Ultrapassagem ou Despiste

We are in hell right now, gentlemen
believe me
and
we can stay here
and get the shit kicked out of us
or
we can fight our way
back into the light.

Há momentos assim, que definem uma vida. Ou no caso do desporto, uma temporada. Um indivíduo, ou conjunto de indivíduos, encontram-se perante um desafio decisivo, e o resultado deste transforma inapelavelmente o seu futuro. Com mais ou menos drama, o Sporting encontra-se nessa posição.

A próxima jornada, na qual se desloca ao reduto do Nacional, está longe de ser um jogo de mata-mata. Qualquer que seja o resultado final, todas as esperanças no que ao campeonato diz respeito continuarão intactas. Mas olhando para o passado recente, e para o facto dos dois directos adversários se defrontarem na véspera (jogando eles também, de maneiras diferentes, muitas das suas ambições), é inegável o sentido de urgência com que os leões vão entrar na Choupana. Três vitórias consecutivas e inequívocas, aliadas a um calendário teoricamente acessível e uma vantagem confortável, puseram os adeptos leoninos a idealizar mil e um cenários, mas dificilmente algum deles corresponderia à realidade, que passa pela liderança partilhada com o Benfica. A segunda volta trouxe quatro pontos perdidos, todos em casa, todos frente a oponentes bem mais fracos. Uma equipa que, após dominar o Porto, golear o Setúbal, e bater Braga após remontada épica, parecia lançada para uma sequência positiva, viu-se emaranhada num conjunto de jogos em que os erros foram muitos, e muitas das qualidades (eficácia atacante, coesão defensiva, domínio das operações) desapareceram. Como resultado, foi-se a vantagem, mas acima de tudo foi-se o estado de graça, foi-se a confiança. Perante o Rio Ave, foi visível que os jogadores deixaram de acreditar (ao contrário do que acontecera em Arouca, ou frente ao Belenenses, ambas vitórias mais que sofridas), e que o empate era uma fatalidade inevitável. A questão é saber se a deslocação à Madeira será a continuação das últimas semanas, ou o regresso aos bons velhos tempos. E com o que joga o Sporting?

A favor
Reacção à adversidade: uma semana infernal na véspera da visita à Luz concretizou-se numa vitória concludente na casa do rival. Uma derrota na Madeira, com perda de liderança para o Porto, antecedeu uma vitória frente a este mesmo adversário. E o jogo em Paços, de elevado grau de dificuldade, originou uma das melhores exibições da temporada. Ou seja, os sinais indicam que a equipa lida bem com a pressão, responde à adversidade, e parece preparada para jogos de maior exigência.
Forte contra os fortes: por incrível que pareça, as maiores dificuldades aparecem perante os adversários com menos recursos. O Nacional, longe de estar bem classificado, não se costuma remeter a uma postura defensiva, algo que baralha a estratégia leonina. Um jogo dividido frente a um oponente a quem o ponto não basta pode funcionar como ponto a favor.

Contra
A instabilidade da equipa: quando tudo apontava para que o onze-base estivesse estável, eis que tudo muda. Frente ao Rio Ave estiveram em campo quatro reforços de Inverno, o que não é bom sinal num conjunto treinado por alguém que afirma que o processo de assimilação de rotinas demora tempo. Pior, nos últimos dois jogos, actuaram no total cinco (5!!) defesas centrais; Naldo, Semedo, Ewerton, Paulo Oliveira e Coates. É difícil a um quarteto defensivo ter o mínimo de coesão com tanta cara diferente, isto numa altura em que a maior força da equipa devia ser a consolidação de rotinas.
O barulho: a postura agressiva da Direcção do Sporting tem como objectivo desviar as atenções da equipa de futebol, mas acaba sempre por criar pressão extra. Mal ou bem, o nome do Sporting está sempre nas primeiras páginas, e isso acaba por se intrometer com o grupo de trabalho. Cada jogo é antecedido por drama, casos e novelas, e de bola fala-se pouco. E os jogadores, convenhamos, só percebem é de bola. O esmiuçar de todos casos de arbitragem por parte do clube acaba por atrair focos de atenção para os jogos do próprio Sporting, acabando os seus jogadores por serem escrutinados ao milímetro. E claro, o caso Slimani, até pelo modo como tem sido conduzido, influencia negativamente o jogador, e talvez até os colegas.

O mal está feito, e o tempo não volta para trás, pelo que, mais importante que lamber as feridas ou chorar os pontos perdidos, é hora de saber realmente, se mora ou não candidato em Alvalade. Com o resultado do clássico uma realidade, o jogo de Sábado é fundamental, não somente pelos três pontos, mas como pedra de toque de um percurso. Ascendente ou descendente.

Visão dos Leitores (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

Etiquetas: