Quem te viu e quem te vê

Viver de saudosismos é perigoso. Uma montanha russa é uma fantástica viagem de adrenalina, mas pode ser também uma temerária propagadora de nostalgias. Se de lado se deixarem os sentidos figurados, recaindo a preferência por globos temerosamente glaciais, poderá emergir um turbilhão gélido de emoções. Um meio paralelismo será suficiente para enunciar a simplificação da complexidade, no corpo de William, William Carvalho. Uma prossecução da história obriga Miss Celine a intrometer-se, por via de um suave ‘play’ na harmoniosa melodia. Uma estreia, um passe que embevece e um aplauso de ‘replay’ continuado. Ao compasso de ‘You have come to show you go on’, a clarividência vai colecionando aficionados, o passe espevita os céticos, enquanto a locomoção qualitativa com bola se vai tornando amiúde. De espetáculo em espetáculo, os contrastes dão um ar de sua graça: a desconfiança desaparece, a certeza aparece. Ostenta o 14, simplifica a matemática do treinador e faz uso do espírito altruísta para desarmar com classe – não há tarimba, mas há um qualquer neologismo substituto. A cadência vai empertigando admiradores, um tento que, por vezes, tantos salva, mas que neste caso faz (apenas) exultar de forma (mais) enérgica o batimento (“And you're here in my heart”). Por ser o primeiro, por ser dele. Pelo merecimento – não que um passe ou uma recuperação sua não deliciem –, pela conjugação de todos os seus predicados inebriantes no lance mais bonito de todos. O epíteto de ‘Sir’ começa a encaixar, funcionando como um autêntico ice…

Um passe transviado, uma recuperação malograda e a graça do contraste em vias de desaparecer. Os perigosos pensamentos irrompem vertiginosamente, vindo à cabeça a pálida Rose, com as inesquecíveis palavras repartidas por socorro e, quiçá, pela salvação de Jack.

Os amantes do futebol encarecidamente te pedem: come back, Sir William.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Renato Santarém

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