Não há fome que não dê em fartura

Ano zero: o Sporting de Leonardo Jardim arranca com uma dupla de centrais formada por Maurício e Rojo. Forte no jogo aéreo, com destaque nas bolas paradas ofensivas, a dupla tem no argentino a principal figura, sendo que o brasileiro mostra-se competente o suficiente num enquadramento em que os leões jogavam exclusivamente no plano interno.

Ano um: Rojo sai para Manchester, sendo que Maurício tem no francês Sarr o primeiro parceiro. A subida de patamar de exigência mostra as já perceptíveis lacunas do brasileiro quando frente a frente com avançados mais completos, lacunas essas ainda potenciadas pela completa falta de qualidade do colega à esquerda. Paulo Oliveira cedo se tornou opção, melhorando o momento defensivo, mas não colmatando a dificuldade do último reduto em construir jogo a partir de trás. A chegada de Ewerton (entretanto Maurício saíra, e Sarr fora encostado) trouxe melhorias neste aspecto, mas as dúvidas quanto à sua durabilidade nunca foram dissipadas.

Ano dois (Ano I DJ): com Ewerton no estaleiro, Jesus aposta em Paulo Oliveira e na velocidade de Naldo. A aquisição falhada de Ciani deu a entender que o treinador queria acrescentar peso e centímetros, e os primeiros jogos indicam dificuldades em lidar com avançados rápidos e em sair com bola jogável a partir de trás. Os rumores da necessidade de um patrão intensificam-se, não obstante o Sporting ser a defesa menos batida da competição (muito também graças a Patrício, mas é para isso que ele lá está), e eis que no mercado de Inverno aterram em Alvalade Sebastian Coates, e Ruben Semedo (este não aterrou, bastou-lhe apanhar a A2).

Se o uruguaio vinha para se assumir como titular indiscutível, já o ex-Vitória de Setúbal era dado como uma alternativa a William Carvalho, até porque foi testado na posição da pré-temporada. No entanto, formam hoje a dupla titular de centrais, algo que não deve mudar até ao final do ano, salvo imponderáveis. Os dois jogadores simbolizam o central moderno, e tudo aquilo que encaixa no modelo de Jorge Jesus. Têm as ferramentas físicas necessárias (são ambos altos e corpulentos, rápidos e com boa impulsão), aliando a isso uma técnica individual acima da média para jogadores naquela posição. Hoje, é mais rara a utilização do passe longo sem critério (se bem que ambos conseguem colocar a bola à distância), o vulgo "chutão", qualquer um dos dois consegue sair em progressão, ou fazer passes curtos ou médios para a a frente. A sua juventude faz deles duas apostas de futuro (embora Coates esteja a prazo, dependendo da activação de uma opção de compra onerosa), parecendo à primeira vista que o futuro do centro da linha defensiva está assegurado.

Mesmo considerando que Coates levanta questões ao nível das lesões, e que Semedo levanta interrogações ao nível da mentalidade, parece indiscutível que ambos merecem total confiança para a temporada que se avizinha. E há muito, muito tempo, que o Sporting não atacava uma temporada com uma dupla de centrais indiscutível, e cuja qualidade ou qualidades não fossem questionadas. Quiçá desde os anos de André Cruz e Phill Babb que não se respirava tanta tranquilidade lá atrás, pois embora tenham passado bons centrais por Alvalade (como a primeira versão de Polga), ou faltou sempre um parceiro a condizer, ou estava sempre em falta uma qualquer característica: os jogadores bons de cabeça eram lentos, os rápidos eram maus no jogo aéreo. E depois havia aqueles que eram maus em todos os aspectos.

Como todas as moedas têm duas faces, o lado mau deste problema é que o Sporting passa da fome à fartura, e como todos sabem, o excesso também é prejudicial. Com esta dupla estabelecida para o futuro próximo, é preciso saber o que fazer a todos os outros centrais que o clube foi acumulando nos últimos tempos. Naldo já mostrou ser uma boa opção, e neste momento parece ser o terceiro da hierarquia, mas depois há muita gente em lista de espera. Um clube com finanças depauperadas como o Sporting não pode ter "parados" jogadores, ou activos, como Paulo Oliveira, Ewerton ou mesmo Tobias. Se ao último parece estar destinado um empréstimo (dizem que o Sado faz bem aos leões), Oliveira e Ewerton não podem nem devem ocupar o lugar de quarto central. Dirão alguns que este ano provou que quatro centrais podem não chegar, mas a realidade é que esta temporada é uma excepção e não a regra, e que a filosofia de 3 +1 continua a ser aquela que mais sentido faz. Assim sendo, não faz muito sentido manter jogadores como Oliveira e Ewerton num cenário de contínua desvalorização. O português, que até entrou nas conversações acerca do Euro-2016, tem todo o direito de "exigir" muitos minutos, mas se tudo correr conforme a lógica, em Alvalade não os terá, daí que uma venda no Verão faça todo o sentido. Quanto a Ewerton, em condições normais até poderia rodar entre o papel de titular e terceira opção, mas já deu para se perceber que não é um jogador confiável do ponto de vista das lesões, pelo que uma transferência seria a melhor solução.

Ainda mais considerando que o Sporting tem outras posições carenciadas, nomeadamente a lateral direita, para as quais necessita de investir, faz todo o sentido vender "excedentes" da posição no terreno que está mais e melhor apetrechada.

PS: se Portugal fosse um país diferente, seria quiçá possível uma troca de jogadores entre Sporting e Benfica ou Porto (sim, já aconteceu, mas foi uma gota num oceano). Ou mesmo uma venda. Faria sentido Paulo Oliveira ou Ewerton num dos rivais?

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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