24: Donos disto tudo

Fascinante é pouco para descrever o futebol. Basta uma bola, por menos rudimentar que seja, e está montado o espetáculo. Num qualquer compartimento da casa, numa rua perdida na cidade ou num estádio à frente de milhares e milhares de espetadores. Já parou para pensar que nada, em nenhuma outra esfera da vida, une tanto os povos como o Campeonato do Mundo? Este, podia ser um jogo como qualquer outro mas não o é. Envolve milhões, suscita paixões, gera opiniões e ferrozes discussões. Como um dia dissera Arrigo Sacchi, antigo selecionador italiano, "o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes da vida". Mas o futebol tem perdido os seus valores. Seja pelo descrécimo dos valores humanos das pessoas nele involventes, seja pelo inflacionar dos valores monetários e das discrepâncias entre as entidades que o constituem - os clubes. Todavia, a maior das vias para o sucesso ainda é o trabalho. E só através dele podemos assistir a um atenuar das dissimetrias impostas com o decorrer do tempo. E o futebol, felizmente, dá azo à ocorrência de surpresas. Estamos habituados a presenciá-las anualmente nos mais diversos campeonatos, sendo que por vezes as mesmas ultrapassam todas as proporções imagináveis. Assim, é meritório destacar o SC Braga de 2009/10 ou o Atlético de 2013/14, que numa e noutra circunstância bateram-se com os tubarões de cada país. Saímos da Península e passamos por Alemanha, onde o Dortmund, escassos anos após um período altamente conturbado, contrariou o favoritismo do Bayern, ou pela França, em que o único título de sempre do Montpellier foi conquistado no começo da injeção de metrodólares no PSG. Chegamos a Inglaterra e só nos lembramos do Nottingham Forest e do saudoso Brian Clough. No entanto, qualquer um destes feitos está ameaçado a ficar na sombra deste incrível percurso do Leicester. Literalmente, os donos disto tudo.

Lutar neste universo de bilhões, fazendo oposição ao oligopólio de Londres e Manchester, sob o leme de um treinador que reunia mais anticorpos do que apreciadores do seu trabalho e com jogadores de cujo talento para singrar neste patamar era questionável, é simplesmente soberbo. Poucos acreditam no título, mas o rótulo de candidato é já mais do que merecido. São demonstrações de qualidade e provas de consistência a mais para continuarem a ser ignoradas. Este é o conjunto que bateu o campeão e mais recentemente o Liverpool no seu reduto e que foi buscar os três pontos a Goodison Park e a White Hart Lane. A forma de jogar pode não ser memorável, mas é sobejamente eficaz. Consiste em oferecer a bola ao adversário, dando uma noção errónea de que está  a ser dominado, apostando tudo no contra-ataque, aproveitando assim os espaços deixados pelo oponente e fazendo o xeque-mate em períodos de menor fulgor contrário. Mahrez é quem serve, Vardy é quem culmina e Okazaki completa o trio de sonho. Kanté e Drinkwater revelam-se fundamentais no equilíbrio e com o tempo nota-se igualmente uma maior consolidação dos processos defensivos - nos últimos seis encontros para o campeonato, contabiliza-se apenas um tento sofrido. O Leicester vs Liverpool desta terça-feira foi paradigmático disso. Neste mercado, não chegou nenhuma "bomba" à cidade, mas o facto de nehuma das peças fundamentais ter saído já pode ser considerado um grande reforço. Seguem-se duas finais, no Etihad e no Emirates, embora o fosso criado permita manter intacto o sonho caso se registem derrotas em ambas as partidas, o que seria natural. A seguir, e sem a pressão extra de Taças e Competições Europeias com a qual terão que lidar os outros candidatos, avizinha-se um calendário mais acessível até uma fase final que será a derradeira prova de fogo para este emblema na estrada para a glória. Se a antigir, o maior vencedor será precisamente o futebol.

Este sábado, num dos jogos mais aguardados da temporada, os Foxes visitam o Manchester City. A equipa de Manchester continua a ser aquela que possui mais créditos para ser campeã e Pelligrini quererá despedir-se com pompa e circunstância. A recente ida ao Stadium of Light foi difícil mas ficou patente que quando os mecanismos não funcionam ao melhor nível, as individualidades resolvem. Aguero enquanto oportunista na grande área e as estiradas de Hart salvaram. Quem voltou a morrer na praia foi o Arsenal. Wenger proferiu duras críticas à arbitragem após um encontro de sentido único, mas a haver culpado pelo empate esse homem é Forster. É caso para dizer, quão bem está a Inglaterra servida de guarda-redes para o Euro 2016. Os Gunners até já foram superados na classificação pelo enterno rival Tottenham - ambos somam os mesmos pontos, mas com prejuízo para o Arsenal no que toca à diferença entre marcados e sofridos. Ainda no Top-6, o Machester United e a outra revelação, o West Ham, ganharam de forma confortável. Nota para os adeptos dos Red Devills que já não saíam de Old Trafford tão contentes com uma exibição da sua equipa há muito tempo. Está dado o mote para o clássico entre United e Chelsea ser bem melhor do que aquele da primeira volta, visto que os londrinos também registam melhorias, mesmo que não tenham ido além do nulo em Watford nesta quarta. Dia que ficou marcado pelo 3-0 do Everton ao Newcastle, o Rei dos Mercados que não consegue encontrar o caminho do sucesso. Está em zona de aflitos, à qual o Bournemouth distanciou-se após uma fantástica vitória em Shelhurst Park, beneficiando ainda da divisão de pontos na partida entre West Brom e Swansea.

Onze Ideal: Forster (Southampton); Coleman (Everton); Fonte (Southampton); Reid (West Ham); Borthwick-Jackson (Manchester United); Drinkwater (Leicester);  Kouyaté (West Ham); Barkley (Everton); Martial (Manchester United); Vardy (Leicester) e Kane (Tottenham).
MVP: Vardy (Leicester). Faltam palavras para descrever este jogador. Tudo o que possa ser dito será insuficiente. Não são só os golos que o tornam num dos melhores jogadores do futebol europeu desta época, mas todo o trabalho que leva a cabo. Da forma como tanto pode encontrar-se na área a ludibriar os defesas como descai na procura de espaços, sempre perfeitamente entrosado com a equipa e impecável na finalização. O primeiro golo ao Liverpool é monumental, sem desprimor para a grande assistência de Mahrez. Nem Roy Hogdson resistiu a esse momento, expondo todo o seu contentamento. Ele que vai ter uma enorme dor de cabeça na escolha dos avançados titulares no Europeu. Jogar com Kane, Vardy e Rooney em simultâneo seria extremamente arriscado e pelo menos um deles acabará por ser preterido. A seleção portuguesa é que não se importaria nada em receber um deles por "empréstimo".
Jogador a Seguir: Borthwick-Jackson (Manchester United). Depay não corresponde? Chama-se Lingard. Shaw ainda está lesionado? Aposta-se em Jackson. Mais uma prova de que quando existe talento, a idade pouco importa. Exibição segura do defesa esquerdo que tem ganho cada vez mais espaço no onze, fazendo parte da vitória para a FA Cup e deste jogo com o Stoke, indiscutivelmente um dos melhores da Era Van Gaal. Isto, depois de este último ter já experimentado Darmian e Blind à esquerda. Aliás, o jovem que completou 19 anos anos precisamente na última terça, a par de Lingard, foi o construtor do primeiro golo deste encontro e começa a despertar bastante expetativa, especulando-se que seja a "Next Big Thing" no que toca a defesas formados no centro de estágios de Aon.
Treinador da Jornada: Claudio Ranieri (Leicester)
A Desilusão: Arsenal. Duas vitórias em sete jogos de Premier League - uma delas, arrancada a ferros perante o Newcastle - revela-se preocupante. A derrocada iniciou-se no Boxing Day, ao ser goleado na casa do Southampton. Curiosamente, no início dessa semana os Gunners tinham ganho ao City e muitos começavam a vê-los como os principais candidatos ao título. Sol de pouca dura, nada ao qual já não estejamos familiarizados. O pior foi ver a passividade dos seus responsáveis no mercado, numa fase em que ainda muitas unidades encontram-se lesionadas e outras podem perfeitamente vir a ressentir-se com a sobrecarga de jogos. Uma alternativa credível a Giroud e um nome indiscutível, para a defesa e para o meio-campo, seriam suficientes. É que este tinha/tem que ser o ano do Arsenal, com o Liverpool e sobretudo o Chelsea tão longe daquilo que se poderia estar à espera, mais os grandes de Manchester a não largarem a intermitência. Para o ano o cerco vai fechar-se com a chegada de Guardiola e o hipotético regresso com toda a força de Mourinho. O treinador francês tem mérito em manter o Arsenal tantos anos na ribalta, mas ter o cheirinho do título sempre tão próximo e constantemente claudicar nos momentos decisivos torna-se frustrante, ainda para mais quando existe tanta resistência em comprar.
Menção Honrosa: Daniel Levy. Porque convém referenciar os dirigentes quando estes agem corretamente, vale a pena elogiar a forma como em 2014, nos primeiros tempos de Pochettino à frente dos Spurs, o dono do Tottenham teve a sensatez de segurar o treinador argentino quando muitos pediam a sua cabeça passadas escassas semanas. Os responsáveis podem ter sido mal-agradecidos na forma como prescindiram dos serviços de Redknaap e de Villas Boas, mas mostraram ter aprendido a lição. A temporada passada não terminou com nenhum feito de relevo, mas o clube cumpriu com o seu maior objetivo - ida à Europa. Nesta, começa-se a sonhar mais alto, exatamente com o mesmo treinador. Com um conjunto de jovens jogadores a grande nível, dá gosto ver este Tottenham jogar e a equipa encontra-se em três frentes. Na Taça é sabido que tudo é possível, no campeonato os curtos cinco pontos de desvantagem para o primeiro fazem sonhar e a fase de grupos da Liga Europa faz crer que a aposta nessa competição poderá também ser forte. Será desta que este clube, constantemente na zona de ninguém, conquista definitivamente a terra de Sua Majestade? As próximas semanas trarão as respostas.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues


Etiquetas: