Escrito nas Estrelas

Ninguém quer deixar de alimentar o sonho. Por mais que passem as semanas, aquilo que se iniciou como a maior das ilusões encaminha-se para se tornar na mais épica realidade, como se de um conto de fadas escrito por forças superiores se tratasse. O regresso à competição após paragem para Taça apenas serviu para o Leicester, a equipa que todos querem campeão, cimentar a liderança. E tal como a última semana, este percurso dos Foxes bem pode ser definido numa palavra - oportunismo. Numa época em que qualquer um dos clubes mais credenciados encontra-se a milhas da máxima forma, é louvável que um conjunto de figuras pouco mediáticas se chegue à frente e apresente uma proposta de jogo concreta e de forma consistente, superiorizando-se a toda a concorrência. O estilo pode não agradar a todos mas quando a eficácia dos processos é tão clara, qualquer contra-argumento estético perde o seu efeito. Curiosamente, ou talvez não, há paralelismos que se podem traçar entre os Foxes e o último campeão inglês. Para além disso, as últimas duas partidas - receção ao West Brom (2-2) e visita a Watford (0-1) - provaram que os pupilos de Ranieri são capazes de criar oportunidades e igualmente diante de emblemas que lhes ofereçam a iniciativa, não estando presos a este ou àquele modelo. Não obstante os deuses do futebol que se mostraram ao seu lado no jogo menos conseguido da temporada, diante do Norwich, com um triunfo conseguido apenas ao caír do pano (1-0).

Um sobem e os outros caem em catadupa. Tottenham, Arsenal e Manchester City falharam a aproximação ao topo e vão contribuindo para a Epopeia Leicesteriana - os própios adeptos dos clubes, até já assumem satisfação caso o inusitado aconteça. Os Spurs, mesmo espalhando classe, acusaram a inexperiência e arrecadaram apenas um ponto dos derbies londrinos (ante West Ham e Arsenal, 1-0 e 2-2 respetivamente). Os Gunners, apesar de serem o único conjunto a sobressaír-se no confronto direto com os líderes e ocupando o primeiro lugar no mini-campeonato do Top 8, não param de vacilar em locais proíbidos (na visita a um "Manchester United B" e em casa frente ao Swansea, 3-2 e 1-2 respetivamente). Finalmente os Citizens, a maior das desilusões de entre os quatro candidatos, que mesmo sentindo poucas dificudades em casa perante equipas de menor valia (4-0 ao Villa), demonstram pouca capacidade de superar as adversidades diante de turmas próximas ao seu nível, bem como a atuarem longe do Etihad (derrota por 3-0 em Anfield, dias depois de conquistar a Taça da Liga, ao bater o mesmo Liverpool). No meio de tanta confusão, que em certas alturas alcança tons de monumental mediocricidade, o West Ham é outro dos emblemas a emergir de forma categórica. Bilić desde o início assumiu uma postura altamente ofensiva, independentemente do adversário, e começa a colher os frutos, resultado também da consistência alcançada neste novo ano. A reviravolta em Goodison Park (2-3) espelha todo o talento e espírito de equipa dos Hammers que se aproximam a passos largos dos lugares de Champions. O técnico croata recusa o rótulo de candidato a essa posição, mas não há como evitar o pensamento no quão mágico seria ver a prova rainha do futebol europeu, no mesmo ano, ir ao King Power, a White Hart Lane e ao Olímpico de Londres - a nova casa do West Ham.

Noutro âmbito, e numa altura em que se estabelecem posições para o sprint final, quatro clubes encontram-se na corda bamba - Sunderland, Newcastle, Norwich e Villa - e apenas um alcançará a salvação - Bournemouth (2-0 ao Southampton e 1-3 em St. James Park) e Swansea (1-2 no Emirates e 1-0 as Canarios) respiram melhor. Ao passo que os Villlans, um autêntico terror tanto a defender como a atacar (2-9 só nos últimos três jogos), precisam de um milagre para se manter entre os grandes, os Black Cats (2-2 e 1-1, frente a Palace e Southampton respetivamente) evidenciam claras melhorias e mostram-se hoje muito mais coesos do que há meses atrás. No entanto, o grande destaque, mesmo que negativo, vai para a péssima campanha dos Magpies (10 derrotas nos últimos 13 encontros), clube que conta com um dos plantéis mais bem apetrechados do campeonato mas com um treinador que não se encontra ao nível desse potencial. Mais acima, a piscar o olho à Europa - a sétima posição pode dar esse acesso, consoante o vencedor da FA Cup - está um conjunto de equipas e decifrar qual delas conseguirá o passaporte é altamente imprevisível, até porque cada um dos percursos tem sido rico em altos e baixos. De qualquer das formas, e atendendo aos acontecimentos recentes, convém mencionar Liverpool (3-0 ao City e 1-2 ao Palace), Chelsea (1-2 em Norwich e 1-1 em casa frente ao Stoke) e West Brom (2-2 em Leicester e 1-0 ao Manchester United), que juntando excelentes exibições a ótimos resultados, passam pela sua melhor fase na época.

Onze Ideal das Jornadas 28 e 29 da Premier League: Butland (Stoke); Flanagan (Liverpool); Wiliams (Swansea); Ogbonna (West Ham); Daniels (Bournemouth); Fletcher (West Brom); Lallana (Liverpool); Ritchie (Bournemouth); Mahrez (Leicester); Antonio (West Ham) e Rondón (West Brom).
MVP: Antonio (West Ham). Numa altura em que facilmente se confunde o sucesso do West Ham com o alto rendimento de Payet, convém destacar esta arma secreta de Bilić. Em evidência sobretudo neste ano de 2016, o ex-Nottingham Forest, mesmo não possuindo a técnica do francês, tem sido o grande dínamo dos Hammers nas últimas partidas, faturando inclusive há três jogos consecutivos.
Jogador a Seguir: Rashford (Manchester United). Depois do primeiro impacto - 4 golos em 4 dias -, Van Gaal não temeu em dar a titularidade àquela que parece ser a Next Big Thing do futebol inglês nos encontros seguintes. Apesar de não ter voltado a marcar desde o bis ao Arsenal, o jovem continua a transparecer os seus dotes, sobretudo no capítulo técnico. Parece óbvio que estamos à frente de uma mina de ouro, mas nestes casos tão importante quanto o talento do jogador é a forma como este é potenciado e integrado na equipa pelo treinador, pelo que tanto o timoneiro holandês como os que se seguirem desempenharão um papel fundamental no seu crescimento.
Treinador da Semana: Slaven Bilić
A Desilusão: Crystal Palace. É já uma dúzia de jogos sem conhecer o sabor da vitória. Os Eagles, que por momentos até pareciam ser a grande revelação da Liga a seguir ao Leicester, perderam-se completamente e o alarme da descida só não toca de forma mais intensa porque a primeira volta foi mesmo muito boa. A grande mobilidade ofensiva, a imagem de marca da equipa, já não se faz notar da mesma forma e Cabaye, outrora um dos melhores jogadores do campeonato, perdeu muita da sua preponderância. A defesa também revela fraquezas e a incapacidade em segurar vantagens é gritante. Percebeu-se isso no empate com o Sunderland e na mais recente derrota com o Liverpool, mesmo que em superioridade numérica. A forma como Benteke simula descaradamente o penalty que oferece a vitória aos Reds também não ajudou, diga-se de passagem. Todavia, tudo torna-se mais intrigante ao perceber que as virtudes continuam a ser exponenciadas na Taça, competição na qual o clube já se encontra nos quartos-de-final e com um percurso até ao momento de elevado grau de dificuldade - eliminou Southampton, Stoke e Tottenham.
Menção Honrosa: Eddie Howe. Paco Jémez é um dos treinador do momento. A sua obsessão pela posse e por um futebol sobejamente virado para o ataque, tendo ao dispor elementos de menor valia e indo contra as ideias da esmagadora maioria dos treinadores em circunstâncias semelhantes, fá-lo ser admirado por grande parte da comunidade desportiva. Mas não é o único a defender o chamado "futebol positivo" ao leme de um emblema menor. Outro deles mora em Bournemouth e é certamente um dos melhores técnicos britânicos da atualidade. Howe, que tem em Guardiola o maior dos seus ídolos, mantém-se fiel à fórmula que permitiu aos Cherries escalar posição no futebol inglês nesta sua estreia entre os grandes e com o objetivo da manutenção praticamente assegurado, os adeptos locais têm motivos para estar duplamente felizes com esta primeira temporada na ribalta - por cá (muito provavelmente) irão permanecer e o futebol da equipa é dos mais agradáveis de se seguir ao redor do país. Assistir a mais anos desta relação com Eddie Howe é que começa a se afigurar cada vez mais difícil.O jovem treinador já merece o salto.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

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