Ganhar no presente, de olhos postos no futuro‏

A espera terminou. Depois de dois meses de interregno, o melhor futebol do Velho Continente está de regresso, a reboque das duas competições mais importantes no calendário do futebol europeu. E se na Liga dos Campeões, os duelos tendem a repetir-se, na Liga Europa, o cenário é bem diferente. Seja pela maior diversidade de equipas, seja pelo maior grau de equilíbrio entre elas, a incerteza entre quem avança, e quem fica pelo caminho, é sempre maior.

Nunca a segunda liga europeia reuniu tantos clubes de nomeada entre os apurados para os dezasseis avos de final. De antigos campeões europeus – num total de cinco – ao detentor do título, de presenças assíduas – são dez as equipas que repetem a presença nesta fase da competição pelo segundo ano consecutivo – às equipas portuguesas, terminando, por fim, com aqueles que só agora se iniciam nestas lides.

Depois de se ter estreado nas provas europeias na última temporada, o FC Krasnodar qualificou-se pela primeira vez para a fase a eliminar da Liga Europa, depois de relegar o Borussia Dortmund para o segundo lugar do Grupo C. A cinco dias de completar oito anos de existência, o emblema de leste tem registado um crescimento meteórico, que o catapultou, em 2011, para a elite do futebol russo. Agora, cinco anos depois, os “touros” – como são habitualmente conhecidos – irão medir forças com o Sparta de Praga, na luta por uma presença nos oitavos de final.

Tudo começou em 2008, quando o Krasnodar obteve a licença para disputar o terceiro escalão do futebol russo. A escolha do seu treinador recaiu em Vladimir Volchek, que orientara a equipa de reservas do Torpedo de Moscovo. Apesar de a experiência no cargo ter sido curta – Volchek acabaria despedido em meados de agosto – o clube terminou a temporada na terceira posição, o que à partida não seria suficiente para garantir a promoção. No entanto, após a recusa de alguns clubes em participar na segunda liga, o Krasnodar acabou por preencher essa vaga. Em época de estreia no segundo escalão, o clube não foi alem de um 10º lugar.

Em 2010, o Krasnodar apostou em Sergey Tashuyev, técnico de 51 anos, que conduziria a equipa à quinta posição. No entanto, no final da temporada, as duas partes anunciariam a rescisão por mútuo acordo. Em Janeiro de 2011, e já depois de anunciar o seu novo treinador, o sérvio Slavoljub Muslin, a sorte voltaria a bater à porta do clube. O Saturn, 10º classificado na última Primeira Liga, desistiu do campeonato por problemas financeiros e a sua vaga seria atribuída ao Krasnodar, depois do Nizhny Novgorod e o KAMAZ, que tinham terminado imediatamente à sua frente na tabela, recusarem a promoção por motivos da mesma ordem. Ou seja, com apenas três anos de vida, o Krasnodar atingiu o escalão máximo do futebol russo, sem nunca ser promovido diretamente.

Para preparar a sua estreia na Primeira Liga, o Krasnodar investiu mais de 10 milhões de euros em novos jogadores, entre os quais, Yuri Movsisyan e o brasileiro Joãozinho, responsáveis por 21 dos 58 golos da equipa no campeonato, e que permitiram alcançar um respeitável nono lugar. Quem também constava das opções habituais de Muslin, era o médio Márcio Abreu, natural do Funchal. No mercado de verão, seria a vez do médio ofensivo Rui Miguel se juntar ao clube. No entanto, a experiência do ex-Vitória de Guimarães não seria tão bem-sucedida quanto a do seu compatriota. Se Márcio Abreu foi uma opção regular por quase três anos, Rui Miguel acabaria por abandonar o clube na reabertura do mercado de transferências, despedindo-se do Krasnodar com apenas 107 minutos de utilização, distribuídos por quatro desafios.

Na temporada seguinte, a equipa ficou-se por um modesto 10º lugar e Muslin seria demitido em Agosto, na sequência de maus resultados. O seu lugar seria ocupado por Oleg Kononov, técnico de 47 anos, nascido em Kursk, na Rússia. Depois de várias experiências como treinador adjunto, este adepto do 4-3-3 assumiria o comando técnico do Karpaty Lviv em 2008, colocando o emblema ucraniano na rota dos lugares europeus. Em 2010/11, afastou o Galatasaray no playoff da Liga Europa, concluindo a sua participação no quarto lugar do Grupo J, atrás de Paris Saint-Germain, Sevilha e Borussia Dortmund. Em outubro de 2011, Kononov despediu-se do clube na antepenúltima posição do campeonato e após falhar o acesso à fase de grupos da Liga Europa. Na memória dos adeptos ficariam dois quintos lugares – a melhor classificação do clube desde 1999 – e a participação nas provas europeias, 12 anos depois. Em 2012/13, Kononov assumiu o comando técnico do Sevastopol – o emblema mais representativo da Crimeia – onde conquistou com relativa facilidade a segunda divisão ucraniana e atingiu as meias finais da Taça.

Na primeira temporada à frente do Krasnodar, Kononov colocou a equipa de novo nos trilhos e terminou num impressionante quinto lugar, garantindo um apuramento inédito para as provas europeias. Na Taça da Rússia, a equipa também fez história ao atingir a final, na qual acabaria derrotada pelo Rostov, após o desempate por grandes penalidades. O tridente de ataque do Krasnodar era composto exclusivamente por jogadores brasileiros: Joãozinho, a figura maior da equipa; Ari, ex-Spartak de Moscovo, que cumpriu o caminho oposto de Movsisyan; e Wanderson, ponta-de-lança proveniente do futebol sueco, que se sagrou o melhor marcador da equipa no campeonato pela segunda temporada consecutiva.

Em 2014/15, o Krasnodar contrariou todas as expectativas e afastou os espanhóis da Real Sociedad no playoff da Liga Europa. Na fase de grupos, a equipa deu boa conta de si, apesar de ter integrado o grupo da morte, juntamente com Lille, Everton e Wolfsburgo. No campeonato, a equipa ocupou a segunda posição, que lhe daria um apuramento histórico para o playoff da Liga dos Campeões, durante várias jornadas, acabando eventualmente por o deixar escapar na recta final da competição, para o CSKA de Moscovo, que beneficiou da vantagem no confronto directo.

Na presente campanha, a prestação no campeonato não tem sido tão famosa. Apesar de possuir um dos melhores saldos entre golos marcados e sofridos, a equipa ocupa apenas a sexta posição, contudo, a escassos dois pontos do último lugar do pódio. Na Taça da Rússia, o Krasnodar já deixou pelo caminho o Zenit-Izhevsk, do terceiro escalão, e o primo-divisionário Anzhi Makhachkala. O Terek Grozny é o adversário que se segue nos quartos de final, agendados para o próximo dia 1. No entanto, é na Europa que a equipa mais tem brilhado.

Esta rápida ascensão não seria possível sem o contributo do seu presidente, Sergey Galitsky, um multimilionário russo de 48 anos. Natural de Sochi, a segunda maior cidade da província de Krasnodar, Galitsky é o fundador e proprietário da Magnit, a maior cadeia de supermercados da Rússia, e a quarta maior em todo o Mundo. Desde que fundou o clube, a sua prioridade nunca passou pela contratação de jogadores sonantes. Ao invés disso, o clube tem feito um forte investimento nas suas infraestruturas e apostado em elementos geralmente mais jovens ou sem espaço nos seus principais rivais.

O capitão de equipa Andreas Granqvist e o médio Pavel Mamaev – o jogador mais valioso deste conjunto – partilham o “título” de contratação mais cara na história do clube, com negócios avaliados em 5 milhões de euros. Proveniente do Dínamo de Moscovo, Fedor Smolov chegou a Krasnodar no início da temporada a custo zero e bastaram um par de meses a bom nível para se tornar numas das mais fortes alternativas a Artem Dzyuba, no próximo Campeonato da Europa. Ponta-de-lança de raiz, Smolov tem actuado preferencialmente a partir da esquerda, na ausência forçada de Joãozinho. No clube desde 2011, o médio brasileiro é o recordista de presenças do clube com 145 jogos com a camisola dos touros. Para assinalar o jogo 100, Joãozinho recebeu das mãos do seu presidente um relógio Rolex.

Na última janela de transferências, o Krasnodar garantiu o empréstimo daquele que estava a ser, muito provavelmente, o melhor guarda-redes do nosso campeonato, Stanislav Kritsyuk, que enfrenta a concorrência do veterano Andriy Dykan. O meio-campo é composto por três operários: Sergey Petrov, Charles Kaboré e Odil Akhmedov, que se liberta para terrenos mais avançados, quando não está em campo o uruguaio Mauricio Pereyra, exímio nos lances de bola parada. Yuri Gazinskiy é o 12º jogador desta equipa e o colombiano Ricardo Laborde, o seu joker. Os experientes Vladimir Bystrov e Dmitri Torbinski, funcionam como alternativas para as faixas de um ataque, que tem em Ari, o seu elemento mais adiantado. Apesar de já não ser utilizado com tanta regularidade, Wanderson ainda mantém um interessante registo goleador.

Em 2009, o clube inaugurou nas margens do rio Chetuk, um centro de treinos com o mesmo nome. À sua disposição, os jogadores têm seis campos com as dimensões regulamentares – cinco em relva natural e outro em relva artificial – um campo de relva natural com menores dimensões, um campo de areia e um campo de futebol-ténis. No ano seguinte, Galistky investiu 64 milhões de euros na construção daquela que é considerada a melhor academia de formação da Rússia. O complexo foi construído junto ao centro de treinos e inclui um mini-estádio com 3 mil lugares e 8 edifícios residenciais. O edifício principal alberga um ginásio, duas saunas, uma piscina com jacuzzi, um centro médico, uma biblioteca, salas de aulas, uma sala jantar e os escritórios dos serviços do clube. A academia acolhe crianças entre os 6 e os 12 anos de idade, provenientes de outras 20 escolas de futebol, distribuídas por toda a província de Krasnodar, todas elas patrocinadas por Galitsky.

O empresário de origem arménia alimenta a expectativa de construir um plantel, composto na sua maioria por jovens provenientes da academia. Neste momento, mais de 3 mil crianças alimentam o sonho de representar a equipa principal, no entanto, apenas um deles se mantém na primeira equipa. É o ponta-de-lança Nikolay Komlichenko. As maiores expectativas dos responsáveis do clube recaem sobre a geração nascida em 2003, que será a primeira a ter completado toda a sua formação no clube. Para além do futebol, Galitsky também tem outra obsessão: na academia, todas as crianças são encorajadas à prática do xadrez.

O Krasnodar possui a 6ª maior assistência do campeonato, no entanto, o estádio onde habitualmente joga não é o seu. O estádio de Kuban é a casa do seu maior rival, o Kuban Krasnodar, fundado há quase 90 anos, e que também compete no primeiro escalão. Em 2013, o Krasnodar iniciou a construção do seu novo estádio, cujo nome ainda não foi revelado. Com um custo superior a 200 milhões de euros, a conclusão desta arena com capacidade para 33 mil espectadores, estava prevista para o último trimestre de 2015.

Ao contrário de muitos magnatas russos, Galitsky construiu a sua fortuna do zero, no início da década de 90, e sem nunca recorrer ou beneficiar de ligações privilegiadas a altos membros do governo, liderado por Boris Yeltsin. E no futebol, este dirigente tem colocado em prática a mesma receita. Apesar de o sucesso ter chegado mais cedo do que se previa, Galitsky tem conduzido o clube com uma paciência e com uma paixão que não é comum a outros presidentes. Mas como se costuma dizer, “as coisas boas vêm para aqueles que sabem esperar”, e Galitsky tem recolhido os frutos desta aposta. Hajam mais como ele.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

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