Viver uma vida irreal

Recebe, mensalmente, uns quantos milhões na conta bancária. Vai para o treino num carro topo de gama. Os filhos estudam no melhor colégio privado da cidade. Vive num palacete e a família mais próxima não precisa de trabalhar. É a vida de um jogador profissional de futebol. Aparentemente, a vida perfeita.

Vejo futebol todos os dias e tenho noção dos sacrifícios físicos e psicológicos aos quais um atleta profissional está exposto. Não obstante, reconheço que os jogadores profissionais recebem, na realidade actual, salários injustificadamente altos.

Neste texto, trago uma lição de humildade. Já todos ouvimos comentários como: “recebem milhões só para dar uns pontapés na bola...” ou “só querem o dinheirinho no fim do mês, não sabem o que custa a vida!”. Os futebolistas são cidadãos predestinados. Nasceram com um talento incomum para jogar futebol e essa qualidade, na maioria dos casos, inata, proporciona-lhes uma vida estável e pouco exposta aos sacrifícios do cidadão comum.

Os futebolistas vivem uma vida irreal. O meu ponto de partida para este texto é uma entrevista feita em Julho passado a Victor Valdés, guarda-redes espanhol de 33 anos. Está vinculado ao Manchester United mas defendeu a camisola do Barcelona durante 19 anos. Foi campeão espanhol, venceu três Ligas dos Campeões pelos catalães e venceu um Mundial e um Europeu pela selecção espanhola. Um currículo invejável e com muitas distinções individuais.

Victor Valdés, em entrevista ao canal colombiano RCN, não questiona a ideia de “vida perfeita” que a sociedade atribui aos futebolistas. Reconhecendo-a, ressalva os sacrifícios que o sucesso exige. No entanto, antes de qualquer futebolista, está alguém que, segundo Valdés, “apenas teve a sorte de poder ser futebolista”.

O guarda-redes espanhol conta a experiência que uma lesão grave lhe proporcionou e dá “graças a Deus por ter vivido essa experiência”. A lesão fê-lo “sentir de novo o que é a vida sem ser futebolista”. Valdés foi recuperar da lesão em Augsburgo, na Alemanha. Reconhece que as pessoas foram essenciais, permitindo que o melhor guarda-redes do Mundo passasse despercebido na rua, algo a que não estava habituado.

Eu vivia num hotel e tinha de me deslocar à clínica, de eléctrico, duas a três vezes por dia. (…) Depois de muitos anos, voltei a contar moedas e a saber valorizar o que custava um simples bilhete de eléctrico ou ter de pagar um café. São situações às quais, nós, futebolistas, não estamos habituados porque vivemos uma vida irreal”. Valdés refere que um futebolista recebe tudo feito, que se sente cómodo em qualquer lado e que a lesão o fez voltar à “vida real”. Foi um golpe forte para recordar que vem de “comprar o bilhete de eléctrico e andar com as muletas, com a música nos ouvidos e...sozinho”.
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Valdés alerta para a crueldade do futebol: “Tens uma lesão no joelho e tu já não vales, chamam outro. Mas tu vais valer, se tu quiseres”.

Esta figura incontornável do futebol “desce à terra” e olha para a vida do comum cidadão que teve a sorte de ser jogador. Não o jogador que teve a lesão grave, o outro. O que teve sorte. O que recebe tudo feito e não precisa de saber onde estava antes de ser profissional.

Victor Valdés, guarda-redes natural de Barcelona, garante, com emoção, “nunca mais serei uma superestrela”.

Como futebolista, Valdés nem sempre foi devidamente valorizado. O facto de pertencer a uma equipa que passava 90% do jogo com a bola em sua posse fez com que o seu trabalho fosse considerado pouco importante e, sobretudo, pouco relevante naquela equipa de estrelas. Para além de uma qualidade extraordinária a jogar com os pés (condição importante para ser guarda-redes do Barcelona naquela altura), sempre foi um guardião tranquilo e muito forte nos duelos 1 contra 1 na cara do avançado. Apesar de parecer algo pesado, Valdés é bastante ágil entre os postes e rápido a ler os lances.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Diogo Oliveira

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