O último a sair que feche a porta

O Futebol é um mundo maravilhoso. Mesmo quem não o aprecia particularmente nutre algum fascínio por ele, quanto mais não seja porque se interroga constantemente porque raio é que nós, adeptos, sofremos tanto antes, durante e após um jogo, ao ponto de nos transformarmos completamente.

O Futebol é amor, é paixão. É a competitividade da Premier, a raça italiana e o salero espanhol, é a elegância da Champions e a magia do Mundial. É o respeito pelo rival de sempre mesmo que se odeie, é um intenso Roma vs Lazio, é o You'll Never Walk Alone de Anfield, o campo de batalha de um River-Boca, os galáticos de Madrid e os invencíveis de Highbury. É a finta curta do Messi e o carrinho elegante de Nesta, é os pés de Zidane e a cabeça de Jardel, o golo de Kélvin, a reviravolta do Liverpool em Istanbul e os 7-1 da Alemanha aos anfitriões, é o MSN catalão e os 3 Rs brasileiros, é um voo de Buffon e a bicicleta de Zlatan em Wembley. O Futebol é defendermos os nossos ídolos até ao fim mas também é aplaudirmos de pé jogadores como O'Shea ou Arbeloa porque sabemos que mesmo não sendo os melhores jogadores da equipa correm sempre mais do que todos os outros. O Futebol é um golo no último minuto, é o calculismo de Mourinho e a emotividade de Simeone, é um livre do Beckham e uma cavalgada de Henry, é rir e chorar no mesmo jogo, é 93 milhões por Ronaldo e a fidelidade eterna de Gerrard e Totti. É o ritual de pegar no cachecol e ir a pé para o estádio, rua fora, enquanto nos sentimos invencíveis. O Futebol é acompanharmos a nossa equipa por todo o mundo e torcer por ela até nos faltarem as forças, é San Siro e St James Park, é a enchente do Westfalenstadion e os cânticos ingleses. O meu Futebol é tudo isto e muito mais que não cabe nestas linhas. O Futebol é fixe, é lindo, é mágico!

Depois há o futebol português. Consumir futebol português é o mesmo que ir ao melhor restaurante do mundo e ficarmo-nos pelas azeitonas das entradas; é uma introdução ao que é o jogo mas não chega, não satisfaz, temos que ir sempre ver um jogo de outro campeonato para ficarmos de barriga cheia. Para nós o futebol é completamente diferente do que descrevi acima: é a intriga, o ressabianço e o insulto gratuito, é o jogo sem paixão e o jogar constantemente para o empate, é o mundo dos cartões amarelos, dos sumaríssimos e de casos e mais casos de arbitragem dissecados até à exaustão, ao ponto de querermos ir viver para uma ilha deserta até maio. Este futebol é o choro constante, a corrupção, as queixas, o burburinho, o ódio entre adeptos e os comunicados.

Aqui parece que é crime agir com desportivismo, nunca ninguém ganha com mérito: ou é a mão do Ronny, ou o fora-de-jogo do Maicon, ou o túnel da Luz, ou o Paixão, ou o Capela ou o Benquerença, ou o relvado tem buracos ou o jogo foi marcado para outro estádio à última hora. A nossa equipa nunca é pior do que as outras.

É um futebol triste, com bancadas vazias, com jogos à segunda-feira e com bilhetes a 40€, normalmente jogado entre equipas que teimam em trazer 20 jogadores novos ano após ano, quase todos sem a mínima qualidade. É um mundo em que há mais de 10 programas de televisão sobre futebol, o que significa 20 horas semanais a falar de arbitragem, com vários insultos pelo meio. O campeonato não é competitivo, a qualidade geral é confrangedora, normalmente há só 4 ou 5 jogadores bastante acima da média e que se destacam dos restantes (este ano acho que nem isso). Os jornais roçam com frequência os limites do absurdo, com rumores inventados em tertúlias regadas a whisky. Os jogadores, no geral, têm um QI baixíssimo, são influenciados pelos empresários a seu bel-prazer e desrespeitam o seu clube sem hesitarem um segundo.

Parece incrível ter falado do mesmo com todas estas diferenças, não é?
O Futebol não é só um jogo de 11 contra 11, vai muito para além disso. É respeito, desportivismo, classe, generosidade, companheirismo e atitude. Diz-se frequentemente que nenhuma individualidade está acima de qualquer clube mas esquecemo-nos de dizer que nenhuma clube está acima do Futebol. Nós por cá temos comunicados quase diários que fariam Bocage corar de vergonha, conferências de imprensa vergonhosas que parecem saídas de um sketch dos Gato Fedorentos, salários em atraso, viagens ao Brasil, negócios inexplicáveis e contas mascaradas. Nós temos tudo isto porque não merecemos mais: somos demasiado pequenos para um desporto tão grande.

Visão dos Leitores (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Coutinho


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