O central com mais qualidade técnica a jogar em Portugal

A Liga Portuguesa vive, actualmente, uma crise no que diz respeito a defesas centrais. Longe vão os tempos em que a primeira divisão do futebol português proporcionava exibições fascinantes por parte de elementos como Jorge Andrade, Ricardo Carvalho e Pepe ou, mais recentemente, Bruno Alves, Otamendi, Mangala, David Luiz, Garay ou até Rojo. Luisão é o último resistente desta linhagem, mas também faz anos e começa a evidenciar alguns sinais de que será difícil voltar a apresentar-se ao seu melhor nível. Na verdade, é notório que não existe alguém no futebol português capaz de ombrear com a qualidade existente outrora nesta zona nevrálgica do terreno. Nomes como Jardel, Paulo Oliveira ou Maicon têm sido as principais bandeiras do eixo defensivo dos três grandes, mas parece faltar sempre algo. Diz-se que os centrais devem ser analisados em dupla, sendo que é fácil aferir que Ewerton ou Naldo no Sporting, Marcano ou Indi no FC Porto ou Lisandro no Benfica não preenchem todos os requisitos que definem um grande central. Falta regularidade, falta presença e falta, acima de tudo, a técnica que faz a destrinça entre um central normal e um central de top. À excepção de Ewerton, que, por problemas físicos, não consegue ter continuidade no seu rendimento, e do melhor Marcano, que nem sempre aparece, todos os elementos referidos têm um ponto negativo em comum: incapacidade na primeira fase de construção. Este factor acaba por ser um problema para os treinadores, visto que não há uma saída de bola tão “limpa” nem capacidade para queimar linhas de pressão do adversário com um passe que exija uma maior dificuldade de execução. Nas restantes formações acontece o mesmo problema (Marcelo, do Rio Ave, e Ricardo Ferreira, do Braga, situam-se num patamar intermédio, sendo que, por razões diversas, ambos são igualmente irregulares), embora a necessidade não seja tão premente. Ainda assim, é curioso verificar que o melhor central da Liga em posse de bola mora num “não grande”. Chama-se Zainadine e milita no Nacional da Madeira. À primeira vista poderíamos ser induzidos em erro pela sua origem (são raros os centrais africanos com esta qualidade técnica), pelo valor que custou aos madeirenses (apenas 100 mil euros proveniente do modesto Muçulmana) e pelo seu aspecto franzino (apenas 1,78 cm e 73 kg) e pouco autoritário. No entanto, o moçambicano corrige a sua baixa estatuta com uma inesperada capacidade de impulsão, um pouco ao estilo dos aposentados Córdoba e Puyol. Por outro lado, surpreende a tranquilidade com que Zainadine trata a bola, inclusive nos momentos em que está sob pressão, e consegue sair a jogar ou, de uma forma que parece simples, vira o flanco com um passe teleguiado. Por fim, o internacional AA por Moçambique possui ainda algumas características inatas dos jogadores com raízes no continente africano, nomeadamente a força, a agressividade e a velocidade, algo que lhe permite recuperar metros com muita facilidade. Trata-se de um atributo que, numa formação que alinhe em “bloco alto”, seria extremamente útil. Estes predicados elencados permitem-lhe ainda desempenhar sem problemas outras funções dentro das quatro linhas, nomeadamente a de lateral direito. Deste modo, Zainadine parece, aos 27 anos, talhado para outros voos, até porque o Nacional, pelo fraco rendimento colectivo da equipa, não lhe permite destacar-se como quereria e mereceria. 

Rodrigo Ferreira

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