A Óbvia Virtude da Completude

O futebol é um belo desporto, entre tantos outros motivos, pela diversidade dos seus praticantes. Uns de elevada estatura, outros nem tanto; há rápidos, lentos e falsos lentos, jogadores que utilizam a cabeça como arma principal ou os pés (direito ou esquerdo) para causar estragos. Depois ainda prevalecem alguns que pensam rápida e eficazmente, “mestres das decisões”, ao passo que outros fazem-se valer da técnica apurada para brilhar.

Acontece que, apesar desta enorme panóplia de estilos, quase todas as equipas do globo contam nas suas fileiras com jogadores que apresentam caraterísticas muito particulares – e importantes também. Aliás, arrisco-me mesmo a afirmar que tanto em Portugal como na Arménia, grande parte dos conjuntos futebolísticos têm pelo menos um atleta com as seguintes particularidades:

N.º 1: O “inteligente” - Aquele que compensa a falta de velocidade física com rapidez de ação e de decisão; quando o esférico lhe chega aos pés já sabe onde o colocar de seguida. Exemplo paradigmático: Philip Lahm.
N.º 2: O “velocista” - Até pode ter uma capacidade de decisão muito reduzida mas a tremenda velocidade de que dispõe costuma ser um problema para o adversário; tende a ser baixo e franzino e, não raras vezes, é lançado nos minutos finais dos jogos. Exemplo paradigmático: Cristian Tello.
N.º 3: O “tanque” - “Duro de rins” e vagaroso, quer seja defesa, quer seja ponta de lança, prima quase única e exclusivamente pela poderosa compleição física. Se atacante, é habitual não sair da grande área adversária e procurar pelo jogo aéreo; tendo tarefas defensivas, busca o contacto. Exemplos paradigmáticos: Wes Morgan e Nikola Žigić.
N.º 4: O “tecnicista” - Com maior ou menos velocidade, este tipo de jogador garante sempre algo: técnica; por vezes faz “truques” com a bola sob sua posse ou cria perigo com jogadas desconcertantes (a técnica de finalizar bem também conta). Exemplo paradigmático: (o melhor) Ronaldinho.

Obviamente, os melhores executantes a nível mundial agrupam pelo menos duas destas categorias. Lionel Messi, além da inteligência, é um portento no que à velocidade diz respeito e possui uma apuradíssima técnica; Luis Suárez sabe, se necessário, ser um “tanque” para lá de ser um finalizador fantástico – tal como Cristiano Ronaldo. Ou seja, mesmo que se seja o futebolista mais rápido neste desporto, caso não saiba o que fazer com a bola quando a tem, evidentemente dificilmente fará a diferença. Por outro lado, há um jogador que, não sendo o melhor em nada, é manifestamente bom em tudo sendo, como tal, de topo: Thomas Müller.

Formado no Bayern de Munique, estreou-se na equipa principal em 2008/09 mas apenas se assumiria como titular na temporada seguinte. Sob o comando de Louis van Gaal, o jovem alemão teve um ano de sonho. Além dos títulos coletivos (vitória na Liga e Taça alemã e derrota na final da Champions ante o Inter de Mourinho), Müller rubricou uma temporada muito acima das expetativas (até do próprio), tendo sido mesmo o segundo jogador com mais partidas disputadas no colosso germânico (o incontornável Philip Lahm fez mais um jogo) e, depois de Arjen Robben, o que mais faturou (a par de Olic), superando os reputados Miroslav Klose, Mario Gomez e Luca Toni. Seguiu-se o triunfo ao serviço da seleção nacional onde, subitamente, mas de forma justa, conquistou o seu lugar. Aos 26 anos, soma já 68 internacionalizações e 31 golos, registo sem dúvida impressionante. Ao mesmo tempo, com os 10 tentos que já apontou em Mundiais (no de 2010 e 2014) aproxima-se do compatriota Klose (tem o recorde de 16) como o melhor artilheiro no maior certame de futebol do mundo.

A passar por nova temporada de tremendo sucesso individual (com os dois golos frente ao Werder Bremen ultrapassou o seu recorde de golos num só ano – já leva 27), o craque da Baviera vai dando novo sentido à palavra “completo”. De facto, não sendo uma “besta” física, os seus 186 centímetros permitem-lhe controlar “choques” com os adversários; não sendo um velocista por natureza, é móvel, possuindo uma boa aceleração; apesar de não ser o jogador mais tecnicamente evoluído do mundo, é bem capaz de pormenores deliciosos – e de chegar ao final dos anos desportivos com registos interessantes no que concerne a golos/assistências; e, embora não seja o atleta mais inteligente e com melhor poder de decisão no mundo, poucos duvidam que esteja, pelo menos, no top 5.

Desde sempre se identificou o “bom avançado” com o jogador que aponta golos em catadupa, que marca sistematicamente. Não sendo, de todo, errado pensar assim (até porque é essa a função primária de um atacante), a verdade é que por vezes os golos não são tudo – e Müller é a prova máxima disso. Além de facilmente atingir a fasquia dos 20 tentos/época, o seu grau de influência na manobra da equipa (ou na mannschaft) torna-o num elemento insubstituível: a finalizar, a cabecear, a assistir, a abrir linhas de passe, a levar a bola em frente, a contemporizar, a atrair defesas rivais. Certamente, e retomando a premissa inicial, há futebolistas melhores que o camisa 25 do Bayern em todos esses momentos de jogo mas, num cômputo geral (o todo), Thomas Müller só há um.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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