Vai Sarri, fá-los sonhar

Com o início da nova época, surgiram, como habitual, os prognósticos acerca de quem conquistaria a Serie A. A Juventus, tetracampeã e finalista vencida da última Champions recolhia, naturalmente, o favoritismo. Num segundo nível, colocava-se uma Roma que se havia reforçado adequadamente, com elementos de craveira mundial como Dzeko e Salah. Depois, os semi-renascidos rivais de Milão; o Inter, para muitos o “rei do mercado” e o AC Milan, que não se poupara a esforços para dar a Mihajlović o elenco possível. Porém, raras foram as referências ao Napoli, a iniciar um novo período com o esforçado Maurizio Sarri. Pois bem, volvidas 25 jornadas, é exatamente o emblema azzurri o único capaz de ombrear com a Vecchia Signora, com um estilo de jogo vistoso e efetivo.

Uma Camisola, Uma Cidade
Nápoles, com quase 1 milhão de habitantes (toda a zona metropolitana pode atingir os 4 milhões), é a terceira maior cidade de Itália – apenas superada pela capital, Roma, e por Milão. Situada na parte sul do país, alberga uma grande variedade de seres humanos, como qualquer grande centro urbano. Em comum, existe uma paixão: a equipa de futebol. Sendo uma urbe de “um clube só”, Nápoles veste-se de gala sempre que o seu clube entra em campo – é a autêntica “outra missa do domingo”. Além do mais, os adeptos são fieis, como bem demonstra a reação destes após a derrota em casa da Juve: não há apupos nem críticas negativas, apenas e só apoio. Genuíno.

O Deus Sonha, o Homem Tem
Até 1984, o Napoli não passava de um ator (muito) secundário na cena de alto nível do desporto-rei transalpino. Para se ter uma pequena noção, o palmarés cingia-se a duas Taças nacionais – em 58 anos de história. Contudo, nessa temporada, uma bomba caiu na terra do Vesúvio: Diego Armando Maradona (ainda não o “Dios”), incompreendido no Barcelona, assinava pelos azzurri. A partir desse momento, o clube nunca mais seria o mesmo. Com os seus golos, assistências e fluidez, o “10” transportou, quase numa missão solitária, os seus companheiros, do anonimato, à glória mundial. Logo em 1986/87, o argentino guia a equipa a uma inédita “dobradinha”, seguindo-se a Taça Uefa (em 1988/89) e novo Scudetto (1989/90). O cúmulo da paixão de todo e qualquer napolitano pelo “Dios” aconteceu no Mundial 1990: nas meias-finais, na partida entre Itália e Argentina, no San Paolo, Maradona conseguiu dividir a cidade, que estava indecisa entre apoiar a sua nação ou o seu ídolo. “Diego nos nossos corações, Itálias nas nossas canções” - um respeito mútuo que se eterniza no tempo.

Depois da Bonança, a Tempestade
Após os sucessos supramencionados, o Napoli passou pelo período mais negro da sua história. A descida de divisão, em 1997/98, foi um golpe terrível, mas o pior ainda estava para vir: em 2004, o clube declara falência e fecha portas; “el Dios” só saíra à pouco menos de 15 anos, mas o emblema já não se suportava.

O Produtor de Cinema que Também é... Presidente
Além do património vulcânico e gastronómico, Nápoles também tem uma íntima relação com o cinema. Quer os grandes nomes da sétima arte italiana, quer grandes lendas de Hollywood (Clark Gable à cabeça) estiveram na cidade a gravar, contribuindo para aumentar o charme da cidade à beira-mar. Atualmente, há inclusivamente uma ligação entre o emblema de futebol e a indústria cinematográfica através do... presidente. Aurelio De Laurentiis, sobrinho do mítico produtor Dino De Laurentiis (vencedor de um Óscar da Academia pelo filme La Strada), herdou do tio o gosto pelo “grande ecrã”, sendo líder da Filmauro, empresa direcionada para a distribuição e produção de filmes. Além do gosto pela arte, o carismático napolitano tem, como os seus conterrâneos, um lugar no seu coração pelo Napoli. Foi essa paixão que o levou, em 2004, a comprar os azzurri, entrando numa demanda para recuperar o histórico transalpino, desde as mais baixas divisões, até ao topo. Contando com um apoio extraordinário das gentes da cidade (na Serie C, o San Paolo recebeu, num jogo, 50.000 mil espetadores), com um investimento forte, mas controlado, logrou o objetivo e, hoje, o clube do sul de Itália é um dos mais fortes do país, tendo conquistado, nas quatro derradeiras épocas, duas Taças. Falta o Scudetto.

Abençoadas Pampas
“Pampa” é o termo que designa a região sul-americana de vastas pradarias, abrangendo o Uruguai e parte do Brasil e da Argentina. Curiosamente, são dessas zonas que provenieram as grandes figuras napolitanas nas últimas três décadas. Após Maradona, nos anos 80, o argentino Ezequiel Lavezzi e o uruguaio Edison Cavani erigiram-se, recentemente, como grandes estrelas do clube, até à saída de ambos para o PSG. Na atualidade, a grande esperança do San Paolo também é das... “pampas”. Gonzalo Higuaín, embora tenha nascido em França, é, como sabido, internacional pela Argentina, assumindo-se como grande destaque do conjunto de Sarri, e liderando, com 24 golos, a lista de melhores marcadores da Serie A e da Bota de Ouro. No total da temporada, leva 26 tentos em 30 jogos: média de 0,87 golos por partida. Não é um Deus, muito menos “El Dios”, mas é um insaciável e eficiente matador. Será suficiente? Esperemos que sim.

O Bancário e os seus Operários
A última temporada foi uma desilusão. Rafa Benítez não conseguiu levar o Napoli além do 5º lugar na Serie A, tendo ficado bem longe dos objetivos mínimos: o apuramento para a Liga dos Campeões. Foi, consequentemente, uma saída natural e pouco surpreendente (as surpresas ficariam reservadas para o subsequente destino do técnico espanhol), abrindo espaço para a sucessão. Sinisa Mihajlović foi equacionado mas a escolha recairia no “operário do futebol”, Maurizio Sarri, que não teve um início fácil. De facto, a contestação fez-se sentir de imediato, com a maior voz napolitana, Diego Maradona, a questionar a capacidade do novo treinador. Outra reação não era de esperar, diga-se de passagem. Na verdade, Sarri, que chegou a exercer funções de bancário, estreara-se na primeira divisão italiana apenas com 55 anos, na temporada anterior, após subir o Empoli desde a Serie B. Como tal, a desconfiança era mais que fundamentada, e assim permaneceu, não obstante as garantias do presidente De Laurentiis, que assegurava que, “agora, os jogadores vão suar a camisola”. Pois bem, em fevereiro, constata-se que estava absolutamente certo. Os atletas jogam mais e melhor (além de Higuaín, elementos como Insigne – que nível brutal !, Jorginho e Koulibaly melhoraram obviamente) e, sem ter sido necessário um grande investimento (Allan e Gabbiadini, os mais importantes, custaram “apenas” 11,5 M€ e 12,5 M€), formou uma equipa coesa, atrativa e, acima de tudo, extremamente competitiva, permitindo, nesta fase, sonhar ainda com a conquista da Liga (apenas 1 ponto os separa da líder Juventus) e com o triunfo na Liga Europa (independentemente da concorrência feroz, e do adversário – o Villarreal está em boa forma - os azzurri fizeram uma fase de grupos simplesmente sublime, vencendo todos os jogos) para, assim, voltar a trazer as boas e velhas memórias maradonianas a Nápoles – com novos intérpretes, é certo, mas com a vontade e o apoio de sempre.

Zaza, o Maldito
O jogo grande da jornada 25 foi demasiado táctico, ou seja, aborrecido. A Juventus, a meio de uma recuperação “hollywoodesca”, recebe o primeiro classificado, Napoli, a dois pontos de distança. Como tal, aguardava-se, logicamente, que os comandados de Allegri procurassem vencer sem contestação, para continuarem a senda imparável encetada há sensivelmente três meses e meio. No entanto, do outro lado da barricada, Sarri trazia a lição bem estudada, tendo conseguido travar, durante 88 minutos, o “poder de fogo” bianconeri. Aliás, até viu a sua equipa ser superior e ter melhores ocasiões para marcar, se bem que se poderia considerar o nulo o resultado mais justo. Só que, a dois míseros minutos do final, a 120 segundos dos 90', o subsituto Simone Zaza apontou um golo de belo efeito, chegando aos 7 na época (é o atacante mais eficiente, no rácio minutos/golos, na Vecchia Signora) e oferecendo o triunfo à Juve.

Olhando para o calendário, constata-se que o Napoli terá deslocações previsivelmente difíceis, com destaque para as visitas a Florença, ao Olímpico de Roma e ao Giuseppe Meazza. Contudo, convém não esquecer o que os azzurri foram fazer a San Siro (vitória 4-0 sobre o AC Milan), há precisamente uma volta atrás e o que quase lograram em Turim, no Juventus Stadium. É que quando um homem sonha, e a equipa quer, tudo se torna mais fácil. Juntando a isso a bênção de um deus terreno, o céu é o limite.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

Etiquetas: