O jogador sem posição

Anderson Talisca chegou ao Benfica no Verão de 2014, contratado ao Bahia, do Brasil. Rotulado de craque das bolas paradas, o jovem brasileiro definiu-se à chegada: “sou bom no passe longo, passe curto, técnica, bola parada, remate e ajuda na marcação”. Aparentemente, um jogador completíssimo e capaz de dar várias coisas à equipa.

Estamos em Fevereiro de 2016 e, neste momento, Talisca é um caso estranho no futebol português.

Comecemos pelos pontos positivos: Talisca é dos jogadores com melhor remate que já passaram pelo futebol português. O seu pé esquerdo dispara tiros portentosos, tanto em força, como em jeito, tanto de primeira, como com preparação. A outra qualidade do brasileiro é a capacidade no passe longo. Não é um Pirlo, mas sabe variar o centro do jogo e o lado da bola com alguma qualidade. É alto, embora não seja robusto nem resistente. E ficamos por aqui.

Pelo Benfica, já jogou em 5 posições: segundo avançado, médio-centro, encostado à esquerda, encostado à direita e até, em situações particulares, a médio mais defensivo. Qual é, então, a posição de Talisca? Será que se encaixa bem em alguma? A resposta é não.

Médio defensivo: Não vale a pena perder muito tempo aqui. Talisca actuou nesta posição em situações de jogo muito peculiares e ninguém achará que será a melhor posição para ele. É um jogador demasiado ofensivo, sem conhecimento táctico para a posição e, sobretudo, sem a agressividade e intensidade necessárias para jogar à frente da defesa.

Médio-centro (aka médio de transição; aka 2.º médio; aka n.º 8): Para muitos, é a melhor posição para o brasileiro. Percebe-se a ideia: pode ver o jogo de frente, ter a possibilidade de encontrar espaços para aplicar o seu remate, pode esticar o jogo com passes longos e pode fazer uso da passada larga para a progressão com bola. Acontece que, apesar de ter alguma técnica e ter passada larga, revela muitas limitações na progressão com bola. No passe longo, como referido atrás, já mostrou ter alguma qualidade, embora faça muitos “turnovers”.
Para mal dos seus pecados, Talisca já mostrou que não será um 8 de eleição. É um jogador muito pouco intenso, pouco agressivo com e sem bola e sem capacidade de organizar a segunda fase de saída de bola da equipa. É um jogador pouco inteligente na gestão da posse de bola e da organização do ataque. Falta-lhe muita coisa para ser um bom médio de transição. Como se não bastasse, é um jogador que, em muitos jogos, pura e simplesmente se desliga do jogo e, nesta posição, isso é fatal para uma equipa.

Médio direito: Falta-lhe qualidade técnica no 1 contra 1 para ser um desequilibrador. Na ala direita, terá a vantagem de poder driblar para dentro e conseguir situações de remate com o seu pé esquerdo. No entanto, por ser esta a única qualidade para jogar nesta posição, tornar-se-ia um jogador previsível e qualquer lateral que faça o "trabalho de casa" consegue anular as investidas do brasileiro.

Médio esquerdo: Mais uma vez, falta-lhe capacidade de desequilíbrio para ser um bom ala. Do lado esquerdo nem terá grandes hipóteses de aplicar o remate de pé esquerdo. Sobra apenas a possibilidade de tirar alguns cruzamentos de qualidade. Parece curto e seria um jogador banal.

Médio ofensivo (aka 2.º avançado): Parece ser a melhor alternativa à posição de segundo médio. Nesta posição, Talisca está mais perto da área adversária, mais perto da baliza, mais perto do golo. O brasileiro já mostrou que é um bom finalizador. Na fase inicial da época passada fez muitos golos importantes, mostrou algum faro de golo (e alguma sorte) e capacidade de se movimentar junto dos defensores adversários. Nesta posição terá também a vantagem de ter mais liberdade e não ter tarefas defensivas tão rígidas como terá no meio campo. Por ser um jogador que facilmente se desliga do jogo e passa despercebido, acaba por prejudicar menos a equipa nesta posição mas deixa-a “coxa” no ataque e sem soluções.
No entanto, tudo isto tem parecido muito curto. Mesmo nos jogos em que se destacou com golos, Talisca passa ao lado de grande parte do jogo e não oferece linhas de passe, não promove soluções com passes de ruptura (fá-lo esporadicamente), não dá profundidade, não dá largura, nem qualidade na gestão da posse. Não parece ter o que é preciso para ser um jogador de eleição nesta posição.

Pontos a favor de Talisca: Tem 21 anos e terá muito tempo para evoluir, sobretudo no comprometimento com o jogo e na inteligência com e sem bola.
Pontos contra Talisca: Não há posição ideal para ele. O Futebol ainda não inventou a posição Talisca.
Na teoria, um 4x3x3 “à Porto” seria a solução ideal. Triângulo com um médio defensivo e dois médios à frente. Talisca como um destes dois médios talvez conseguisse usar as suas qualidades, mas precisaria de um contexto muito particular: um Lisandro Lopéz que fizesse a pressão sozinho na frente e não precisasse da ajuda de Talisca, e um Maniche que soubesse gerir o seu posicionamento em função de Deco...perdão, de Talisca, e não obrigasse o jogador a demasiadas tarefas defensivas. Demasiadas condicionantes à volta de um jogador como Talisca que, até agora, não mostrou capacidade para ser a estrela que prometia ser no início da época passada (embora, valha a verdade, já nessa fase Talisca desse pouco ao jogo da equipa. Compensava-o com golos).

Veremos como será a evolução de Anderson Talisca, mas parece difícil encontrar uma boa base de evolução para o jovem brasileiro.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Diogo Oliveira

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