Somos todos iguais

Em dia de Oscars da Academia, é difícil não pensar numa associação ao futebol. E se em outras alturas estabeleci ligações mais usuais, desta vez pretendo abordar um assunto que muito falado foi na altura do anúncio das nomeações. Numa altura em que muito se tem criticado o ‘white washing’ em Hollywood, a Academia cometeu a proeza de, em vinte atores nomeados, os vinte serem brancos — algo quase “natural,” dado o facto de 91% dos 6,261 votantes da Academia serem brancos e 77% serem homens. Infelizmente, este é apenas um reflexo dos Estados Unidos (e do mundo), em que a hipocrisia reina e, como Spike Lee disse, é mais fácil chegar à Casa Branca que a presidente de um grande estúdio.

O que nos leva para o futebol. Apesar de todos os anúncios contra o racismo e todas as campanhas de respeito (que, ressalve-se, são extremamente louváveis), a discriminação ainda impera. Ainda no início de Fevereiro, a Lazio foi punida por cânticos racistas num jogo contra o Nápoles, em que o árbitro foi mesmo obrigado a fazer uma pausa de quatro minutos. No fim de Janeiro, 22 adeptos do ADO Den Haag foram banidos pelo clube após cânticos racistas em jogo com o Ajax. A meio de Dezembro, o clube búlgaro Botev Plovdiv foi punido em quase 10 mil euros por cânticos racistas dos seus adeptos dirigidos ao colombiano Danilo Asprilla. Em 2013, Kevin-Prince Boateng saiu a meio de um amigável devido a cânticos racistas dos fãs do clube adversário. Em 2010, os adeptos do Lokomotiv de Moscovo desenharam uma banana em insulto ao jogador Peter Odemwingie. Em 2004, os adeptos espanhóis insultaram os ingleses Ashley Cole e Shaun Wright-Philips durante um amigável.

Ainda há pouco mais de três anos, os adeptos do Zenit enviaram uma carta ao clube a vocalizar a sua posição contra jogadores negros e gays, como forma de manter a tradição do clube. A missiva, publicada na Internet, começava com “Não somos racistas, mas...” Bem, deixem-me dar-vos uma novidade: esse argumento (não sou racista mas; não sou homofóbico mas; não sou machista mas) prova precisamente a falsidade dessas palavras — prova que a pessoa que as diz é efetivamente racista, homofóbica, machista, ou o que seja.

O problema é que o defeito não reside apenas nos fãs. Os ídolos também têm diversas demonstrações de racismo. Jelle Van Damme chamou “gorila sujo” a Onyewu em 2009; John Terry chamou “f*cking black c*nt” (algo intraduzível, fique-se apenas a saber que entre dois graves expletivos está a palavra ‘preto’) a Anton Ferdinand; Luis Aragonés disse ao ex-benfiquista Reyes para mostrar que era melhor que “esse negro de m*rda” (leia-se: Thierry Henry); em 2011, Luis Suárez usou um pouco afectivo com Patrice Evra; Paolo Di Canio realizou a saudação nazi na celebração de um golo contra a Roma. Em Março de 2015, foi apurado que tinham sucedido mais de 350 incidentes de racismo no futebol inglês desde 2012. Berlusconi disse há apenas uma semana que Balotelli tinha apanhado demasiado sol. Em 2011, Busquets foi apanhado nas câmaras a chamar macaco a Marcelo.

Torna-se óbvio que este é um problema que se alastra desde os fãs aos clubes, desde os jogadores aos treinadores, passando até por jornalistas e comentadores. Após um ano em que tanto se falou do racismo em Hollywood, convém apontar dedos também no futebol e trabalhar ainda mais a fundo para combater este mal enraizado na história e ignorância humanas. Não são a raça, nacionalidade, sexualidade ou sexo de uma pessoa que determinam a sua valia, mas sim a personalidade. Enquanto não deixarmos de usar armas tão insipientes para ofender por cause de um simples jogo, enquanto não entendermos que muitos assuntos são muito maiores do que o futebol, a modalidade rainha continuará a ver o seu espetáculo manchado por trocas de violência física e psicológica completamente desproporcionados em relação à real importância do desporto.

Em nota de conclusão, os nossos prémios para a época 2015-16:
Oscars
- Melhor Ator Principal: Neymar
- Melhor Ator Secundário: Luis Suárez e Lionel Messi (empate)
- Melhor Realizador: Pochettino
- Melhor Filme: Leicester
- Melhor Banda Sonora: Dortmund
- Melhor Argumento Original: Bayern

Razzies
- Pior Ator Principal: Hazard
- Pior Ator Secundário: Jackson Martínez
- Pior Realizador: Mourinho
- Pior Filme: Chelsea
- Pior Banda Sonora: Arsenal
- Pior Argumento Original: Real Madrid

Visão da Leitora (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Inês Sampaio

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