Elogio da Sobriedade

Qual o adjetivo mais indicado para classificar um determinado guarda redes sul americano que utiliza os pés de modo pouco ortodoxo, num movimento à escorpião? Como designar um indivíduo que, nos oitavos de final de um campeonato do Mundo, decide deixar o seu posto, a baliza, e avançar metros com a bola nos pés, cometendo um tremendo risco desnecessário? O adjetivo mais correto talvez seja excêntrico, se bem que, em algumas situações, a derivação para a “loucura” não seja, de todo, descabida. Acontece que, surpreendentemente (ou talvez não), é este género de jogadores que o adepto comum mais aprecia - os “loucos”, os rebeldes, os “bad boys”; os atletas que agem quase apenas segundo o seu instinto, que fazem o que mais ninguém teria coragem de fazer. Não choca ninguém, assim sendo, que estes se tornem em autênticas lendas, pelos melhores ou piores motivos. Afinal, quem se recordaria de René Higuita se o colombiano não tivesses dado azo à sua loucura?

Antagonicamente, surge uma tremenda panóplia de jogadores que deixam a rebeldia de lado e apostam na sobriedade como arma principal. Este texto refere-se a um desses casos: um elemento que subiu a pulso, que “deu um passo atrás para dar dois em frente”, que tem realizado temporadas exemplares mas que, só agora, parece começar a ser reconhecido internacionalmente: Leonardo Bonucci.

No rescaldo da partida da Champions entre Juventus e Bayern Munique, Pep Guardiola surpreendeu ao referir-se a Bonucci como “um dos meus jogadores preferidos de sempre”. As declarações, embora contendo um certo exagero, espelham bem aquilo que está a ser a temporada do internacional italiano: sublime. Habitual titular desde que chegou à Vecchia Signora, em 2010, Leonardo coincide com o melhor momento da história recente da Juve, tendo já conquistado o tetracampeonato - três com Antonio Conte e um com Massimiliano Allegri, com o qual se transformou definitivamente num central de top. Apesar da compleição física (190 cm e 84 kg), é um defesa dotado de uma capacidade técnica interessante e ainda móvel (não tem problemas em ser o primeiro elemento de construção ofensiva da equipa, se necessário). Além do mais, há ainda a realçar a maturidade que evidencia, própria de um elemento de 28 anos e que já disputou dois mundiais e um europeu, outro dado sempre pertinente.

Giorgio Chiellini, há uma década nos bianconeri, goza de um estatuto muito especial em Turim, como um dos mais conhecedores da “casa”. Por isso, muitas vezes é colocado num patamar à parte do seu companheiro de setor. É justo? Obviamente não, ainda para mais considerando que Bonucci até tem tido mais tempo de utilização, mas isso está longe de constituir motivo de preocupação para o jogador nascido em 1987. Na senda de outras lendas defensivas do futebol italiano, Leonardo não busca a fama por meios dúbios ou através de excentricidades. Ao invés, opta por um perfil discreto (exceção feita quando “mergulha” para o penalty...) e sóbrio, semelhante à sua maneira de atuar em campo. Com todos estes predicados, não é de estranhar que os grandes clubes europeus “apertem o cerco” ao transalpino. Porém, o mais provável é este manter-se em Itália, numa cidade que cada vez mais o reconhece e junto a um treinador que deposita total confiança nas suas capacidades.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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