Super Sunday

14 de fevereiro. Dia de São Valentim. Celebra-se a amizade, o amor, as paixões. Procuramos estar com aqueles de quem gostamos, seja o/a parceiro/a, amigos ou familiares, e tentamos oferecer-lhes o melhor de nós. É uma altura nostálgica, tal como a é o Natal ou o dia de aniversário, o coração enobrece-se e por pelo menos uma altura no ano, buscamos ser fiéis aos bons princípios e fazer quem amamos feliz. 14 de fevereiro de 2016 foi mais do que isso. O amor esteve no ar, mas facilmente chegou aos relvados. A paixão pelo futebol, pois claro. O passado domingo bem pode ser considerado o melhor dia de Premier League até ao momento. Discutia-se o título entre todos os protagonistas, a Europa, bem como a manutenção. Uns perseguiam a redenção, outros apenas a confirmação da qualidade. Se o menu por si só já era atrativo, a degustação fez jus a essa expetativa. Assistiu-se a excelentes espetáculos, mas a nota dominante vai para as demonstrações técnico-táticas bastante personalizadas (algo que nem sempre é regra): a dinâmica ofensiva do Arsenal, a solidez e solidariedade do Leicester, a perfeita ocupação dos espaços do Tottenham e o regresso do futebol "Heavy Metal" por parte do Liverpool de Klopp. 

Os Foxes, mesmo partindo em vantagem, caíram de forma honrada, não resistindo ao futebol total do Arsenal no segundo tempo. Não haja dúvidas, no entanto, que a expulsão de Simpson - à qual Wenger respondeu bem com a aposta forte em homens virados para o ataque - muito ajudou para o acentuar do domínio dos Gunners que só chegaram à vantagem no último lance da partida. Welbeck, o homem do golo decisivo, operou um regresso de sonho e o Emirates explodiu de alegria. Mas atenção, que até ao início de março avizinham-se idas nada fáceis a Old Trafford e a White Hart Lane. De qualquer forma, o trono volta a ser palpável mas na perseguição ao inusitado Rei - o Leicester, que vai agora gozar de uma semana de férias "oferecidas" por Ranieri - está também o rival Tottenham. Na visita ao Etihad, houve muito equilíbrio mas os Spurs foram sempre os mais esclarecidos nos momentos cruciais e raramente permitiram grandes espaços para a equipa de Manchester. City, que apesar de todos os argumentos, sai com nota negativa deste duplo compromisso decisivo e complica de forma real as suas pretensões de ser campeão. O cenário torna-se ainda mais preocupante ao reparar que a equipa só ganhou três dos treze jogos diante de adversários da primeira metade da tabela - 7 derrotas - e maiores descuidos podem, de forma impensável, colocar o Top 4 em risco. Bem mais satisfatória foi a exibição do Liverpool que, após a eliminação para a Taça, prolongou o Carnaval e desfilou no Villa Park, vergando os Villans. Com o trio Coutinho-Firmino-Sturridge em alta - com as devidas diferenças, faz lembrar Sterling-Sturridge-Suárez - e uma defesa do Villa completamente aos papeis, a goleada até ganha contornos de normalidade. É deste Liverpool que as pessoas estão à espera e ambicionam ver - para lá da garra, um futebol vertiginoso como é imagem de marca do seu treinador. Já o clube da casa não apenas viu as bancadas ficarem despidas ainda a largos minutos do final do encontro - a relação adeptos-clube há muito que está conturbada - como o moral dos seus jogadores volta a ficar sobejamente minado.

No sábado ao final da tarde, outros seis golos no Chelsea vs Newcastle (5-1). As circunstâncias não foram muito diferentes daquelas do Villa vs Liverpool - a melhor versão dos Blues da temporada e a anarquia a todos os níveis no Newcastle -, com os homens da frente de Hiddink on fire. Isto, aliado a uma eventual quebra do PSG depois do escandâlo envolvendo Aurier, pode equilibrar uma eliminatória de Champions que ainda assim parece mais virada para os parisienses. Estará no holandês um Di Matteo II ou os londrinos vão acabar por ceder? Quem também estará mais focado nas competições europeias segundo as palavras do seu técnico é o Manchester United, que ao ser derrotado pelo Sunderland (2-1) comprometeu as suas possibilidades de se qualificar para a próxima edição da prova máxima do continente por via interna, não obstante a queda do vizinho também. Com um banco recheado de jovens, um onze repleto de nomes importantes mas sem quaisquer processos definidos, foi difícil derrubar os pupilos de Big Sam. O Sunderland, uma espécie de Hamburgo da Inglaterra - ambos alcançaram a manutenção de forma épica nos últimos anos, para lá de serem históricos nos respetivos países -, parece lançado para mais um grande final de campeonato na fuga à descida. Em Goodison Park, na derrota dos visitados para o West Brom, as circunstâncias da partida foram deveras estranhas. Num déjà vu do Bournemouth vs Newcastle da primeira volta (igual desfecho), só deu Everton - em termos de posse (acima dos 75%), de lances de perigo e de remates (mais de 30). Mérito para a monstruosa performance de Ben Foster e para as linhas muito juntas de Pulis, sem prejuízo para o nervosismo que com o decorrer do tempo apoderou-se dos homens dos Toffees, que ainda viram o ferro negar-lhes o golo por mais do que uma vez. Em sentindo oposto, o Stoke voltou aos triunfos em Bournemouth (1-3) e teve Imbula - adaptou-se de forma espantosa à nova equipa e promete ser mais uma (boa) dor de cabeça para Didier Deschamps - em destaque, com um tiraço para golo e muito trabalho no meio-campo dos Potters. Já em Carrow Road, onde Norwich e West Ham empataram a duas bolas, Payet voltou a reclamar todo o protagonismo para si. Para fechar, duas equipas em momentos distintos: Palace e Southampton. Os primeiros voltaram a perder - sexta vez nos últimos sete encontros -, desta, em casa e para o Watford (1-2), enquanto uns impressionantes Saints foram ao Liberty buscar o quinto triunfo em seis partidas, sempre sem sofrer golos, desta vez com o tento solitário de Long, que vai fazendo frente a Pellé e Charlie Austin. 

Onze Ideal da Jornada 26 da Premier League: Foster (West Brom); Clyne (Liverpool); Koné (Sunderland); Olsson (West Brom); Rose (Tottenham); Kanté (Leicester); Imbula (Stoke); Eriksen (Tottenham); Payet (West Ham); Pedro (Chelsea) e Deeney (Watford). 
MVP: Pedro (Chelsea). Foi por este Pedro que os Blues gastaram mais de 25 milhões de euros no último verão: móvel, criativo e com faro de golo. É bem verdade que o Newcastle foi presa fácil para qualquer um dos homens mais avançados da turma londrina, mas não se via uma exibição tão portentosa do internacional espanhol desde a sua estreia diante do West Brom. Na altura, e muito por culpa do ex-Barça, o Chelsea conquistara a primeira vitória na Liga e é sob alta influência de Pedrito - chegou a confessar-se arrependido por ter abandonado a Catalunha - que o Chelsea alcançou a sua primeira goleada caseira. 
Jogador a Seguir: Yedlin (Sunderland). Célebre pelos peculiares cortes de cabelo como também pelo facto de se ter estreado no Campeonato do Mundo com apenas 20 anos, o lateral-direito norte-americano, mais um dos jovens dos quadros do Tottenham, emprestado aos Black Cats, vai aproveitando as oportunidades e mereceu a confiança do seu treinador para ser titular no embate ante o Manchester United. Pode não ter tido o impacto do companheiro da defesa Koné, mas foi outra das pedras importantes na armada muito bem montada por Sam Allardyce. Precisa aprimorar ainda a forma como age no momento defensivo mas o potencial revelado promete tornar DeAndre num nome importante dos Yankees. A Copa América Centenária do próximo mês de junho será outra das grandes montras para decifrar os prodígios "escondidos" no país que já não é só do Futebol Americano, do Baseball ou do Basquetebol.
Treinador da Jornada: Mauricio Pochettino (Tottenham)
A Desilusão: Newcastle. Um clube que gasta cerca de 100 milhões de euros em menos de um ano, é o Rei das compras no país em janeiro e o quinto que mais despesas acumula - entre compras e vendas - em todo o mundo no mercado de verão, está proibido de exibir-se a um nível tão medíocre. Contudo, esta continua a ser a pobre realidade dos Magpies. Steve McClaren, mesmo após enormes fracassos ao serviço da Seleção Inglesa ou Derby County, recebeu carta branca para gerir todo o futebol e até tem conseguido fazer chegar nomes de grande qualidade. No entanto, boa parte das contratações não vai ao encontro das maiores carências da equipa e em termos futebolísticos a realidade é simplesmente confrangedora, principalmente longe de St. James Park. Em Stamford Bridge não houve argumentos para contrariar um Chelsea que entrou com tudo nem capacidade para superar as adversidades iniciais. A constante utilização de Sissoko descaído à linha ou a presença de Taylor no onze são apenas alguns dos indícios de que algo está mal. O Newcastle volta a ocupar a zona de despromoção e apenas muito trabalho garantirá a permanência. As individualidades, pelo menos, estão lá. Falta o resto.
Menção Honrosa: Kasper Schmeichel. A herança do pai é pesada e é com ela confrontado regularmente. O guarda-redes titularíssimo do Leicester, no entanto, desabafa estar farto das comparações e pensa que a maneira como aos 29 anos conseguiu estabilizar-se, tanto no campo pessoal como no profissional, é digna de ser reconhecido por mais do que simplesmente "o filho do Peter". E a verdade é que o dinamarquês, nada imune ao espírito de defender bolas que também lhe corre no sangue, vem trilhando o seu caminho e reclamando protagonismo por si mesmo. Hoje, e no expoente da sua carreira - o que não implica que deixe de progredir e subir degraus -, é o número 1 do líder da Premier League, anos depois de ter sido preterido pelo Manchester City, numa altura em que Joe Hart começava a emergir. Ofuscado pelos vários golos que os Foxes vinham sofrendo numa primeira fase mas um dos destaques das últimas partidas - grandes defesas acumuladas e maior confiança em todas as intervenções - e beneficiando também de uma defesa mais forte, é uma das outras caras - e são tantas - deste sucesso, para lá do duo mais mediático formado por Mahrez e Vardy. Só é pena falhar o Europeu numa altura em que se encontra no pico.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

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