Já não há fortalezas inexpugnáveis

Nos livros de História ou de ficção é sempre possível encontrar relatos de castelos nunca conquistados, de fortalezas que nunca caíram às mãos dos inimigos. Normalmente eram construções imponentes, rodeadas por meios naturais que dificultavam os assaltos, de muralhas enormes e que causavam receio apenas pela sua aparência. Nas enciclopédias do futebol é sempre possível encontrar relatos de estádios que, não só pela imponência, mas também porque neles jogam equipas com uma aura de invencibilidade, em tudo se comparam a essas fortificações inexpugnáveis. Durante anos o Estádio das Antas foi um desses palcos, e o novo Estádio do Dragão seguiu essa tradição. Fosse pelo ambiente, pela qualidade dos conjuntos que vestiam de azul e branco, ou por mero sentimento de intimidação, a verdade é que boa parte dos adversários entrava em campo receoso, e como se diz na gíria, a perder desde o apito inicial. E este sentimento não se resumia aos ditos pequenos, essa sensação de inferioridade atingia os grandes de Lisboa, que raramente se agigantavam na casa do Dragão.

Mas na realidade, não há fortalezas inexpugnáveis. Por força das armas ou do cansaço de cercos intensivos, as mais altas muralhas cederam. E do mesmo modo, assim também o Dragão. O ano passado, o Sporting de Marco Silva foi limpar o FC Porto da Taça de Portugal, sem dificuldades de maior. O personalizado Benfica de Jesus foi alcançar o que não conseguia fazer desde 2005, sendo que antes disso a última vitória tinha já em 1991. E esta semana foi a vez do Arouca deitar por terra de vez o mito da invencibilidade caseira do Porto.

Mas mais impressionante que a derrota caseira, foi o modo como ela aconteceu. Na verdade, o Porto poderia perfeitamente ter ganho o jogo. Teve oportunidades para tal, viu um golo ser mal anulado, e acabou por sofrer outro numa jogada anedótica. Porém, o Arouca, com toda a sorte do Mundo, disputou o jogo pelo jogo, e raramente se desorganizou. E porquê? Porque entraram e jogaram sem medo do adversário, sem receio do inevitável erro que ditasse a derrota, sem sentir a intimidação de quem joga no Dragão. Curto e grosso, o Dragão não mete medo a ninguém. O modo como fizeram o primeiro golo demonstra a falta de respeito que era imagem de marca. E de um mundo em que o Arouca entra já a perder, passa-se para um em que o Arouca entra a ganhar. Literalmente.

Perguntar-se-ão os adeptos em geral e os portista em geral a razão deste declínio. A resposta pode estar em parte na resposta... do público. Chamem-lhe excesso de exigência, maus hábitos de vitória, mas o inferno das bancadas queima mais os próprios jogadores portistas do que os adversários. Os assobios, reservados para as equipas forasteiras e equipas de arbitragem, dirigem-se à equipa da casa. O ambiente intimidante parece intimidar mais Casillas, Maicon e Aboubakar, do propriamente Bracali e Walter. Os insultos com que os ferozes adeptos portistas brindavam tudo que pisasse a relva e não vestisse de azul e branco são hoje direccionados para Lopetegui. Ou quem se segue a Lopetegui. Ou mesmo a quem lá pôs o Lopetegui.

Por outro lado, falta também quem faça o trabalho dentro de campo. A equipa está longe de apresentar a qualidade de outros tempos, bem como a raça e força de vontade que permitiu a onzes com menores argumentos lutar de igual para igual com conjuntos teoricamente superiores. Existe qualidade para jogar bom futebol, mas a mentalidade parece estar em falta. E essa mentalidade acaba por se concretizar num vazio de liderança, faltando sempre o elemento que toque a reunir, que carregue a equipa num assomo de coragem contra todas as contrariedades. Que inspire medo e receio com um carrinho, com uma finta, com uma cavalgada, ou até com uma falta mais dura. Alguém que se assuma como líder, e que crie o pânico nas hostes contrárias. No Porto de hoje não há um Hulk, que mal arrancava com a bola fazia tremer os defesas, ou um Jorge Costa, que mal arrancava para a bola fazia tremer os avançados.

Por último, o exterior. Não, o problema não estará na pintura do estádio ou nos senhores que vendem as bifanas à porta. O problema está na estrutura de apoio à equipa, nomeadamente na estrutura dirigente. Muito do trabalho de intimidação era feito antes da própria partida começar, com declarações, com a preparação de um ambiente hostil. Hoje em dia, a Direcção parece demasiado afastada da realidade do relvado, deixando para o treinador a tarefa de se defender, e de defender os seus. A estratégia do Porto parece demasiado reduzida a uma newsletter, e as aparições de Pinto da Costa são cada vez mais raras, ainda que (quase) sempre eficazes. Ninguém pretende que se regresse aos tempos do cheiro a bagaceira no balneário, mas convenhamos que é cada vez mais confortável (e não só por causa da água quente no chuveiro) jogar no estádio do FC Porto. Confortável para os adversários, a bem dizer.

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