O jogador do Século XXII

"Se raciocinar fosse como carregar pesos, então vários raciocinadores seriam melhor do que um. Mas raciocinar não é como carregar pesos. É como uma corrida... Onde um único cavalo galopante supera facilmente uma centena de cavalos puxando carroças." Galileu Galilei 

O futebol, tal como o desporto em geral, evoluiu imenso ao longo das últimas décadas. Profissionalizou-se, ganhou notoriedade e foi gerando cada vez mais dinheiro. O jogo em si também foi sofrendo alterações, havendo cada vez um maior conjunto de exigências tácticas, físicas e técnicas ao mais alto nível. Ora, neste sentido, muitos são aqueles que, com pretensões vanguardistas, foram enunciando os requisitos que os jogadores e equipas da modernidade futebolística deveriam apresentar.

Entre essas características contam-se várias de índole física. A velocidade, a altura, o peso, a capacidade de impulsão ou a aceleração são descritos como factor essencial na hora de avaliar um futebolista do Século XXI. Não é pretensão deste texto negar que estes elementos não são importantes mas... E que peso damos não só à capacidade de raciocinar, mas sobretudo à capacidade de raciocinar de forma rápida, instantânea, de forma a tomar a melhor decisão em cada momento?

Philip Lahm podia ser apenas um rapaz normal nascido em Munique. Com 1,70 metros, uma velocidade que está longe da de um sprinter Jamaicano e sem ter sido bafejado por uma técnica requintada, Lahm teria, à partida, tudo para não ser um desportista de elite. No entanto, o Ser Humano possui a faculdade do pensamento. E isso muda tudo.

O futebol é um jogo de tomada de decisão constante. Não só com bola, mas também sem ela, cada momento de um encontro envolve uma escolha por parte de cada um dos executantes. E porque o capítulo da decisão é o mais importante, Lahm é um dos melhores jogadores do seu tempo. O capitão do Bayern Munique não só é exímio a decidir o que faz, como ainda toma essa opção sempre antes dos outros. A sua velocidade de raciocínio é supersónica, parecendo que antes de que cada jogada surja já a tem visualizada na cabeça. Por isto Guardiola elegeu o Alemão como o jogador mais inteligente que já treinou, por isso quer o treinador Catalão que Lahm passe a maior parte do tempo no corredor central do campo, onde tudo se decide, onde uma decisão um milésimo de segundo antes dos demais pode fazer a diferença.

Se o jogador do século XXI foi projectado com uma "besta" física, uma máquina humana, então Lahm, o homem que vê tudo primeiro e de forma mais nítida do que os outros, é o jogador do século XXII, quando todos se aperceberão de que o futebol é, acima de tudo, um jogo de raciocínio.

Pedro Barata

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