A linha que separa

A partir de que momento é legítimo responsabilizar um treinador pelos resultados obtidos?

Sempre que existem mudanças governamentais, repete-se a história: são "descobertos" buracos nas contas públicas, derrapagens orçamentais e demais situações nefastas, com o novo Governo a atirar as culpas para o anterior executivo, dizendo que são consequências do seu trabalho, ao passo que o anterior "lava dali as suas mãos", considerando que aqueles resultados são já fruto do trabalho do novo elenco governativo. Ora, esta situação política encontra semelhanças no actual momento do FC Porto. Não que se assista a uma veemente troca de palavras entre Lopetegui e José Peseiro, mas a verdade é que, desde a saída do Basco, as coisas estão longe de terem melhorado, podendo mesmo dizer-se que pioraram, e por isso é normal que nos interroguemos sobre onde está a linha que separa a responsabilidade do anterior e do actual líder dos Dragões.

Observemos os números. Julen Lopetegui dirigiu os Azuis e Brancos em 26 jogos esta época, somando 17 vitórias, 5 empates e 4 derrotas (65% de vitórias), ao passo que José Peseiro esteve ao comando da equipa em 12 encontros, contabilizando 7 vitórias e 5 derrotas (58% de vitórias). Assim, não só a percentagem de vitórias desceu, como Peseiro já perdeu mais jogos em 12 do que o seu antecessor em 26. A juntar a isto, o Espanhol deixou os Portistas na segunda posição, a 4 pontos da liderança, e o Português tem, neste momento, a equipa em terceira, a 6 pontos do primeiro lugar.

A verdade é que, para lá da frieza dos números, é difícil estabelecer onde termina a responsabilidade de um e começa a do outro. José Peseiro pode alegar que, desde que o clube da Invicta anunciou a sua contratação, a 19 de Janeiro, só por uma vez (entre a recepção ao Arouca e o Clássico da Luz) é que dispôs de uma semana "limpa", havendo quase sempre Taça ou Liga Europa no meio de 2 jornadas do campeonato, o que tem dado ao Ribatejano pouco tempo para treinar e, assim, fazer interiorizar melhor nos atletas as suas ideias. A juntar a isto, pode ainda queixa-se do planeamento feito pela SAD, que abordou a segunda metade da época só com 2 centrais da equipa Sénior (Indi e Marcano), obrigando Peseiro a apostar num Júnior como Chidozie ou numa adaptação como Layún em jogos decisivos frente a Benfica ou Dortmund. Já contra o actual treinador (e, indirectamente, a favor de Lopetegui) está a evidência de que se os Dragões tivessem vencido frente a Arouca e Braga estariam agora na liderança, portanto não se pode dizer que, pelo menos em termos meramente pontuais, a herança de Lopetegui tenha sido horrível. Para além disto, foram contratados Marega e Suk, que apesar de estarem a ser algo criticados foram destaques da Liga na Primeira Volta e geraram mesmo muito "falatório" no Mercado de Inverno, devido à cobiça de que foram alvos por parte do rival Sporting.

Em suma, é inegável que a "chicotada psicológica" promovida pela Administração do clube está longe de ter melhorado os resultados da equipa, tendo mesmo afastado a mesma dos principais objectivos. Resta definir, com exactidão, a partir de onde se pode responsabilizar José Peseiro, tendo consciência que da conclusão retirada passará grande parte da avaliação feita do trabalho do treinador, tendo mesmo em vista uma decisão sobre a sua continuidade no banco na próxima época.

Pedro Barata

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