“Un giorno all'improvviso, mi innamorai di te”

Era domingo à tarde, chovia torrencialmente em Coimbra e o guarda-redes adversário aproveitava o facto de a equipa da casa não atacar para fazer alguns exercícios de aquecimento dentro da grande área. Ao meu lado, o meu pai e o meu avô tentavam explicar-me que nem sempre se pode sair vitorioso e nem sempre se pode jogar bem, especialmente se fores da Académica. Assim é a minha primeira recordação academista, assim é a nossa sina e assim foi daí para a frente.

Depois dessa partida, lembro-me vagamente de muitas outras. Campomaiorense, Leça, Maia, Sporting da Covilhã, Salgueiros, Felgueiras, Chaves, Nacional, União de Lamas... Jogos bons, jogos menos bons, partidas mais conseguidas, partidas menos conseguidas. 

A ida ao estádio ao Domingo à tarde era já uma rotina pela qual ansiava durante a semana. Comecei a pensar a Académica e sobretudo a viver a Académica. O academismo foi, aos poucos, tomando conta de mim.

Por essa altura, o futebol era festa, era confraternização, era estádios compostos, era alma, era uma chama que nos aquecia o coração mesmo nos dias mais frios. Ver o clube de Coimbra jogar, defender as cores, a tradição e o símbolo da cidade fez-me conhecer sentimentos e provar emoções que apenas era suposto aprender anos mais tarde.

Em contraste com esses tempos, que, diga-se de passagem, não são assim tão longínquos, o futebol, hoje em dia, é uma pequena amostra do passado. Os estádios estão, na sua maioria, vazios. O amor ao clube da cidade, salvo raras exceções, desapareceu e o desporto é cada vez mais centralizado em apenas três equipas. Como prova maior disso, basta observar uma jornada de segunda liga portuguesa onde há estádios que não chegam a ter meio milhar de adeptos e, até mesmo, o principal escalão nacional é triste e pobre nesse aspeto.

Foi então que, devido à pobreza do ambiente em torno da maioria dos jogos em Portugal, comecei a observar outros campeonatos. Comecei por ver os campeonatos ingleses, conhecidos por resultados imprevisíveis, futebol de entrega, de luta e de garra, acompanhado de uma qualidade superior ao nível dos executantes. No entanto, apesar dos estádios cheios, são muitas vezes os jogadores que puxam pelos adeptos e não o contrário e, posto isto, talvez por esse detalhe, não encontrei o refugio que procurava.

Apontado muitas vezes como um campeonato retrógrado, com futebol pouco eloquente e partidas desinteressantes, as ligas italianas foram a minha segunda opção... E foi amor à primeira vista.

Os campeonatos italianos são mais uma obra de arte entre outras tantas que podemos presenciar naquele país. São o quadro mais completo, que retratam a verdadeira paixão, o verdadeiro sentimento que o futebol é capaz de despoletar. Entre outras características, temos jogadores que jogam com amor à camisola e dedicam uma vida ao clube do coração, (sendo o caso do Totti o mais gritante neste capítulo); temos um ambiente festivo ligado ao futebol que é exponenciado ao fim de semana, em todas as cidades, mesmo que o clube jogue fora; temos estádios compostos; temos derbys intensos que movem paixões e cidades em torno do mesmo, (derby de Genoa, derby de Verona, derby de Turim, derby de Milão, derby de Roma, derby da sicília, entre tantos outros); temos rivalidades históricas (Fiorentina e Roma, Inter e Juventus, Bari e Nápoles, Genova e Juventus, Salernitana e Juve Stabia, etc...); temos amizades históricas (por exemplo a amizade, Reggio-Bari-Salerno, que chegam ao ponto de os adeptos dos três clubes assistirem aos jogos uns dos outros só pela amizade).

Perante esta reunião de características, apaixonei-me pelo futebol italiano e sou, hoje, um seguidor assíduo da Serie B e da Lega Pro. Apesar de não o viver presencialmente, este campeonato dá-me arrepios e faz nascer em mim um sentimento de saudade imenso.

O futebol praticado não está, na maioria das vezes, ao nível do campeonato alemão ou do campeonato inglês, mas o ambiente que é vivido em cada estádio, a paixão que os adeptos transmitem antes, durante e após o jogo, a mentalidade italiana no que toca ao clube que defende a sua cidade ou a sua opção política, é de fazer inveja a qualquer adepto que vibre com a verdadeira festa futebol e, assim, como é cantado nos estádios italianos, “un giorno all'improvviso, mi innamorai di te”!

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Jorge Ferreira

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