipa de Ranieri numa verdadeira máquina de combate.

Na época seguinte o Valência chegaria mesmo à final da Champions, perdendo apenas nos penalties frente ao Bayern. Dos jogadores deixados por Ranieri, Cuper acrescentou-lhe o talento argentino de nomes como Pablo Aimar, Kily Gonzalez ou o intratável Roberto Ayala.

Seria contudo outro mal amado, na altura um quase desconhecido Rafa Benitez, que devolveria toda a glória ao Valência, com a conquista da Liga Espanhola sem apelo nem agravo para os habituais candidatos.

O Valência de Benitez voltava a ser grande dentro e fora de portas, com uma estrutura sólida e uma equipa cheia de referências no balneário que para além dos nomes já citados, contava ainda com os míticos valencianos Albelda, Angulo e Baraja.

Mas como a história tem tendência a repetir-se, o Presidente da altura do clube ché (Soler), anestesiado com o êxito desportivo quis morder um osso maior do que própria boca, e a excessiva ambição de grandeza, novamente através de um Novo Mestalla, levaria o clube ché novamente à beira do caos financeiro.
De nada valeram vendas de grande nível como com David Villa ou David Silva, porque o Novo Mestalla, tal como em 82 levaria o Valência a ter que renascer de novo, financeira e desportivamente.

Essa salvação veio de onde menos se esperava…

Peter Lim, multimilionário de Singapura que subiu a pulso, trazia à corte valenciana um cheque sem fundos para investir e a promessa da salvação eterna e da glória desportiva.

Qual D. Quixote de Cervantes, Peter Lim montado no seu cavalo Rocinante e na companhia do seu fiel amigo o pragmático Jorge Mendes, ou Sancho Pança, tomaram de assalto Valência. Mas se financeiramente o conto parecia uma realidade, desportivamente cedo se percebeu que o clube ché teria que lutar contra imensos moinhos para estabilizar o seu projecto.

O cheque foi gordo e com isto chegaram ao Mestalla, nomes como Rodrigo, Enzo Perez, Negredo, Mustafi, André Gomes e outros que em teoria fariam uma equipa com imenso potencial quer no futuro quer no imediato.
Agradeceu o Benfica por exemplo, que viu no idealismo de D. Quixote uma forma pragmática de ganhar dinheiro, tendo na conexão Mendes-Lim um cliente de luxo que deixou nos cofres encarnados 75M/€ mais algumas mais valias futuras.

O Sancho Pança português também saiu a ganhar já que foi colocando em Valência inúmeros nomes da sua confiança/carteira de clientes, a começar pelo ilustre desconhecido treinador Nuno Espírito Santo cujo único trabalho até à data tinha sido uma excelente época com o Rio Ave, e a continuar com a entrada de inúmeros jogadores seus.

Do Benfica a Braga e a Vila do Conde, passando pela Bélgica e pelo Mónaco o Valência e o sonho encantado de D.Quixote comprava tudo o que o pragmático Sancho Pança aconselhava.

Nuno até conseguiu surpreender os mais incautos, colocando o Valencia a espaços a jogar bom futebol e obtendo in extremis a qualificação para a Champions (o objectivo mínimo). Depois dos 3 grandes espanhóis, Nuno tinha apenas que ganhar o mini campeonato com Sevilla, Athletic e Villarreal para ter o mínimo de reconhecimento. E assim foi.

Mas no início desta temporada os males que já vinham de trás fizeram-se sentir mais ainda.

Nuno que nunca mostrou propriamente habilidade para lidar com o ego de um plantel recheado de craques e ainda para mais sendo um português em Espanha, já saberia que mais cedo ou mais tarde aos primeiros desaires a ele seriam imputadas todas as culpas (erradamente) de um falhado projecto desportivo. Mendes deixou cair o seu treinador e foi passo a passo saindo de cena, numa altura em que a afición ché já tinha percebido o conto do vigário em que tinham entrado.

Os nomes fortes da oposição valenciana entraram em campo e Peter Lim foi obrigado a descer do seu cavalo e a assumir as rédeas da fábula que ele próprio tinha escrito.

Mas como o dinheiro não traz felicidade, Lim cedo percebeu que não poderia ser ele a guiar o barco, e não podendo encostar-se no seu amigo de sempre, tratou de se encostar em amigos mais antigos…

O micro clube inglês Salford, onde Peter Lim tinha investido para ajudar os seus amigos ingleses Nicky Butt, Paul Scholes, Ryan Giggs, e …os irmãos Neville, tornou-se o epicentro de uma micro revolução interna que traria primeiro Phil Neville para minar o caminho aos mal amados portugueses, e mais tarde traria para técnico principal o amigo de longa data Gary Neville, o comentador televisivo mais apreciado pelos britânicos, mas com zero experiência nos bancos.

Para Lim, a salvação viria em formato de mais um cheque e através das conexões britânicas que sempre teve (ele um adepto mais ou menos confesso do Manchester United), mas o dinheiro não conseguiu comprar um projecto desportivo, e cedo se percebeu que como nos filmes o Valencia viria a tornar-se num “Paciente Inglês”…

O paciente definhou rapidamente, bem como a equipa.
Sem estar a fazer um campeonato brilhante, muito longe disso, o Valência de Nuno respirava em várias competições e ia mantendo à semelhança da época transacta, as suas aspirações mais ou menos intactas.
A companhia britânica conseguiu em 4 meses aniquilar as aspirações desportivas da turma ché, e Neville regressa a Inglaterra apenas com a certeza que o seu lugar nas boxes de comentários da Sky permanecerá intacto para gaudio dos seus seguidores e também de Jamie Carragher.

Agora que se percebe que a história voltará novamente a repetir-se, a ausência do Valência das competições europeias levará ao êxodo de muitas das suas referências em campo Mustafi, Gayá, André Gomes, Feghouli, Alcácer e Negredo poderão ter que sair, porque os jogadores com mercado não se compadecem dos insucessos desportivos.

O senhor que se segue é o eterno adjunto Paco Ayestarán, curiosamente também com ligações a Inglaterra via Rafa Benitez e Quique Flores (com quem também partilhou o balneário no Benfica). Como técnico principal conta no currículo com duas passagens efémeras e sem sucesso no México primeiro no Estudiantes Tecos e depois no Santos Laguna previamente orientado por Pedro Caixinha, e de permeio a conquista da tripla em Israel ao serviço do quase incontestado Maccabi Tel Aviv.

A Paco o que se pede é que faça a gestão de danos na equipa valenciana até ao final da temporada, efectuando a transição para uma nova aposta forte.

Aposta essa que poderá passar por Pellegrini, técnico cuja reputação fala por si e cujo futebol atractivo é a sua imagem de marca, que para além do mais tem experiência em lidar com balneários recheados de ego (a Guardiolização precoce do City matou cedo o chileno), do Chile poderá chegar Sampaoli cujo perfil guerreiro e lírico poderia combinar bem com os ché, e dentro de portas os nomes que mais se falam são os do profundo sonhador Paco Jémez e do cada vez mais cotado Berizzo.

O Valência mais do que de um treinador, e mais do que de mais vedetas em campo, precisa de um projecto desportivo alicerçado em gente sabedora e que goste efectivamente do clube.

Enquanto o Novo Mestalla se ergue, quanto mais cedo se perceber em Valência que a verdadeira grandeza de um clube está nas suas gentes e naquilo que uma equipa consegue produzir dentro de campo e não o quão grande é o extracto bancário do seu Presidente, mais cedo do que mais tarde os ché conseguirão desafiar os grandes espanhóis tal como Kempes e companhia o fizeram em 79.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Flávio Trindade

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